Artigo: Obra de Marília Mendonça nos desafia a ampliar a agenda do feminismo

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Olha, pode ser que o feminismo não seja do jeito que você aprendeu nos livros — parecia sussurrar Marília Mendonça nos nossos ouvidos a cada nova canção. E talvez isso explique o rio de lágrimas que corre pelo Brasil neste momento em razão de sua trágica morte na sexta-feira, aos 26 anos. Vítima fatal de um acidente de avião, Marília nos deixa no auge da fama, ostentando os números mais superlativos do business musical brasileiro. É a artista de maior sucesso do feminejo, subgênero de sertanejo universitário representado por mulheres — com milhões de visualizações nas plataformas de streaming e YouTube, mais de 43 milhões de seguidores em suas redes sociais, somando Twitter e Instagram, além da live mais vista da pandemia, com 3,31 milhões de visualizações.

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Mas, nada disso importa tanto. O que talvez explique a nossa dor é que parece que a gente acaba de perder aquela amiga que tá ali do lado pro que der e vier, pronta pra tomar uma cerveja e falar da vida. Aquela amiga carismática, inteligente e autêntica, que fala o que pensa e que manda o papo reto de “Supera”, quando a gente insiste naquela relação que vai dar em nada. “tá de novo com essa pessoa, não to acreditando, vai fazer papel de trouxa outra vez, cê não aprende mesmo. (…).” Ou que relembra o porre da noite passada que a gente queria muito esquecer: “Diz que aguenta bebida, tomou duas seguidas, perna bambeou, ainda não lembrou, vou refrescar sua memória” de “Bebaça”.

Já a solidão amorosa cantada em "Graveto", eternizando na sua voz alguns dos mais sensíveis versos da MPB, compostos por Lucas Moura de Paiva, Matheus Padua e Normani Pelegrino Filho, não é só para mulheres. “Você virou saudade aqui dentro de casa, se eu te chamo pro colchão, você foge para a sala, e nem se importa mais saber o que eu sinto, poucos metros quadrados virou um labirinto (…) Não adianta pôr graveto na fogueira que não pega mais”. Tal como em muitas canções que compôs para cantores como Wesley Safadão e duplas como Henrique & Juliano e Jorge & Mateus, a precoce compositora que escrevia desde os 12 anos, cantava e compunha em muitas línguas.

Dona de uma voz potente e de letras que falam de amor, sexo, desejo e bebedeiras a partir do eu-lírico feminino, sem medo de colocar o dedo na ferida — e de encarar um monte de controvérsias (sim, ela também foi cancelada em diferentes ocasiões por comentários que fez em suas redes sociais). A obra de Marília nos desafia a ampliar a agenda do feminismo, ao trazer para a conversa temas do cotidiano da vida das mulheres reais, de carne e osso, dos muitos Brasis que nos habitam, tais como traição, infidelidade ou prostituição.

E por isso mesmo, fica tão difícil perder essa aliada, logo nesse momento. Porque Marília Mendonça nos obriga a abrir os olhos e ouvidos para as muitas formas de ser mulher no Brasil do século XXI, deixando um legado amplo, rico e complexo que, passada a dor destes dias, a gente vai conseguir avaliar melhor.

Simone Pereira de Sá é professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora de música brasileira. Pauline Saretto desenvolve dissertação sobre o feminejo no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF.

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