Asilos de São Paulo registram aumento de casos de Covid-19

Aline Ribeiro
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SÃO PAULO — Depois de quatro meses de queda, asilos da cidade de São Paulo registraram aumento de casos de Covid-19 em novembro. Juntas, as casas de repouso filantrópicas e particulares contabilizaram 56 idosos com a doença no mês passado, um salto de quase 230% em relação a outubro, momento em que a epidemia estava relativamente controlada na capital paulista. O número de óbitos nessas instituições passou de 1 para 3 nesse período. O levantamento foi feito, a pedido do GLOBO, pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, com base em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).

De abril a dezembro, de acordo com os dados do Sinan, os asilos paulistanos computaram o total de 2.250 idosos contaminados pelo coronavírus. Desses, 349 faleceram em decorrência da doença. O mês de junho concentrou o maior número de casos (770) e óbitos (129) nessas instituições. O segundo pior mês foi maio, com 730 doentes e 108 mortes.

Segundo a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, os 1.189 idosos residentes nos 22 asilos da prefeitura, assim como todos os colaboradores dessas instituições, foram testados com o exame RT-PCR, que detecta a presença do Sars-CoV-2. A testagem coletiva contribuiu para controlar os surtos nesses estabelecimentos. Profissionais contaminados foram afastados e idosos, isolados.

Natal à distância

Segundo a promotora de Justiça do Idoso Cláudia Maria Beré, os surtos nos asilos melhoraram no decorrer da pandemia, mas nunca deixaram de ocorrer. Diante do atual agravamento da pandemia, a chamada "segunda onda", Beré se diz preocupada com a situação dos idosos, em especial devido às festas de Natal.

— Sabemos que é um momento difícil para os idosos e suas famílias, mas a saída dessas instituições para participar das festas é um grande risco. Porque tem contato com algumas ou várias pessoas. Estamos recomendando que se façam presentes por meios virtuais, como se a família morasse em outro país — disse Berá.

Na casa de repouso Sociedade Beneficente Alemã, os protocolos de segurança se adequaram à medida que o perfil epidemiológico foi se modificando. Nos primeiros meses, enquanto São Paulo vivia a quarentena mais rigorosa, o restaurante e a cafeteria foram fechados e as visitas, reduzidas. Quando a curva de contágio estabilizou, banho de sol e refeições ao ar livre foram liberados. Com a subida de casos recentes, a instituição voltou à rigidez inicial.

— Tivemos casos no decorrer da pandemia, mas a segunda onda graças a Deus não chegou. Acredito que houve uma curva de aprendizado muito grande, devido aos cuidados que tivemos. Agora vamos redobrar a atenção — afirma Fernanda Steck, gerente de atendimento ao cliente.

Inimigo invisível

Aos 87 anos, o aposentado Giorgio Gambirasio mora há quatro na Sociedade Beneficente Alemã. Ele conta que a última visita que recebeu foi numa sala na portaria, com todos desinfetados, de máscara, touca, óculos e luva, o que chamou de "vestimenta de astronauta". Nascido da Itália, Gambirasio vivenciou a Segunda Guerra Mundial e diz que, diferentemente de agora, naquele momento o inimigo era conhecido.

— Essa gripe é um inimigo invisível. Ninguém sabe onde pode estar, quem pode transmitir. O isolamento aqui é isolamento mesmo, quase uma prisão. Quando raramente encontro outro morador ao andar pelas ruas do residencial, a gente se cumprimenta à distância. É como se toda pessoa que aparece na frente fosse potencial inimigo. Isso é muito angustiante. Neste Natal, minha família não vai se reunir. Vamos passar pendurados no WhatsApp — diz.