Assédio sofrido por Viih Tube é rotina em Brasil que trata mulheres como objeto

Viih Tube no Carnaval da Sapucaí (Reprodução Instagram)
Viih Tube no Carnaval da Sapucaí (Reprodução Instagram)

Pouco após comemorar o Carnaval nos camarotes da Sapucaí, a influenciadora digital Viih Tube relatou que sofreu assédio sexual dentro do local. A ex-BBB afirmou que muitas pessoas tocaram suas partes íntimas, e que os abusadores se comportaram como se fosse normal tocar o corpo de uma mulher sem consentimento.

"Gente, fui sair do camarote, perdi a conta de quantas mãos estavam tocando nas minhas partes íntimas, fiquei mega desconfortável. Juro, estou travada, ainda. Puxar mão, braço, a roupa, até meu cabelo na euforia eu entendo, às vezes a gente não pensa muito na hora porque está eufórico, mesmo. Mas isso não, gente, é desrespeito, por favor, de coração! Estou morrendo de vergonha".

Infelizmente, o caso de Viih Tube está longe de ser uma exceção: é praticamente impossível conhecer uma mulher que nunca tenha sofrido assédio sexual. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), uma mulher sofreu violência sexual a cada dez minutos no Brasil apenas no primeiro semestre de 2021, com cerca de 26.709 vítimas de janeiro a junho. 37,9% das brasileiras foram vítimas de algum tipo de assédio sexual nos últimos 12 meses, em casos de comentários desrespeitosos, assédio no ambiente de trabalho, transporte público e locais de entretenimento.

Uma mulher sofreu violência sexual a cada dez minutos no Brasil apenas no primeiro semestre de 2021

É comum que os dados amplamente divulgados pelas autoridades sejam questionados por homens, e acusações de "mimimi" ou exagero já foram ouvidas por toda mulher que tentou relatar algum caso de assédio que sofreu no cotidiano. A verdade é que, quando questionamos as mulheres de nossa convivência íntima sobre o assunto, percebemos que na verdade os dados oficiais não dão conta da enormidade da misoginia que aprisiona a existência feminina em todos os aspectos da vida. Mesmo impressionantes, os números não dão conta de explicar a realidade, já que grande parte dos assédios não são relatados por falta de estrutura do poder público, medo de retaliação ou falta de informação.

No trabalho

O pesadelo para as mulheres também vive dentro do mercado de trabalho: de acordo com pesquisa do Linkedin e da consultoria Think Eva, quase metade das mulheres já sofreu assédio sexual no trabalho. 15% das vítimas precisaram pedir demissão após o assédio, não sendo amparadas pela empresa e por direitos trabalhistas. Apenas 5% das vítimas relataram ter recorrido ao RH das empresas.

O corpo da mulher é um objeto que pode ser usado e descartado a qualquer momento, e que existe apenas para satisfazer o olhar masculino e a sociedade sexualizadora

Assim como em todas as áreas, mulheres pretas são desproporcionalmente afetadas pela misoginia. Entre as mulheres que já sofreram assédio sexual no trabalho, 52% são pretas e recebem entre dois e seis salários mínimos. A informalidade de muitas vagas dificultam ainda mais a denúncia.

Ainda de acordo com o levantamento, mais da metade das mulheres assediadas não reportaram o caso por saberem que nada seria feito. Em entrevista feita com colegas homens, apenas 15% afirmaram ter auxiliado diretamente a vítima após presenciarem uma situação de violência. Entre as principais denúncias das mulheres estão solicitação de favores sexuais, contato físico não solicitado e o abuso sexual de fato.

No deslocamento

No transporte público, muitas mulheres deixam de se deslocar por medo de sofrerem algum tipo de assédio. De acordo com a ONU Mulheres, o público feminino é o mais vulneráveis a violências no transporte, seguido por pessoas LGBTQIA+, pretas e deficientes. Entre o grupo entrevistado, sete de dez mulheres afirmou já ter sofrido assédio no metrô, trem ou ônibus no Brasil. 34% já passaram por assaltos, furtos e sequestros relâmpago.

O fim é o feminicídio

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre março de 2020 e dezembro de 2021, o Brasil teve 2.541 feminicídios e 100.398 casos de estupro e estupro de vulnerável do gênero feminino. Em 2021, uma mulher foi vítima de feminicídio a cada sete horas. No primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou 666 casos de feminicídio, um leve aumento de 0,5% na comparação com o mesmo período de 2020, quando 663 casos foram registrados.

A realidade assustadora, mais uma vez, é ainda mais cruel quando falamos de mulheres pretas. Elas representaram 68% do total das mulheres assassinadas no Brasil em 2021, com uma taxa de mortalidade por 100 mil habitantes de 5,2, quase o dobro quando comparada à das mulheres não negras.

68% do total das mulheres assassinadas no Brasil em 2021 são pretas

Embora o assédio sexual, o estupro e o feminicídio pareçam dados diferentes, todos eles seguem a mesma lógica: de que o corpo da mulher é um objeto que pode ser usado e descartado a qualquer momento, e que existe apenas para satisfazer o olhar masculino e a sociedade sexualizadora. O que aconteceu com Viih Tube é apenas mais um caso na longa ficha criminosa do Brasil em relação à vida e a integridade das mulheres.

Mesmo com todos os privilégios de fama, riqueza, corpo padrão e branquitude, Viih Tube não conseguiu deixar de virar estatística. Embora mulheres brancas façam parte da máquina da morte que perpetua o extermínio de pessoas marginalizadas e fora do padrão no Brasil que ainda segue os moldes escravocratas, nem elas estão totalmente a salvo de serem vítimas da misoginia patológica que domina o Brasil. Se uma pessoa rica e famosa na Sapucaí não está a salvo, o que isso diz sobre a vida das mulheres que moram longe dos holofotes e do privilégio usufruído por Viih?

Virando onça

Uma cena pouco falada de "Pantanal" resume a existência de mulheres indígenas, ribeirinhas e marginalizadas dentro do Brasil sem lei: em conversa com Muda, Juma Marruá narra um caso horrível de tentativa de estupro que sofreu quando mais jovem, e revela que manteve o caso em segredo para não assustar a mãe.

"Não gosto do jeito que os homens olham. Um dia um homem veio atrás de mim, tentou me pegar, me levar para o meio do mato. Eu mordi ele com tanta força que senti o gosto de sangue na boca. Nunca falei para ninguém isso. Não gosto de homem. Pra mim homem é desgraça. Nunca quero me apegar a homem nenhum", lamentou a personagem, que viveu toda a vida escondida ao lado da mãe tentando fugir dos grileiros de terras e dos peões que tratam o território do Pantanal como terra do agronegócio.

A cena, tristíssima, resume a dicotomia que muitas mulheres sofrem ao longo da vida: com medo da misoginia e da cultura do estupro, precisamos temer relacionamentos amorosos por sabermos que o homem tem o aval da sociedade para acabar com nossa existência. Enquanto um homem tem medo de ser traído pela companheiro, as mulheres temem ser estupradas, mortas e trancafiadas. Quando denunciamos casos de assédio ou abuso, somos imediatamente desacreditadas e taxadas de "loucas".

No livro "Holocausto Brasileiro", a jornalista Daniela Arbex relatou casos de atrocidades, genocídio de estado e políticas públicas de apagamento no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. O livro-reportagem denunciou a morte de mais de 60 mil internos, além do sofrimento dos sobreviventes e seus descendentes.

Uma das questões que chama a atenção no livro é a internação compulsória de mulheres grávidas ou apenas consideradas como "problemas" para suas famílias. Uma delas foi mandada para o Colônia, grávida de três meses, pelo patrão que a estuprou. Grande parte do quadro de pacientes do hospício era formado por trabalhadoras sexuais, alcoólatras, pessoas LGBTQIA+ e mães solteiras, o que evidencia que muitas mulheres consideradas "loucas" são na verdade vítimas de sistemas opressores contra os quais nunca tiveram chance. Nas palavras de Valeska Zanello, pós-doutora em psicologia clínica e professora adjunta do Departamento de Psicologia da UnB, "a história da psiquiatria é feita de homens falando sobre mulheres loucas".

Diante dessa realidade, qual respiro sobra para a mulher que não quer viver como Juma Marruá, escondida da sociedade em uma tapeira na beira do rio? Nesta terça-feira (26), uma menina ianomâmi de 12 anos morreu após ser estuprada por garimpeiros que estavam ilegalmente em solo indígena. A vítima era da comunidade Araçá, uma das mais atingidas pelo garimpo em território ianomâmi. O assédio sexual pode parecer "só uma cantada", mas o resultado dessa cultura de ver mulheres como descartáveis é a barbárie.

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