Assassinato de presidente do Haiti é o 1º nas Américas desde a morte de Kennedy, em 1963

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há 58 anos, não se via um presidente em exercício ser assassinado nas Américas. O último caso havia sido de Jonh Kennedy, presidente dos EUA, em 1963. Nesta quarta (7), Jovenel Moïse, 53, presidente do Haiti, foi assassinado a tiros em um ataque em sua residência, segundo o premiê Claude Joseph.

Desde o século 19, quando a maior parte dos países americanos se tornaram independentes, ao menos 19 presidentes ou ditadores já foram mortos enquanto estavam no cargo nas Américas. Os casos na região se concentram entre os anos 1870 e 1960, e quatro dos quais ocorreram nos EUA —nenhum aconteceu no Brasil. A contagem não inclui casos de suicídio e situações em que não ficou confirmado se a morte foi provocada.

Kennedy foi baleado na cabeça enquanto desfilava em carro aberto em Dallas, em 1963. O acusado de realizar os disparos foi morto dias depois, e as razões para a morte do democrata nunca foram plenamente esclarecidas, o que levou ao surgimento de diversas teorias conspiratórias.

Além de Kennedy, outros três presidentes dos EUA foram assassinados por armas de fogo. Um ator atirou contra Abraham Lincoln, em 1865, num teatro. Em 1881, James Garfield levou tiros em uma estação de trem em Washington. Em 1901, William McKinley foi baleado enquanto visitava uma mostra em Buffalo.

No Haiti, há outros casos de mortes presidenciais no cargo. Em 1915, o presidente Vilbrun Guillaume Sam foi morto em uma revolta popular, iniciada após a execução de opositores. Sam buscou abrigo na embaixada da França, mas o local foi invadido por uma multidão, que o trucidou. Três anos antes, em 1912, o presidente Cincinnatus Leconte faleceu após uma forte explosão que destruiu o palácio presidencial. Na época, o caso foi tratado como acidente, mas houve rumores de que se tratou de algo premeditado. E Tancrede Auguste, que o sucedeu, morreu em 1913, após um mal súbito que gerou boatos de envenenamento.

Vizinha ao Haiti, a República Dominicana teve ao menos três líderes mortos: Ulises Heureaux (em 1899), Ramón Cáceres (1911) e Rafael Trujillo (1959). Cáceres e Trujillo foram assassinados em emboscadas armadas por opositores, e a morte de Trujillo inspirou o livro “A Festa do Bode”, de Mario Vargas Llosa.

Em El Salvador, em 1913, o presidente Manuel Enrique Araújo levou tiros e golpes de facão enquanto acompanhava um concerto em um parque. Ele morreu cinco dias depois, devido a complicações de uma cirurgia para retirar fragmentos dos disparos. Na Guatemala, houve dois casos: José María Barrios foi assassinado na rua em 1898, quando ia a um teatro. E, em 1957, um guarda do palácio ligado à oposição matou Carlos Castillo, que havia tomado o poder em um golpe de Estado.

No Panamá, em 1953, Remón Canteras foi alvo de tiros durante um evento em um hipódromo. Ainda há dúvidas sobre quem foi o mandante. No México, Venustiano Carranza, um dos líderes da Revolução Mexicana de 1910, foi morto por ordem de antigos aliados, enquanto cavalgava, em 1920. Na América do Sul, houve assassinatos presidenciais em quatro países. Em 1872, o líder peruano Tomás Gutiérrez perdeu a vida em meio a uma revolta popular em Lima. Ele tentou fugir do palácio disfarçado, mas acabou reconhecido na rua e morto.

Em seguida, o corpo dele e do irmão foram expostos na rua e pendurados na torre de uma catedral.

Também no Peru, Luis Miguel Cerro levou tiros de um militante de um partido que havia sido banido pelo governo, em 1933. Tanto Cerro quanto Gutiérrez haviam chegado ao poder após golpes militares.

Na Bolívia, Agustín Morales foi morto pelo sobrinho, durante uma briga, em 1872. No Equador, Gabriel García Moreno levou golpes de facão em 1875, dentro do palácio do governo, quando um grupo de opositores fez uma emboscada. E no Uruguai, Juan Borda foi atacado durante um desfile na rua, após um evento religioso, em 1897.

No Brasil, nenhum presidente foi assassinado no poder, mas dois morreram enquanto ocupavam o cargo. Afonso Pena teve complicações após uma pneumonia em 1909, e, em 1954, Getúlio Vargas cometeu suícidio em meio a uma crise política.

Outra morte famosa de um líder da região é a do então presidente chileno Salvador Allende, em 1973. Apesar de algumas teorias de que ele teria sido morto durante o golpe de Estado no país, uma investigação feita pela Justiça local décadas depois confirmou a versão oficial, de que o líder socialista cometeu suicídio enquanto militares bombardeavam o palácio do governo.

Embora o continente não registre o assassinato de um mandatário há décadas, houve ao menos duas execuções de candidatos à presidente. Em 1989, o colombiano Luis Carlos Galán, favorito para ganhar, foi morto a mando do traficante Pablo Escobar. E, em 1994, Luis Colosio Murrieta, que disputava o comando do México, foi baleado na saída de um comício.

"Hoje, há outras formas de depor governos, como enfraquecê-los por meio de pressões econômicas e do uso da tecnologia, como disseminar fake news", aponta Wagner Iglecias, professor do programa de pós-graduação em América Latina da USP. Ele ressalta que a violência política pode estar menor em âmbito nacional, mas segue forte nas disputas locais. "Mesmo no Brasil, há casos recentes de assassinatos de candidatos, vereadores e prefeitos", lembra.

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