Artista cria ‘Odiar é...’, um almanaque que satiriza o discurso de ódio

Leonardo Sodré
Alex Frechette com o almanaque de inatividades: reflexão e diversão.

NITERÓI - Incomodado com o impacto do crescente discurso de ódio, de negação aos avanços da ciência e do pensamento progressista que se alastram pelas redes sociais através de fake news, o artista niteroiense Alex Frechette criou o “Odiar é... Livro de inatividades”. É um almanaque em que o único objetivo, diz ele, é fazer o leitor refletir e se divertir. A publicação de 38 páginas, não recomendada para menores de 18 anos, começa com um álbum de figurinhas não colecionáveis inspirado no clássico “Amar é...” — há dizeres do tipo “Odiar é... ser contra os direitos humanos” e “Odiar é... perseguir professores”. Mas há também sátiras a revistas de passatempo, como desenhos para não colorir que fazem referências a episódios recentes do noticiário (como a censura aos livros na Bienal do Rio); jogos dos erros; labirintos sem saída; uma corrida que não leva a lugar algum; e um diário-manual para aprimorar habilidades de ódio.

— Eu tinha feito um trabalho artístico parecido em 2015, com críticas gastos com a Copa e as Olimpíadas. Neste agora, eu usei algumas inatividades, só que com a temática do discurso de ódio, que, no meu entender, ficou mais evidente depois da censura à exposição “Queer museu”, em 2017 — conta Frechette, que tem 41 anos e é formado em pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ.

IMAGINÁRIO DOS ANOS 80

O livro trabalha com imagens e palavras, criando uma interseção entre a literatura e o campo das artes visuais. Tudo é simples e de fácil compreensão, o que torna mais divertido procurar referências e decifrar sátiras.

As 11 primeiras páginas são dedicadas ao “Odiar é...”, que recria o casal de personagens das clássicas figurinhas “Amar é...”, só que com expressões raivosas. Eles são retratados em situações que exaltam a teoria da Terra plana e fazem comentários racistas.

— Eu queria resgatar esse imaginário dos anos 1980, porque eles sempre foram peladinhos e nunca teve crítica alguma, as crianças colecionavam e todo mundo gostava. Isso mostra um pouco o quanto a sociedade está regredindo — conclui Frechette.

O lançamento do livro ocorreu na última sexta-feira, na Praça Salvador, em Laranjeiras. Foram lançados cem exemplares pela editora Circuito, e as vendas (R$ 10, a unidade) são feitas pelo autor em sua página no Instagram (@alex_frechette).

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