Assassinatos e ação de milicianos antecipam disputa eleitoral na Baixada Fluminense

·4 min de leitura

RIO — A morte do vereador de Duque de Caxias Alexsandro Silva Faria, o Sandro do Sindicato (Solidariedade), executado a tiros de fuzil na manhã do último dia 13, eleva a estatística de assassinatos que deixam a Baixada Fluminense intocável no ranking da violência contra políticos no Estado do Rio. Do total de mortos em seis anos na Região Metropolitana — 42 casos, incluindo a capital —, cerca de 80% (ou 33 deles) ocorreram em cidades da Baixada. O crescimento da atuação de grupos de milicianos é apontado como a principal motivação para os crimes.

Levantamento feito pela força-tarefa da Polícia Civil criada no ano passado para investigar crimes envolvendo políticos aponta que em pelo menos seis casos foram comprovadas ligações com atividades criminosas exercidas pelas vítimas. Embora 2021 não seja ano eleitoral, grupos criminosos teriam antecipado a disputa por territórios com dois objetivos: abrir caminho para a eleição de representantes nas Casas Legislativas e eliminar nomes com capital eleitoral que não estão comprometidos com o crime, o que poderia tirar votos de campanhas patrocinadas por milicianos. Representantes da milícia no Legislativo seriam a garantia de defesa dos interesses do grupo.

De acordo com a plataforma Fogo Cruzado, das 13 cidades da Baixada, Nova Iguaçu, Duque de Caxias e Magé são apontadas como as mais violentas — houve pelo menos sete execuções de políticos em cada uma delas desde 2016. Na sexta-feira, o carro do prefeito de Caxias, Washington Reis, foi atingido por tiros, em uma ação cuja motivação ainda está sendo investigada.

Para o professor José Cláudio de Souza Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autor do livro “Dos barões ao extermínio: Uma história da violência na Baixada Fluminense”, tanto Nova Iguaçu quanto Duque de Caxias, os maiores municípios da região, enfrentam o crescimento da atuação da milícia — em alguns locais, as áreas deixaram de ser controladas pelo tráfico ou passaram a ser dominadas por uma associação entre o tráfico e a milícia. Segundo o pesquisador, os criminosos buscam fortalecer suas atividades econômicas com a conquista de território e a influência política no Estado.

José Cláudio cita localidades da Estrada de Madureira, em Nova Iguaçu, próximas ao limite do município com a capital, e a região do bairro Pilar, em Duque de Caxias, como alvos da milícia, o que acarreta o crescimento da violência:

— Bairros ao longo da Estrada de Madureira foram “conquistados” pela milícia vinda da Zona Oeste do Rio. Mas, com a morte (em junho) do (Wellington da Silva Braga) Ecko, que era chefe do grupo, a região passou a ser disputada por seus herdeiros.

Foi na região da Estrada de Madureira que o candidato a vereador Domingos Barbosa Cabral, de 57 anos, foi morto a tiros há um ano. À época, ele foi encontrado com uma pistola 9mm e um carregador.

Já em Duque de Caxias, destaca José Cláudio, o Pilar se transformou em área de interesse para a milícia. Com a construção da Central de Abastecimento do Estado do Rio (Cearj) na BR-040, milicianos passaram a lotear áreas próximas à rodovia. A maior parte é fruto de invasão de áreas públicas federais e tende a se valorizar com a nova central.

O vereador Sandro do Sindicato tinha reduto eleitoral no bairro do Pilar. Segundo investigações, o parlamentar não era ligado à milícia, mas poderia representar uma ameaça aos negócios do crime. Sandro teria crescido eleitoralmente.

A violência em Caxias fez o presidente da Câmara, Celso do Alba, pedir ao secretário de Polícia Civil, Allan Turnowski, rigor nas investigações sobre a autoria das mortes de vereadores. Alvo de ameaças, Alba estuda o uso de carros blindados pelos vereadores.

Procurado para informar se existe um plano de segurança para a eleição de 2022, o TRE-RJ informou que a questão é de “segurança pública”.

Candidato a vereador em Nova Iguaçu em 2020, Domingos Barbosa Cabral (DEM) foi morto a tiros em outubro do ano passado no bairro Cabuçu, localidade que fica às margens da Estrada de Madureira. Duas semana antes, Mauro Miranda da Rocha, de 41 anos, também candidato a vereador no município, mas pelo PTC, foi assassinado a tiros quando estava em uma padaria no bairro do Rancho Fundo.

Além de Sandro do Sindicato, foram executados este ano mais dois vereadores de Duque de Caxias. Joaquim José Santos Alexandre (PL), o Quinzé, de 66 anos, foi assassinado a tiros quando saía de seu carro para entrar na casa de uma pessoa que iria visitar em São João de Meriti. Em março, Danilo Francisco da Silva, o Danilo do Mercado (MDB), e o filho dele, Gabriel da Silva, foram assassinados a tiros no bairro Jardim Primavera. Uma das linhas de investigação da Polícia Civil levantou a suspeita de que o parlamentar estaria envolvido com um grupo de extermínio da Baixada.

Ex-candidato a vereador em Nilópolis, Jorge Luiz Pereira, o Jorginho Ibiza, foi assassinado a tiros em setembro deste ano. O político foi executado na Avenida Mirandela, uma das principais do Centro.

Cabo eleitoral da família Cozzolino — que permaneceu à frente da Prefeitura de Magé por quase duas décadas e retornou nas eleições passadas — Renata Castro, de 38 anos, foi morta a tiros em outubro de 2020, menos de 12 horas após prestar depoimento na Polícia Federal. Renata disse à PF que estava sendo ameaçada. A principal linha de investigação é crime com motivação política

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos