Artistas dão recados para Regina Duarte

Maria Fortuna

Convidados pelo GLOBO, nomes de diferentes áreas da cultura brasileira apresentam suas preocupações, perguntas e questionamentos para a atriz Regina Duarte, que assume, nesta quiarta-feira (4), a Secretaria Especial da Cultura do governo Bolsonaro. Fundação Palmares, Ancine e a tensa relação entre artistas e o governo são aguns dos assuntos abordados.

Maitê Proença, atriz: “O mundo conhece o Brasil por conta do samba, da bossa nova, do carnaval, ou seja, pela cultura alegre e criativa que nos caracteriza. Como fazer para que esta cultura volte a ter seu lugar ao sol?”

Luis Lobianco, ator: "O Brasil é um dos países que mais comete violência contra a população LGBTI+ no mundo, números confirmados pela ONU. De modo que levantar as questões dessa comunidade nas artes se torna urgente, são veículos de conscientização na experiência da empatia. Em 2019, o governo tentou cancelar um edital para audiovisual com blocos temáticos no universo da diversidade citando quatro produções específicas. A situação causou a demissão do então secretário da cultura, Henrique Pires, crítico ao filtro, que confirmou depois a perseguição aos projetos que foram excluídos na publicação dos contemplados. Gostaria de saber a posição da secretária Regina Duarte sobre a censura ao tema.”

Carlos Vereza, ator: “A proposta dela é pacificar a classe. Acho que esse é o caminho: sem pacificar, nada dá certo. Acho que ela pretende convocar a categoria para ouvi-la e que isso é fundamental.”

Conceição Evaristo, escritora: “Pensando em discurso literário como espaço em que se pode construir o imaginário sobre a nação, quanto mais diversa for essa autoria, mais esse discurso falará sobre a nação. Deixa de ser um discurso majoritariamente de autores homens brancos e passa a veicular o imaginário de mulheres e homens negros, de sujeitos que vivem sexualidade fora do modelo heteronormativo, que experimentam lugares sociais como o da pobreza, que vivem outra organizações sociais, como índios e ciganos. A secretária da Cultura teria uma política pública de incentivo para a facilitação da publicação dessas autorias? E um projeto que facilite as editoras que se voltam para elas?”

Cacá Diegues, cineasta: “Acho que o que precisamos do governo federal é a definição dos critérios em relação ao cinema brasileiro: se o estado vai manter a politica de apoio a nossos filmes através de leis de incentivo, de uma desburocratização imediata desses procedimentos e, sobretudo, sem nenhum tipo de censura política ou de costumes. Com essa politica, produzimos cerca de 180 filmes por ano, com excelentes resultados de público, além de sucesso de crítica e prêmios de qualidade no Brasil e pelo mundo afora.”

Glamour Garcia, atriz: "Ela sempre teve posições muito rígidas em relação à arte, cultura e política. Agora, é a oportunidade que ela tem de reverter isso. Espero que ela reformule toda essa visão de cultura que esse governo tem, que tenha a capacidade de fazer jus ao que trouxe glória e reconhecimento de seu trabalho. A gente vive tempos bem reacionários onde é difícil ser mulher, ter atitude e usar seu poder de ação. Espero que ela não ceda às pressões em volta dela no governo".

Flora Gil, empresária e produtora: “Na minha opinião o desafio de Regina Duarte no cargo de secretária especial da Cultura em Brasília será conciliar o que ela quer como projeto de cultura para o Brasil, o que a classe artística espera e a posição do governo atual em relação a cultura.”

Rodrigo França, diretor teatral e dramaturgo: “O movimento negro e o Teatro Negro Brasileiro questionam o presidente da Fundação Palmares, pois sua política contradiz o que a instituição prega. Eles serão ouvidos na sua gestão?”

Enrique Diaz, ator e diretor: “Como você pretende equacionar o trabalho na área cultural, que intrinsecamente demanda respeito à diversidade e ao florescimento do humano em direções muitas vezes não imaginadas, e portanto não domesticadas, com o contexto de um governo que justamente tem minado o pensamento em todas as esferas possíveis, em especial no retrocesso tão nítido das (des)políticas para a educação?”

Joel Zito, cineasta: “A Ancine começou a implantar uma política afirmativa de sucesso que está oxigenando o cinema nacional: muitos dos e das realizadoras negras beneficiadas por este reconhecimento estão bombando nos festivais internacionais. Como nova secretária da Cultura do Brasil, que enquanto atriz de sucesso interpretou em muitas novelas personagens que não admitiam o preconceito e a desigualdade racial, pretende reforçar as políticas afirmativas criadas pela Ancine?”

Enresto Neto, artista plástico: “Arte lida com o invisível, o indizível, ela é controversa assim como os nossos sonhos, que muitas vezes incomodam, assustam, mas, em outras, abençoam. Na segunda-feira passada, uma exposição foi censurada pela secretaria de Cultura do Rio e o belíssimo trabalho de um jovem artista foi retirado da mostra. Realmente, se ela estivesse dentro de uma igreja, poderíamos dizer que estaria desrespeitando a mesma, mas, no espaço da arte, pênis e vagina podem se misturar, pois tudo é sentimento, assim como nos sonhos. Retirar uma obra de arte de uma exposição é um grande desrespeito à arte e a nós mesmos, humanos, pois todos nós sonhamos. A pergunta que fica para a grande atriz Regina Duarte é: ela vai ser secretária da cultura ou secretária da censura?”

Moacyr Luz, compositor: “Tem uma brecha nesse governo onde a cultura consiga ser notada? Tem alguma possibilidade dessa nova gestão deixar de tratar a cultura como um vilão da sociedade? É necessário que o estado reconheça no samba a identidade do Brasil. Quase cotista, samba precisa construir o futuro desse enredo com apoio do poder público, editais que entendam a importância de uma velha guarda, tanto o samba-enredo patrimônio das comunidades, quanto os compositores dedicados as suas alas e suas tradições. Tem chance?”