ArtRio inicia edição presencial com obras sobre entraves políticos do país

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP: O curador Marcus Lontra durante cerimônia de entrega do prêmio de arte no Mube, em São Paulo. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP: O curador Marcus Lontra durante cerimônia de entrega do prêmio de arte no Mube, em São Paulo. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O poema no estande da Almacen Thebaldi Galeria dá o recado. “Nos tempos congelados, a arte resiste. Sob a sina dos tiranos, a arte resiste. No silêncio dos mortos, a arte resiste.” Escrito por Marcus Lontra, curador do espaço, o texto é uma síntese do clima desta 11ª edição da ArtRio, uma das maiores feiras de arte da América Latina.

Até domingo (12), o evento reúne na Marina da Glória, zona sul do Rio, 65 galerias —sete a mais em relação ao ano passado. Além disso, participam 16 instituições, como o Museu de Arte Moderna do Rio e a Escola de Artes visuais do Parque Lage.

Além de acontecer em meio à pandemia, a ArtRio abre as portas um dia após os atos de raiz golpista e com pautas autoritárias convocados pelo presidente Bolsonaro (sem partido). No galpão da feira, não era difícil esbarrar em obras que evidenciavam os entraves sociais e políticos do país.

No estande da galeria Movimento, trabalhos de artistas como Xico Chaves, Márcia X e Marcos Roberto colocam em evidência o Brasil da redemocratização e os percalços de grupos marginalizados.

“Nós amarramos essas obras para que elas pensassem questões políticas. Existem artistas de 70 anos que já falavam desse tema na ditadura e a nova geração está tratando disso de outro lugar”, diz Amanda Accioly, gerente da galeria.

“Quando o mundo está borbulhando, o artista tem uma pulsão, uma necessidade de tratar esses temas com as armas e com as forças que ele tem naquele momento”, diz ela.

Já a Galeria Sé levou quatro artistas e um duo para a feira. Segundo Maria Montero, proprietária da galeria, todos eles exercem alguma forma de ativismo e põem em relevo os conflitos entre o Rio de Janeiro e seus moradores.

“Quando a gente chega ao Rio, é essa sensação estranha. É um lugar maravilhoso, mas com um grande abandono social”, diz Montero.

No estande da galeria Almacen Thebaldi, cujas obras variam de R$ 3 mil a R$ 30 mil, trabalhos de Ana Durães, Beto Gatti e Eduardo Ventura jogam luz sobre as relações nem sempre pacíficas que o homem estabelece com seu entorno.

“A ideia desse espaço é fazer um recorte da nossa realidade. Os artistas pensaram na conexão do homem com a natureza, com a tecnologia e com o próprio homem”, explica Christian Vieira, art advisor da galeria.

A edição da ArtRio deste ano é a segunda que acontece em meio à pandemia. Em 2020, enquanto as principais feiras do mundo optaram pelas versões online, a ArtRio fez outra aposta e decidiu manter a estrutura física.

“Muito do que a gente gosta enquanto amante das artes visuais é a fisicalidade, a presença. É estar diante de uma obra e poder apreciá-la. A meu ver, foi muito importante fazer [a versão presencial] no ano passado e nesse por causa da necessidade que a arte nos traz da presença”, explica Brenda Valansi, presidente da feira.

De acordo com ela, os resultados da última edição não deixaram a desejar. “As vendas foram excelentes. Como a ArtRio foi única feira que aconteceu de forma presencial, as pessoas estavam ávidas para ver trabalhados de qualidade.”

Proprietário da galeria Pinakotheke, Max Perlingeiro confirma o saldo positivo da última edição. “Havia quase uma abstinência dos colecionadores e uma demanda contida de pelo menos um ano. Então, os nossos resultados e os de alguns colegas foram muito positivos.” O galerista espera repetir o bom desempenho este ano.

Com foco em modernismo, a galeria Pinakotheke apresenta obras de artistas clássicos, como Di Cavalcanti, Portinari e Antonio Dias. Os valores no estande variam de R$ 100 mil a R$ 1 milhão. “A feira está com uma ótima energia. Acho que vai ser um sucesso”, diz Perlingeiro.

Nesta edição, a máscara, a utilização de álcool em gel e o distanciamento social continuam presentes. No entanto, o protocolo sanitário ganhou uma nova exigência —para entrar na feira, o público precisa estar com a carteira de vacinação contra a Covid em dia. A medida se antecipa à determinação da Prefeitura, que a partir do dia 15 exigirá o chamado passaporte vacinal para a entrada em locais de uso coletivo.

Quem ainda não se sente confortável para sair de casa tem a possiblidade de explorar a versão digital da feira, modalidade que existe na ArtRio desde 2018. A plataforma online é gratuita e não tem restrição de horário. “É uma tendência em que a gente acreditava antes. Isso democratiza o acesso e a gente também atinge um público muito maior, que vem de outros lugares”, diz Valansi.

Apesar da economia cambaleante e da pandemia, ela acredita que o mercado de artes segue aquecido. “Ele já passou por guerras e se mantém justamente por ser um mercado consolidado. Apesar desse momento econômico e da Covid, nós estamos otimistas.” Com expectativa de receber entre 10 mil e 12 mil pessoas, ela diz que a venda de ingressos está maior se comparada com a do ano passado.

Os números confirmam que a pandemia de fato não castigou o mercado de artes como aconteceu em outros áreas da economia. Segundo relatório da plataforma Latitude, programa que reúne 48 galerias brasileiras, o volume de negócios no primeiro trimestre de 2020 foi igual ou superior ao de 2019. Apesar de uma variação negativa entre abril e junho, o mercado se recuperou no trimestre seguinte.

“A pandemia não atrapalhou. O fato de existir muita gente fazendo home office que ficava o dia inteiro no escritório faz com que elas comecem a perceber mais a casa”, diz Daniel Maranhão, sócio-fundador da Galeria Base, que terá pela primeira vez um estande na ArtRio.

Maranhão diz que o catálogo na feira conta com iluminogravuras de Ariano Suassuna, trabalhos que serão vendidas por R$ 15 mil. “Acho que Ariano tem um apelo muito forte no Rio. As pessoas vão conhecer algo que não faziam ideia, porque não o associam às artes plásticas, e sim à literatura”, diz ele, que está otimista em relação às vendas. “As expectativas estão lá em cima. Espero que não sejam frustradas.”

Jaime Portas Vilaseca também alimenta grandes expectativas para a ArtRio. Proprietário da galeria que leva seu sobrenome, ele diz que muitos colecionadores considerados VIP já confirmaram presença na feira. “Tudo isso me leva a crer que vai ser um bom momento para fazer negócio.”

Mesmo em meio à pandemia, a última edição do evento também rendeu bons resultados para ele. À época, havia no estande da galeria obras de dois artistas, número que vai aumentar neste ano.

“Adotei uma estratégia diferente da do ano passado, quando eu apresentei o Mulambo e o Rafael Baron. Esse ano, volto para um estágio um pouco maior”, diz ele, que apresenta dois estandes. O primeiro abre nesta quarta, trazendo obras de artistas como Yhuri Cruz, Ventura Profana e Ana Clara Tito. Já a composição do segundo catálogo será divulgada na sexta (10). A faixa de preço nos dois estandes varia entre R$ 3.000 e R$ 40 mil.

O otimismo de Vilaseca se estende à SP-Arte, maior feira de arte da América Latina, que acontece em outubro deste ano. “Eles ofereceram um novo espaço com poucas galerias. Acho isso muito bom. Para mim, quanto menor, mais atrativo fica, porque as pessoas têm tempo de visitar. Acho que esse novo formato vai funcionar”, diz ele.

11ª ARTRIO

Quando Qua. a sáb., de 13h às 21h. Dom., de 12h às 20h. Até 12/9.

Onde Marina da Glória — av. Infante Dom Henrique, s/nº, Glória

Preço R$ 100

Classificação Livre

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