Assassinato de jovem gay de origem brasileira gera protestos e prisão de suspeitos na Espanha

·4 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O assassinato de Samuel Muñiz, jovem gay nascido no Brasil que morreu após ser espancado na rua, gerou uma forte onda de protestos contra a homofobia na Espanha. Na segunda (5), houve grandes atos em Madri, Barcelona e Corunha, onde o crime ocorreu. Nesta terça (6), três suspeitos foram presos.

Na madrugada de sábado (3), Samuel, 24, estava próximo a uma boate na orla de Corunha, cidade de cerca de 250 mil habitantes na Galícia. Naquele horário, muitos jovens circulavam entre bares e festas, aproveitando a reabertura de atrações noturnas, após a retirada de restrições para conter a Covid-19.

Lina, amiga de Samuel, um assistente de enfermagem, contou ao jornal La Voz de Galicia que, no dia do crime, estavam com outras duas pessoas no bar Playa Club. Por volta das 3h, ambos saíram para fumar do lado de fora da balada, e ela então fez uma videochamada, da qual o brasileiro também participou.

Enquanto falavam e riam, movimentavam o celular para mostrar o ambiente. Um homem que passava pelo local, acompanhado de uma mulher, achou que estava sendo filmado e passou a ameaçá-los. Lina disse que eles tentaram explicar que estavam em uma chamada de vídeo, mas a justificativa não adiantou.

"Pare de gravar se não quiser ser morto, puto viado", ameaçou o agressor, segundo relatos, que também apontaram que o homem estava bêbado. Samuel teria respondido: "Viado de quê?". Em seguida, ele tomou um soco e foi jogado no chão —um jovem de origem africana, ainda não identificado, conteve o ataque.

O agressor se afastou, mas pouco depois voltou ao local com um grupo com mais de dez pessoas.

Samuel tentou fugir, mas foi perseguido, atingido por socos e chutes e caiu no chão, a cerca de 200 metros de onde o ataque começou. "O garoto tenta escapar. Cai e se levanta umas três vezes. Chega a atravessar a rua, mas voltam a alcançá-lo e seguem batendo", relatou uma testemunha ao jornal El País.

A surra durou cerca de um minuto e parou quando o grupo percebeu que a vítima não se mexia mais. Equipes de resgate foram chamadas, mas não conseguiram reanimar Samuel, que morreu no hospital.

Filho de um brasileiro e de uma espanhola, Samuel vivia na Espanha desde bebê e trabalhava em uma casa para idosos. Seu pai, Maxsoud Luiz, disse em entrevista a uma emissora de TV espanhola que o filho não se metia em brigas, não costumava chegar bêbado em casa ou usar drogas e que eles nunca haviam conversado sobre Samuel ser gay.

Na orla onde ocorreu o ataque há diversos prédios residenciais, o estádio de futebol do Deportivo La Coruña, alguns comércios e muitas câmeras, que registraram a segunda parte da agressão.

Até agora, a polícia identificou sete pessoas como autores do ataque, além de outras seis que estavam com os agressores, mas não se envolveram no ato. Três acusados foram presos até agora. A polícia não revelou seus nomes, mas disse que eles têm idades entre 20 e 25 anos e são moradores de Corunha.

As autoridades ainda investigam se o caso foi motivado por homofobia. "Ainda vamos saber se foram delitos de ódio e homofobia. Não estou dizendo que seja errado [pensar que foi homofobia], mas me parece mera especulação", afirmou Alberto Feijóo, governador da Galícia e filiado ao PP, de direita.

O caso gerou revolta contra a violência e o preconceito a LGBTs. Uma amiga de Samuel publicou no Twitter um post que viralizou e deu origem aos atos. "Mataram Samuel por sua orientação sexual."

Na sequência, outros relatos de ataques contra pessoas LGBT na Espanha foram lembrados nas redes sociais e nos protestos, que reuniram milhares de pessoas. Em Madri, a polícia atacou manifestantes com golpes de cassetete —o governo disse que investigará se houve excessos na repressão.

Partidos políticos e autoridades de governo também se pronunciaram sobre o caso. "É muito importante que se torne visível a rejeição social a essas atitudes [de homofobia], porque assim poderemos combatê-las e fazer com que as pessoas deixem de se sentir impunes", disse María Jesús Montero, ministra da Fazenda e porta-voz do governo da Espanha, chefiado pelo PSOE, de esquerda.

Dados do Ministério do Interior espanhol apontam que 278 crimes de ódio ligados a orientação seuxal ou identidade de gênero foram relatados em 2019, um aumento de 8,6% em relação ao ano anterior.

Maxsoud pediu aos manifestantes que deixem de lado as bandeiras políticas e fizessem doações. "Que cada jovem, mãe, pai, passe em um supermercado e compre um pacote de arroz, um quilo de sal, de açúcar, e coloque em uma caixa da Cruz Vermelha, para ajudar quem está em necessidade. Isso nos alegraria. Tenho fé que meu filho também ficaria contente", disse.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos