Artigo: Piolhos, vermes e o Código de Ética Médica

Mauro Schechter e Natalia Pasternak
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O artigo 113 do Código de Ética Médica diz: "É vedado ao médico divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por órgão competente".

Nos últimos meses, nossas caixas postais, Instagram, WhatsApp, Facebook, etc foram bombardeados por anúncios de webinars abertos a todos sobre "evidências cientificas" para o uso de drogas para a prevenção ou o tratamento, particularmente o tratamento precoce, de covid-19. Ao longo dos meses, as drogas propagandeadas mudaram. No começo, era a cloroquina. Depois, veio a ivermectina. Agora, a nitazoxanida. Os médicos propagandistas e o silêncio dos conselhos de medicina, no entanto, são os mesmos.

No caso dessas drogas, a situação é ainda mais grave do que a especificada no artigo 113 do Código. Não se trata de medicamentos cujo valor ainda não foi cientificamente reconhecido por órgão competente.

Trata-se de drogas que, por terem cientificamente se mostrado ineficazes, tiveram seu uso, para a prevenção ou o tratamento da covid-19 em qualquer fase ou situação, explicitamente contraindicado por todas as sociedades médicas nacionais e internacionais. Diversas sociedades médicas e científicas nacionais e internacionais emitiram notas informando que estes tratamentos foram testados para Covid-19 e falharam, ou sequer foram testados e não têm plausibilidade biológica para funcionar.

Tampouco foi solicitada à Anvisa uma modificação de suas bulas ou a aprovação da Comissão Nacional de Incorporação de tecnologias no SUS (Conitec) para que pudessem ser incorporadas ao formulário do Sistema Único de Saúde.

Além de proporcionar falsas esperanças às pessoas que acreditam nas informações infundadas que recebem, é inevitável que causem impacto negativo na pandemia. A falsa sensação de segurança trazida pelo uso de uma medicação que seria preventiva ou curativa leva incontável número de pessoas a abandonar ou relaxar as únicas medidas de controle da pandemia comprovadamente eficazes: distanciamento social, uso de máscaras e higiene das mãos.

A notoriedade advinda da oferta de soluções fáceis e baratas, que podem ser compradas na farmácia da esquina (algumas indústrias farmacêuticas devem estar adorando) torna-se lucrativa, abrindo espaço para consultorias bem remuneradas para empresas e escolas que, ante a omissão de diversas autoridades governamentais, buscam as soluções fáceis e baratas, mesmo que falsas.

A maioria desses médicos se vale de posições em instituições públicas, como universidades, para dar aparente credibilidade as suas afirmativas. Afinal, quem iria duvidar do professor universitário, devidamente apresentado de jaleco branco e como um grande especialista em sua área?

As reitorias e os corpos docentes dessas universidades deveriam se espelhar nos docentes da Universidade de Stanford que emitiram nota oficial denunciando um de seus membros, que fazia afirmações tão descabidas quanto propagandear o uso de nitazoxanida, ivermectina ou cloroquina para prevenção ou tratamento de Covid-19. O que, repetimos, além de claramente afrontar o Código de Ética Médica, coloca em risco a saúde individual e coletiva, ao contribuir para a expansão da pandemia de Covid-19.

Mauro Schechter é pesquisador principal, Projeto Praça Onze, professor titular de Infectologia, UFRJ; professor adjunto de Saúde Publica, University of Pittsburgh, e professor associado, Johns Hopkins University, EUA

Natalia Pasternak é pesquisadora visitante do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, presidente do Instituto Questão de Ciência, coautora do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)e membro do Comitê de Investigação Cética (EUA).