ASMR: Para aliviar isolamento, driblar insônia ou apenas ter prazer, ‘sons para relaxar’ se tornam fenômeno pop

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Londres — Numa das cenas mais comentadas da série “The White Lotus” (HBO), duas adolescentes entediadas tentam relaxar com sons suaves e repetitivos. Enquanto uma fecha os olhos, a outra sussurra, acende um isqueiro e sacode um frasco de comprimidos no ouvido da outra. Para quem já consome vídeos ASMR há tempos, não tinha novidade ali, mas o público que nunca explorou essa febre digital invadiu as redes para perguntar aonde as meninas queriam chegar. Elas estavam em busca de um gatilho para atingir o que já foi descrito como “orgasmo cerebral”, um estado de relaxamento absoluto provocado por estímulos sonoros, visuais, cognitivos. É uma mania que já não pode ser chamada de nicho. Está mais para fenômeno pop, impulsionada pela pandemia e pelas novas gerações que habitam plataformas como TikTok e Twitch.

ASMR — sigla em inglês para Resposta Sensorial Meridiana Autônoma — é o nome dado a uma experiência prazerosa que causa um arrepio ou formigamento leve, começando pelo couro cabeludo e se espalhando pelo corpo. O resultado é uma sensação de conforto e sonolência. Em outras palavras, paz. A multiplicação de vídeos e podcasts para desencadear essa profunda calma ao pé do ouvido, ou melhor, do microfone, comprova a popularidade global do formato.

Os criadores estão cada vez mais profissionalizados, investindo em canais que podem atrair milhões de seguidores graças a uma reprodução em alta qualidade de sons como o do plástico-bolha estourando, de chuva, de alguém mastigando lentamente, de cabelos sendo penteados ou do simples ato de arranhar o microfone.

Em geral os gestos são narrados com uma fala sussurrante e pausada, mas também há quem prefira apenas ruídos. É possível assistir a vídeos de até duas horas de duração só com o som de um secador de cabelo. O último sinônimo de viralização no TikTok são os vídeos com sons de farmácia. Coisas como pílulas sendo contadas e frascos de remédio sendo lacrados.

Não, não é todo mundo que vai sentir o tal formigamento — uma reação que pode estar ligada a memórias —, mas o estresse permanente em que vivemos tem aumentado a procura. O Google Trends mostra uma subida estável da busca por vídeos ASMR nos últimos cinco anos. No YouTube eles já são mais de 13 milhões. Na plataforma de streaming Twitch a visualização de vídeos ASMR cresceu 100% desde o ano passado. Embora não se trate de nova moda — as primeiras comunidades on-line nasceram há mais dez anos — a pandemia ampliou a força da onda sensorial digital, para aliviar os males do isolamento ou driblar a insônia:

— Vários estudos já mostraram que ASMR ajuda as pessoas que lutam contra o estresse e os desafios da saúde mental, então faz sentido que os vídeos tenham sido um recurso eficaz para muitas pessoas em tempos difíceis — diz o professor Craig Richard, da Universidade Shenandoah, na Virginia (EUA), que coordena um estudo sobre ASMR e apresenta o podcast “Sleep Whispers”.

O interesse não é só acelerado pelas redes. O fenômeno foi incorporado por anúncios, programas de TV e filmes, além de já ter sido explorado por celebridades como Cara Delevingne, Jake Gyllenhaal, Salma Hayek e Gal Gadot. Os gêneros de ASMR são incontáveis. O conteúdo mais popular, no entanto, continua sendo o “tradicional”, segundo Richard: alguém falando baixinho enquanto olha para a câmera, fazendo movimentos suaves com slime (aquela massa pegajosa que as crianças amam), massageador de arame ou pincel de maquiagem, entre outros instrumentos.

A americana Sharon Dubois admite que a primeira vez que viu um vídeo do gênero estranhou, mas recorreu a um deles para vencer a insônia. Dormiu feito um bebê.

Hoje ela tem o canal ASMR Glow no YouTube, com 1,54 milhão de seguidores, e está entre as mais populares artistas ASMR:

— Antes, era tudo muito novo e o conteúdo era muito cru, com equipamentos de qualidade inferior, mas era charmoso. Agora, tudo ficou mais profissional e elaborado, mas ainda nos sentimos ligados àqueles primeiros vídeos.

Ela tem um repertório variado para dar boa noite, que vai de acariciar o microfone a cochichar vestida de personagem de “Guerra nas Estrelas”. Seu público é composto principalmente por pessoas com ansiedade e problemas para dormir, mas também atrai quem sofre de depressão ou está enfrentando alguma dor.

— Por mais curto que seja, um vídeo ASMR representa um autocuidado. É uma maneira diferente de relaxar após um longo dia, e é acessível, só exige um celular. A pandemia trouxe o isolamento e recebo muitos comentários de pessoas que dizem se sentir como se fossem minhas amigas — resume Sharon.

Até no barbeiro

O Brasil tem fenômenos como Sweet Carol, com mais de dois milhões de inscritos no YouTube. Já o italiano Massimo Tarantelli, aka ASMR Barber, investe num único gênero: vídeos gravados em salões de barbeiro pelo mundo. É uma subcultura ASMR, com hits que podem ultrapassar 50 milhões de visualizações, como o vídeo do indiano Baba Sen (morto em 2018), especialista em massagem capilar que virou cult graças a youtubers como Tarantelli, que começou a postar em 2013 e não parou mais. No TikTok tem um milhão de seguidores, mas não acha que a plataforma seja o canal ideal para os fãs.

— ASMR exige um estado de relaxamento que vídeos curtos não permitem — avalia o italiano, que resiste à ideia de que esse tipo de conteúdo tenha virado mainstream. — Está crescendo e vai crescer muito, mas não é todo mundo que sente os estímulos. Acredito que sempre será um nicho.

Ele ainda não vive só da renda gerada pelos vídeos, mas o interesse de marcas globais ratifica o potencial do ASMR como negócio. Sussurrando e abrindo suavemente uma garrafa de cerveja à beira de uma cachoeira num anúncio no intervalo do Super Bowl em 2019, a atriz Zoe Kravitz hipnotizou milhões de espectadores que continuam sem saber o que é ASMR.

— Eu não sei sussurrar — admite Tarantelli. — Então, foco no que funciona como gatilho. Parece fácil, mas provocar uma sensação de relaxamento com murmúrio é bem difícil.

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