Assembleia Geral da ONU começa em meio a uma 'tempestade perfeita'

Guerra na Ucrânia, catástrofes climáticas, insegurança alimentar... Em seu discurso na abertura de uma Assembleia Geral profundamente dividida, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou os líderes mundiais sobre a "tempestade perfeita" que se anuncia no horizonte e que provocará um "inverno de protestos".

"A crise do poder aquisitivo se deflagra, a confiança desmorona, as desigualdades disparam, nosso planeta queima, o povo sofre, sobretudo, os mais vulneráveis" e, apesar disso, "estamos bloqueados por uma disfunção global colossal", lamentou Guterres.

"Essas crises ameaçam o próprio futuro da humanidade e o destino do planeta", advertiu.

"Não tenhamos ilusões. Estamos em um mar agitado. Um inverno de descontentamento se anuncia no horizonte", insistiu Guterres.

Apesar dos perigos, a comunidade internacional está "paralisada", lamentou o secretário-geral da ONU, que alertou para o "risco de divisão entre o Ocidente e o Sul".

Em seu longo discurso cheio de pessimismo sobre o futuro do planeta, Guterres reconheceu sua impotência diante das "divisões políticas que minam o trabalho do Conselho de Segurança, o direito internacional, a confiança e a fé das pessoas nas instituições democráticas".

"Não podemos continuar assim", acrescentou, ressaltando que é necessária "uma ação coordenada ancorada no respeito do direito internacional e na proteção dos direitos humanos".

Após dois anos de pandemia, a invasão russa da Ucrânia, que será "inevitavelmente" o principal tema da assembleia, como disse o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, dominando boa parte dos discursos de cerca de 150 líderes que se sucederão na tribuna da ONU ao longo de uma semana.

- Negociar, ou continuar o combate? -

Os países ocidentais que continuam enviando armas para a Ucrânia reagiram indignados ao anúncio de Moscou de organizar, nos próximos dias, referendos em várias regiões conquistadas desde sua invasão, há sete meses.

Os Estados Unidos garantiram que "nunca reconhecerão" as anexações russas de território ucraniano, enquanto o chanceler alemão, Olaf Scholz, referiu-se a estes projetos como uma "farsa". Para o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Jens Stoltenberg, trata-se de uma "escalada" e, para o presidente francês, Emmanuel Macron, uma "paródia".

Já outros presidentes - como o brasileiro Jair Bolsonaro e o turco Recep Tayyip Erdogan - são a favor de se sentar à mesa para negociar uma saída "digna".

"Juntos, devemos encontrar uma solução diplomática razoável que ofereça às duas partes uma saída digna da crise", defendeu Erdogan, que conseguiu manter relações com Moscou e Kiev desde o início do conflito e se ofereceu para mediá-lo.

O presidente colombiano, Gustavo Petro, também se pronunciou pela negociação.

"Não nos pressionem para nos alinharmos aos campos da guerra (...) Que os povos eslavos falem entre si", disse Petro, que, assim como seu colega chileno, Gabriel Boric, participou pela primeira vez deste foro da ONU. Este último pediu mais democracia para resolver os problemas do mundo e que "se realizem as ações que forem necessárias, e não apenas declarações, para deter a injusta guerra da Rússia contra a Ucrânia e pôr fim a todos os abusos dos poderosos em qualquer lugar do mundo".

Na quarta-feira (21), o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, intervirá por vídeo, graças à autorização especial votada na semana passada pelos Estados-Membros. E, na quinta, está prevista uma reunião em nível ministerial do Conselho de Segurança.

- 'Fratura' Norte-Sul -

Os países do Sul estão cada vez mais fartos que os ocidentais concentrem sua atenção na Ucrânia, um tema que desvia os olhos de seus problemas reais, como as consequências da mudança climática e a inflação que disparou e afeta, sobretudo, os mais pobres. Este quadro se soma ao ressentimento Norte-Sul na luta contra o aquecimento global.

Para amenizar essas assimetrias, Guterres pediu aos países ricos que tributem os lucros extraordinários gerados pelas energias fósseis, de modo a ajudar os países vítimas do impacto das mudanças climáticas e as populações afetadas pela inflação.

Nesse sentido, propôs "redirecioná-los de duas maneiras: para os países que sofrem perdas e danos causados pela crise climática e para as populações em dificuldade, devido aos preços dos alimentos e da energia".

A dois meses da conferência do clima COP27, no Egito, os países pobres, na linha de frente do impacto devastador de um aquecimento global que não provocaram, lutam para fazer os países ricos cumprirem suas promessas de ajuda financeira.

Entre os temas que vão concentrar os vários encontros bilaterais, está a questão do Irã. Seu presidente, Ebrahim Raisi, participa, pela primeira vez, do baile diplomático da ONU.

A assembleia deste ano terá ausências importantes, como os presidentes da Rússia, Vladimir Putin; e da China, Xi Xinping. Também não estarão o cubano Miguel Díaz-Canel, o costarriquenho Rodrigo Cháves, o venezuelano Nicolás Maduro, o mexicano Andrés Manuel López Obrador, ou ainda, o nicaraguense Daniel Ortega.

abd/af/yow/tt