Artigo: O que eu tenho a ver com as mudanças climáticas?

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Por que países com os desafios de pobreza, desigualdade, segurança e desemprego têm que se preocupar com o aquecimento global? As nações que causaram o problema não são as que terão que resolvê-lo? Afinal, o que eu tenho a ver com isso?

Infelizmente, a lógica está errada e invertida. Se há países que poderiam não estar nem aí para a ameaça, são justamente os mais ricos. Apesar de serem os principais responsáveis pelo aquecimento global, eles são capazes de lidar melhor com anomalias climáticas, como as ondas de calor ou frio, a falta ou o excesso de chuvas, tufões e ciclones extremos. Quem tem mais capacidade tecnológica, infraestrutura e serviços públicos para defender suas zonas costeiras de elevações do nível do mar?

Países mais frios do Hemisfério Norte — Rússia, Canadá, Suécia, Noruega, Finlândia — poderão até ter ganhos econômicos, por motivos óbvios, com o aquecimento. Já no Brasil, as elevações de temperatura esperadas para a Amazônia e o Nordeste chegam a seis ou sete graus ainda neste século, dependendo do cenário. O número de dias com temperaturas máximas superiores a 35 graus pode aumentar 60% e passar de 150 por ano. E há os impactos na agricultura, um motor de nossa economia, ameaçada por mais calor e menos chuva.

Essa injustiça climática entre os que causaram o problema e os que mais sofrerão seus impactos também se dá entre as pessoas em uma mesma sociedade. Os mais ricos, por causa de seus padrões de consumo, emitem mais gases de efeito estufa, mas naturalmente sofrem menos com eventos como enchentes, deslizamentos, secas e calor extremo. Vivem em áreas mais bem servidas por infraestruturas, têm recursos para se adaptar, vivem e trabalham em condições menos vulneráveis. É de se esperar que negros, famílias chefiadas por mulheres, idosos e deficientes físicos sofram desproporcionalmente os impactos das mudanças do clima, pois têm mais dificuldade de acesso a serviços.

Estamos caminhando para uma situação quase desesperadora em relação ao clima global e temos muita pressa em resolver o problema. A cada dia perdido, a conta aumenta — e de forma exponencial. Mesmo quem não liga ou nega o problema terá de pagar a conta também. As mudanças climáticas vão afetar ricos e pobres, mas, como os primeiros terão melhores condições de se adaptar, o processo contribuirá, mais uma vez, para aumentar a desigualdade.

Estamos às vésperas de uma nova Conferência das Partes, em Glasgow. Nas negociações globais, é tentador pegar carona e deixar para o outro resolver, um clássico problema econômico do “free-rider”. A questão é que, por conta disso, estão todos de olho uns nos outros. Por enquanto, ainda não existem sanções duras para a definição de metas pouco ambiciosas ou o seu não cumprimento. Mas isso virá com certeza, e, ao contrário, vai se dar bem quem se adiantar ao problema, encontrar soluções inovadoras e baratas e entrar no espírito do esforço comum.

*Autor de “Mudanças do clima: tudo que você queria e não queria saber”, escreve o primeiro de cinco artigos que explicam a importância da conferência sobre o clima de Glasgow

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