Artista faz sucesso com acrobacias em tecido ao ar livre, presa a rochas e com parapente

Eduardo Vanini
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“Às vezes, eu chego a algum lugar e penso comigo mesma: ‘Nossa, o que estou fazendo aqui?’”, confidencia a acrobata Amaralina Fagundes. Entenda-se por “lugar” cordas e tecidos pendurados a muitos — muitos mesmo — metros de altura. Basta entrar no Instagram dessa carioca de 37 anos (@amaralinavoa) para ver o quão vertiginosa é a sua vida, em meio a equipamentos presos a picos como a Garganta do Céu e a Agulhinha do Inhangá ou até mesmo a um parapente.

“Desde criança sou assim. Minha mãe fala que, quando via, eu já estava pendurada em algum canto”, diverte-se. Apaixonada por esportes, a coisa ficou séria quando resolveu fazer aula de circo, em meados dos anos 2000. “Ao subir num tecido pela primeira vez, pensei: ‘É isso que quero para a minha vida’.” Matriculou-se, então, na Escola Nacional de Circo, onde também começou a ensinar a prática um ano e meio depois.

Hoje professora do Circo Voador, Amaralina segue em busca de desafios. Há alguns anos, começou a fazer montanhismo e, ao ver um vídeo de acrobacias com tecido ao ar livre, decidiu juntar as duas paixões. Primeiro, usou as estruturas de highline, espécie de “corda bamba”, como base para prender os tecidos, em montanhas e praias. Depois, resolveu ir ainda mais alto, ao juntá-los a um parapente para que fizesse os movimentos em pleno voo, um feito inédito no Brasil. “O desafio é o que me motiva e alimenta. Não faço isso para ninguém. É para mim. A cada dia, vivo uma coisa nova. Não sei se conseguiria ser diferente”, conta a moça, que não costuma traçar metas a longo prazo e, portanto, não sabe dizer qual será a próxima peripécia. “Vivo o agora. A morte, para mim, é muito iminente.”

A depender da segurança usada em seu trabalho, as piruetas futuras estão bem asseguradas. Para o salto de parapente, por exemplo, ela levou quase um mês até desenvolver toda a logística necessária, com direito a muito treino em terra firme. Na hora de girar pelos ares a mais de mil metros de altura, estava presa a uma corda de segurança, usada também quando o highline está sobre um precipício. As lesões, ainda assim, são inevitáveis e a maior parte vem dos treinos. “Sou toda fraturada. Quebrei três dedos, tenho uma costela fora do lugar, a omoplata ferrada e já fiquei dois meses deitada numa cama”, enumera. “Mas as cicatrizes fazem parte do meu processo.”

E como fica todo esse espírito aventureiro em tempos de quarentena? Amaralina se adaptou para dar aulas ao ar livre, no Aterro do Flamengo, e desenvolveu o espetáculo “Só”, gravado em sua casa e disponível no YouTube. “A ideia foi retratar todos os meus anseios como artista aprisionada. Armei os equipamentos e cobri os espaços com tecido preto para dar a ideia dessa angústia. É tudo muito dramático e intenso”, descreve a artista, sobre a produção viabilizada pelo edital Cultura Presente nas Redes.

Em breve, ela lança, também no YouTube, um vídeo de acrobacias feitas num highline na Urca, dessa vez financiado pelo Prêmio Funarte RespirArte de Circo. Quando a superação é uma especialidade da casa, a inércia jamais será uma possibilidade. “Acho que, na outra encarnação, fui uma fênix”, diz a acrobata, com os pés bem firmes no chão.