Artista português radicado no Brasil, Fernando Lemos morre aos 93 anos

1 / 3

Fernando Lemos 2 Crédito Helena Wolfenson Instituto Moreira Salles.jpg

Fernando Lemos em seu ateliê, em São Paulo: artista exilou-se no Brasil por conta da ditadura Salazarista

RIO — Fernando Lemos morreu na tarde desta terça-feira, no Hospital São Luís, no Morumbi, onde estava internado desde o fim de novembro, devido a uma infecção renal. O artista deixa cinco filhos e a mulher, Beatrix Overmeer.

Referência do surrealismo português, Fernando Lemos chegou ao Brasil em 1953, fugindo da ditadura de Salazar. Por aqui, ele continuou desenvolvendo seu trabalho como fotógrafo, caracterizado por composições em preto e branco, com o uso de sobreposições e efeitos de luz. Mas também atuou como desenhista, pintor, escritor e artista gráfico. Também lecionou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) e foi um dos fundadoresda Associação Brasileira de Desenho Industrial, que presidiu entre 1968 e 1970.

No Brasil, travou contato com a intelectualidade local, como Sérgio Buarque de Holanda, Rubem Braga e Antonio Candido. Ainda em 1953, expôs no Museu de Arte Moderna de São Paulo, graças a uma indicação do crítico Paulo Emílio Sales Gomes, e no MAM do Rio, por intermédio de Manuel Bandeira.

Nascido em Lisboa, em 1926, aprendeu pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes, na década de 1940. Contudo, a câmera comprada aos 19 anos, fez com que seguisse o caminho de outros surrealistas célebres, como o americano Man Ray, que Lemos chegou a conhecer em Paris, em 1951.

As dificuldades de mobilidade por contra da poliomielite, contraída na infância, nunca limitaram o multiartista a desenvolver diferentes atividades. Aos 93 anos, ele havia deixado a fotografia de lado nos últimos tempos, mas continuava pintando e escrevendo.

Em cartaz até 26 de janeiro no Sesc Bom Retiro, em São Paulo, a exposição “Mais a mais ou menos reúne 86 obras do artista, entre fotografias, postais, desenhos e pinturas, incluindo trabalhos da década de 1940 até sua produção atual.

— Mesmo no hospital, o Fernando continuou desenhando e escrevendo poesias — conta Rosely Nakagawa, curadora da exposição. — Essa é a grande lição que eles nos deixa , de não aceitar qualquer limitação para a criação, seja ela política ou física. Ele jamais desistiu, sempre resistiu. O Fernando fez da liberdade o seu grande ideal de vida, em todas as áreas em que atuou.

Em outubro deste ano, o Instituto Moreira Salles anunciou a aquisição da maior parte de seu acervo pessoal, com mais de 2 mil trabalhos, entre fotos, gravuras, desenhos e peças de design. O IMS coleção mantém a coleção fotográfica considerada a maior do Brasil, com mais de 2 milhões de itens.