Artigo: O coronavírus também pode chegar ao cérebro

Roberto Lent*

Os vírus, tão falados quanto pouco conhecidos, estão na fronteira entre os objetos inanimados e os seres vivos: são constituídos por moléculas de ácidos nucleicos – aquelas que alojam os genes – envelopadas por proteínas. Sua infectividade muitas vezes depende da existência de outras proteínas incrustadas na membrana de nossas células, que os reconhecem e os transportam para dentro.

Aí começam os problemas, porque os vírus interferem com quase tudo dentro das células, proliferam explosivamente e invadem o organismo, podendo em muitos casos causar um grande estrago na nossa saúde.

Os coronavírus não são diferentes. Há muito que descobrir sobre eles, mas já surgiram dados importantes revelados pelos cientistas dos primeiros países afetados.

Trago um exemplo: um grupo de pesquisadores chineses acaba de propor uma resposta a uma das principais perguntas em aberto sobre a Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus: por que é tão rápida e devastadora a falência respiratória dos pacientes vulneráveis (idosos, imunodeprimidos, diabéticos e outros), levando-os à morte em questão de dias?

Analisando observações no cérebro de pacientes falecidos e experimentos em animais, os pesquisadores constataram que os coronavírus podem chegar ao sistema nervoso, e que isso ocorre por via intranasal, antes mesmo de atingir o pulmão. A caminho do pulmão, os vírus são internalizados pelos filetes nervosos que inervam a mucosa olfatória e respiratória.

Dentro das fibras nervosas, os vírus passam de um neurônio a outro pelas sinapses, microestruturas que garantem a comunicação entre os neurônios. Assim são conduzidos com grande velocidade em direção ao cérebro, justamente para regiões-chaves do controle cardiorrespiratório, encarregadas da monitoração e comando dos músculos e vasos sanguíneos que mantêm no nível certo a função do coração e dos pulmões.

Avanço rápido

A rapidez desse percurso é assombrosa. Os primeiros dados epidemiológicos de Wuhan, na China, mostraram que o tempo médio entre os primeiros sintomas e a dificuldade de respirar foi de 5 dias, e 8 dias depois os pacientes já precisavam de internação em UTI para garantir sua sobrevivência com respiradores.

As implicações dessa descoberta são muito relevantes para sugerir tratamentos. De acordo com os pesquisadores, a neuroinvasividade do coronavírus por via intranasal ressalta a relevância do uso de máscaras respiratórias e a evitação dos contatos interpessoais de estreita proximidade física.

Além disso, aponta para a importância de desenvolver medicamentos antivirais que possam ser administrados por inalação nos primeiros estágios da doença, e capazes de penetrar a barreira hematoencefálica que, como o nome indica, controla a passagem de substâncias injetadas no sangue para o interior do cérebro. Tarefa da Ciência!

Na China, ao contrário do Brasil, a Ciência foi estimulada desde o início a utilizar sua expertise e debruçar-se imediatamente sobre a Covid-19. A resposta está sendo rápida. Já vimos esse filme no Brasil por ocasião da crise do vírus Zika, quando os pesquisadores brasileiros formados ao longo de anos de investimento, responderam com rapidez e eficiência.

Agora, enquanto o Ministério da Saúde se manifesta corretamente na sua esfera de ação, o Ministério da Ciência e Tecnologia mantém ruidoso silêncio. Não basta importar a ciência dos outros, temos que gerar a nossa.

*Roberto Lent é Professor Emérito da UFRJ e Pesquisador do Instituto D’Or