Fome e asfixia social: Doações de refeições cobrem o vazio deixado por auxílio emergencial reduzido

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Sem conseguir nem mesmo os bicos que o mantinha com dificuldade, Cícero da Silva não compra as próprias refeições há um mês. 

“Estou parado, comendo com a ajuda dos outros: um me dá uma cesta básica aqui, outra ali, e assim eu vou levando; se não fosse a ajuda dos outros eu estava passando fome”, conta o desempregado morador do Jardim Damasceno, zona norte de São Paulo, na fila para receber duas marmitas para ele e o filho de 12 anos.

A comida distribuída diariamente já pronta pela dona do bar da comunidade é o que garante a alimentação de pelo menos duzentas pessoas na comunidade, e que vem suprindo a falta deixada pelo governo e o auxílio emergencial reduzido que chegou apenas em Abril. 

Levantamento aponta que o número de moradores de periferias que dependiam de doações para manter a alimentação saltou de 67% para 80%. (Imagens: Gustavo Basso/Yahoo Notícias; Montagem: João Kneipp/Yahoo Notícias)
Levantamento aponta que o número de moradores de periferias que dependiam de doações para manter a alimentação saltou de 67% para 80%. (Imagens: Gustavo Basso/Yahoo Notícias; Montagem: João Kneipp/Yahoo Notícias)

No pior momento da pandemia da Covid-19, com mais de 4.200 mortes em 24 horas, milhões de pessoas foram buscar alguma renda na informalidade.

Primeira a sentir a falta de dinheiro no bolso da comunidade, Kelly Menezes articulou uma rede de contatos e usa seu bar como ponto de distribuição das refeições: “Sem dinheiro, muitos foram pra rua, outros guardaram para pagar aluguel; quem não tinha com o que ganhar algo, passou a juntar lixo para reciclagem”, conta, revelando o nível de necessidade em 2021. 

“Esse ano piorou muito; sem auxílio emergencial as famílias não tinham condição de levar uma janta para casa”.

Edyanny Alves é uma destas pessoas que apelou à reciclagem para ter alguma renda. Vivendo há três meses com R$ 300 para ela, o marido e os dois filhos, ela reclama da concorrência. 

“Com a crise, é cada vez mais gente catando lixo para reciclagem, então aquele pouco que já tem com menos gente nas ruas, acaba repartido ainda mais; sobra muito pouco”, conta ela, que passaria fome não fossem as doações.

80% das famílias carentes dependem de doações para comer

O cenário se repete por diferentes regiões da cidade mais rica do país. Em Paraisópolis, a associação de moradores vem desde Abril do ano passado organizando uma cozinha comunitária que recebe as doações captadas em parceria com o G10 Favelas, organização que reúne as dez maiores favelas do país.

No melhor momento de 2020, eram distribuídas até 4.000 quentinhas todos os dias. Desde então as doações vêm minguando, e hoje o preparo se limita a 1.500.

Pico das doações de refeições*:

  • 2020: 4 mil

  • 2021: 1,5 mil

  • Queda de 62,5%

Na fila das refeições e de barriga vazia, Margarida Nunes lamentava o risco de ser despejada. “Há noite que eu nem durmo, de tanta tensão, pensando de onde tirar dinheiro”, conta a ex-diarista, desempregada há um ano. O marido, que trabalhava em uma lavanderia, perdeu o emprego em Março, afetando o pagamento do aluguel.

Em 2020, as doações giravam em até 4.000 refeições por dia. Agora, o preparo se limita a 1.500. (Imagens: Gustavo Basso/Yahoo Notícias; Montagem: João Kneipp/Yahoo Notícias)
Em 2020, as doações giravam em até 4.000 refeições por dia. Agora, o preparo se limita a 1.500. (Imagens: Gustavo Basso/Yahoo Notícias; Montagem: João Kneipp/Yahoo Notícias)

“Todos os dias eu venho pegar as marmitas, que eu como um pouco e guardo para a janta, e ainda a cesta básica”. Se não fosse isso, não saberia nem como fazer”, diz.

Segundo levantamento do Instituto Locomotiva de pesquisa em parceria com a Cufa, 80% dos moradores de favela no país dependem de doações para manter a alimentação. Na pesquisa anterior, no final de 2020, esse índice era de 67%, indicando a pior na situação. 

Dependência de doações*:

  • 2020: 67%

  • 2021: 80%

  • Aumento de 13 p.p.

'Quanto mais pobre, mais chance de morrer pela Covid-19'

“Não é à toa que todos os levantamentos sorológicos mostram que quanto mais pobre, maior o índice de contaminação; quanto mais periférica a área, maior o número de mortos pelo coronavírus”, afirma Renato Meirelles, diretor da instituição.

Levantamento sorológico feito em agosto de 2020 em Paraisópolis revelou que metade da população da comunidade já havia tido contato com o coronavírus, enquanto a média de São Paulo era de 11%. Hoje essa taxa subiu para 33,5%, o que significa que um a cada três paulistanos já foi infectado pelo Sars-CoV-2.

As zonas norte e leste de São Paulo, as mais pobres, concentram quase a totalidade dos distritos com maior número de mortos por Covid-19 por habitante. (Imagens: Gustavo Basso/Yahoo Notícias; Montagem: João Kneipp/Yahoo Notícias)
As zonas norte e leste de São Paulo, as mais pobres, concentram quase a totalidade dos distritos com maior número de mortos por Covid-19 por habitante. (Imagens: Gustavo Basso/Yahoo Notícias; Montagem: João Kneipp/Yahoo Notícias)

Inquérito sorológico SP: contato com a Covid-19?

  • 2020: 11%

  • 2021: 33,5%

  • Aumento de 22,5 p.p.

A pesquisa do Instituto Locomotiva também revelou que 70% dos 16 milhões de moradores de favelas ficaram sem dinheiro para comprar comida nas últimas duas semanas, e que a alimentação piorou. Em média, são menos de 2 refeições por dia por pessoa.

As zonas norte e leste da capital, mais pobres, concentram quase a totalidade dos distritos com maior número de mortos por Covid-19 por habitante. 

Entre eles o distrito de Brasilândia, onde fica o Jardim Damasceno, onde Kelly Menezes distribui as quentinhas. Trata-se de um extenso cinturão de pobreza, com cerca de 20% da população vivendo em favelas, e que vem aumentando, com novas ocupações.

Com a pandemia, quem vivia 'no limite' caiu para a miséria

Para o Frei José dos Santos, diretor presidente do Serviço Social Franciscano (Sefras), essa população vivia no limite, com condições de pagar moradia e alimentação simples, mas na pandemia caiu para a miséria.

“Vejo muita gente que teve de sair de favelas consolidadas para migrar para ocupações precárias, sem rede de água ou esgoto, barracos de madeira. É esta população que tentamos atingir com mais força”, conta.

O Sefras é responsável por parte das distribuições de alimentos na zona norte, e no centro vem desde o começo de 2020 distribuindo comida, roupas e artigos de higiene para um perfil de pessoas que vem mudando no último ano. 

“Antigamente atendíamos sobretudo aquela população de rua crônica, que há anos vive nas ruas; hoje a maioria são famílias, gente que perdeu suas casas e veio para o dentro ou cruza a cidade para buscar alimento porque, com a pouca renda, priorizou ter um teto”, relata Santos.

Famílias deixam o Bolsa Família para aceitar o Auxílio Emergencial

Entre estas famílias está a de Maxuell Cardoso, que, com a companheira Verônica Aparecida, deixou a casa onde moravam em São Mateus para viver em um abrigo na região da República. 

Ambos perderam os empregos no fim de 2020, e em um cenário cada vez mais comum, tiveram o Bolsa Família substituído pelo auxílio emergencial, apesar deste último ser menor. 

“Meu bolsa de R$ 270 foi bloqueado e na Caixa fui avisado que receberia agora em maio o auxílio, de R$ 150”, reclama Veronica. Com o dinheiro eles compram produtos de higiene e poucos itens para os filhos de 10 e 6 anos, como bolacha e leite em pó. As refeições ficam por conta das doações.

Com a pandemia da Covid-19, a população que vivia
Com a pandemia da Covid-19, a população que vivia "no limite", com condições de pagar moradia e alimentação simples, caiu para a miséria. (Imagens: Gustavo Basso/Yahoo Notícias; Montagem: João Kneipp/Yahoo Notícias)

Todas as manhãs os quatro caminham ao Largo São Francisco para pegar a refeição do dia, que ainda é guardada para a janta. 

Na fila, Cardoso aproveita para relembrar com saudade em fotos no celular os momentos quando vivia sob sua própria casa: 

“Antes dessa pandemia nós tínhamos outra condição de vida, ia pra Shopping, churrascaria, era bastante legal; mas me dá ainda mais saudade ao olhar para eles e ver que eu podia dar outra vida a eles”. Enquanto a vacina anda a passos lentos, a economia rasteja levando consigo a fome a uma multidão na cidade mais rica do país.

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