Chega de matar nossas crianças

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As primas Emily e Rebeca, assassinadas enquanto brincavam no quintal de casa em Duque de Caxias. Foto: Reprodução
As primas Emily e Rebeca, assassinadas enquanto brincavam no quintal de casa em Duque de Caxias. Foto: Reprodução

O título deste texto podia ser lido em uma das faixas do protesto realizado neste domingo 6 que reuniu ativistas, familiares e vizinhos de duas meninas mortas a tiros em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Rebeca, de sete anos, e sua prima Emilly, de quatro, brincavam na porta de casa na sexta-feira 4 quando foram alvejadas -- segundo a família, por policiais que passavam pelo local.

Uma das crianças teve a cabeça estourada pela bala. A descrição da forma como elas foram encontradas é dos relatos mais chocantes que alguém pode ler em vida.

Não, não estamos falando de “Bacurau”, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles que boa parte do país só conheceu após a exibição na TV Globo e que trata exatamente da conversão de comunidades e seus moradores em alvos de um safári humano. Em uma das cenas, uma criança é eliminada do jogo por cruzar a linha dos assassinos. São eles que determinam qual é a linha. São eles que determinam quando é a hora errada ou não. São eles que detêm as armas. São eles que detêm as sentenças de morte.

Duas crianças foram assassinadas a tiros enquanto brincavam na porta de casa. Nada mais importa. Nada mais deveria importar.

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Nem o traço do sobrado nem a lente de emissoras nem a determinação do STF sobre se Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre podem ou não podem rasgar a Constituição e emplacar mais dois anos à frente da Câmara e do Senado. Não importa nada enquanto nada impedir que um agente de segurança arranque a tiros duas crianças de suas famílias ao fim de um dia de trabalho.

Não há segurança daquele portão para trás. Não há país daquele portão em diante.

Em sua coluna na Folha de S.Paulo, o advogado, professor de direito internacional e direitos humanos Thiago Amparo fez uma série de questionamentos públicos sobre o principal suspeito do crime: o Estado.

São as perguntas que todos deveriam se fazer neste dia --e não deveria haver, como não haverá, normalidade enquanto elas não forem respondidas. É o que vai transformar uma brincadeira em frente de casa em risco de vida ou não.

Entre os questionamentos: o governador do Rio autorizou ou foi informado da operação policial na mesma hora e no mesmo local onde aconteceu o crime?

O Ministério Público, que em breve vai escolher seu novo chefe, está informado e está acompanhando o caso? Qual era o objetivo e qual foi o resultado da operação? As armas dos policiais que estavam no local foram recolhidas e periciadas?

Dois dias após o crime, tudo segue em aberto. O país que está prestes a completar 1000 dias de pergunta sem resposta sobre quem matou, e por que matou, a vereadora Marielle Franco tem uma lista de episódios e perguntas guardadas debaixo do tapete com a esperança de serem esquecidas em profunda sonolência --uma sonolência despertada por novos tiros, em novas vítimas, com novas respostas, e novas revoltas sobre perguntas não respondidas.

No mesmo dia em que as primas tiveram as vidas interrompidas, ao que tudo indica, pelo Estado que deveria protegê-las, este colunista fez uma lista de atrocidades ocorridas ao longo de duas semanas após o assassinato de João Alberto de Freitas, espancado por dois seguranças em uma unidade do Carrefour de Porto Alegre.

No mesmo período, o chefe da Fundação Palmares, subordinado de um governo que nega o racismo no país, excluiu 27 nomes da de personalidades negras dignas de homenagem, entre intelectuais e artistas.

À série de atrocidades podem ser incluídas agora as ameaças recebidas pela primeira (PRIMEIRA!) vereadora negra eleita em Curitiba, Carol Dartora (PT). O teor de um dos e-mails recebidos por ela ao fim da votação não é digno sequer de reprodução.

Os candidatos são muitos, mas o Brasil ainda não tem o seu George Floyd, vítima da violência do Estado despejada no joelho do policial americano que o asfixiou e se tornou símbolo do momento em que o mundo inteiro foi às ruas dizer “sem justiça não há paz”.

Se as vítimas das balas perdidas e encontradas no corpo negro não podem respirar, ninguém mais pode.

Até quando vamos perguntar até quando?