Assessores de vereadores de Campos e de deputados fizeram saques no Ceperj

Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, aparece com destaque na lista das contratações feitas pela Fundação Ceperj, alvo de investigação do Ministério Público do Rio (MPRJ). Uma agência bancária do município foi a que mais registrou saques na boca do caixa feitos pelos funcionários. Foram mais de R$ 12 milhões em dinheiro vivo. E, com a divulgação da lista dos beneficiários, o que se vê é a influência política. Reportagem do RJ2, da TV Globo, mostrou que até a cunhada do atual líder do governo Cláudio Castro na Assembleia Legislativa, o deputado estadual Rodrigo Bacellar (PL), sacou mais de R$ 22 mil nos últimos meses.

A ligação de Bacellar não para por aí. A TV Globo encontrou, na relação dos mais de 27 mil contratados pelo Ceperj, 12 assessores da Câmara Municipal de Campos. Eles estão lotados nos gabinetes de cinco vereadores, todos aliados do deputado estadual do PL. A farra política chega ainda à Alerj, onde 20 funcionários ou ex-funcionários também foram aos bancos sacar dinheiro referente a projetos bancados pelo Ceperj. A Constituição impede acumulação de cargos no serviço público.

Ontem, numa rede social, o governador Cláudio Castro se pronunciou pela primeira vez sobre as suspeitas de falta de transparência e de contratações irregulares que recaem sobre o Ceperj. Ele afirmou que, desde que surgiram os questionamentos sobre a gestão de programas sociais desenvolvidos pela fundação em parceria com secretarias estaduais, determinou imediatamente a instauração de uma comissão coordenada pela Casa Civil para apurar “com rigor e energia” o que ocorria.

“Suspendemos pagamentos, realizamos fiscalizações em campo e cruzamos os dados dos contratados para apurar outros vínculos e nos debruçamos acerca de possíveis fragilidades”, escreveu o governador. Ele também anunciou a substituição do atual presidente do Ceperj, Gabriel Lopes, “assim como a proposição imediata de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o MP estadual para corrigir rumos e não prejudicar importantes programas sociais”. No fim do texto, Castro diz ser o “maior interessado para que tudo seja esclarecido o quanto antes”.

Nesse turbilhão de denúncias, Gabriel Lopes informou ontem ter pedido exoneração do cargo. Um dia antes, a Justiça do Rio havia determinado a suspensão das remunerações e das contratações temporárias do Ceperj, onde o MPRJ apontou “nítida afronta às normas de prevenção à lavagem de dinheiro”. Além disso, há suspeitas ainda de indicações políticas e até de “rachadinhas”.

Bárbara Lima, cunhada de Bacellar, namora o vereador de Campos Marquinhos Bacellar. Ela, que aparece em fotos nas redes sociais ao lado do deputado, fez dois saques: um em junho e outro em julho, perfazendo R$ 22.339,58. Marquinhos não foi localizado ontem. Juntos, os 12 assessores da Câmara de Campos receberam mais de R$ 200 mil do Ceperj.

Seis funcionários do vereador de Campos Rafael Thuin (PTB) fizeram saques no total de R$ 120 mil. Uma equipe do RJ2 esteve em Campos à procura do parlamentar, mas ele não foi localizado. Um de seus assessores, Luiz Carlos Chicre, que sacou R$ 28 mil de um cargo secreto, foi encontrado na Câmara, mas se recusou a dar entrevista. “Meu amigo, eu não dou entrevista, não. Dá licença”, disse o chefe de gabinete de Thuin ao ser encontrado pela reportagem.

Além de Thuin, a equipe da TV Globo também não encontrou os outros cinco vereadores que têm assessores na lista do Ceperj: Maicon Silva da Cruz (PSC), Igor Pereira (SDD), Luciano Riolu (PDT) e Marquinho do Transporte (PDT). Nenhum deles estava na Câmara Municipal durante o horário do expediente.

Até maio, Bacellar era secretário estadual de Governo, pasta que comanda parte dos projetos do Ceperj — Observatório do Pacto RJ e RJ para Todos, que custaram aos cofres públicos R$ 66 milhões este ano. Em plenário na Alerj, o deputado — que começou sua carreira política em Campos — afirmou ontem que “a verdade tem de ser apurada” e ainda elogiou o Ministério Público, que apontou a existência de uma folha de pagamento “secreta” no Ceperj. Por meio de nota enviada ao RJ2, o líder do governo informou que não pratica ilegalidades na vida pessoal e pública e que todas as pessoas contratadas pelo Ceperj passaram por processo seletivo. Sobre a cunhada, o parlamentar disse que ela foi prestadora autônoma de serviço por dois meses, não ocupando cargo nem função pública.

Na Alerj, 20 funcionários lotados em gabinetes de dez deputados, de um ex-deputado e de um suplente receberam recursos do Ceperj, o que configura acumulação de cargos. Eles fizeram 72 saques na boca do caixa.

Dois funcionários comissionados acumularam o cargo na fundação enquanto trabalhavam no gabinete do deputado André Corrêa (Progressistas). Havia dois ainda a serviço de Rodrigo Amorim (PTB). A situação, segundo o RJ2, também foi verificada na lista de assessores de Bebeto (PSD), Léo Vieira (PSC), Marcus Vinicius (PTB), Noel de Carvalho (Solidariedade), Val Ceasa (Patriota) e na Comissão de Defesa do Consumidor, presidida por Fábio Silva (União Brasil). Houve caso ainda no gabinete de Paula Tringuele (Solidariedade), que estava no lugar de Rodrigo Bacellar quando ele ocupou a Secretaria estadual de Governo.

Essa sangria do dinheiro público apontada pelo Ministério Público pode ter outra consequência: a saída do estado do programa federal que permite o parcelamento das dívidas do Rio. Ontem, o Conselho de Supervisão do Regime de Recuperação Fiscal (RRF) cobrou esclarecimentos do governador Cláudio Castro sobre contratações temporárias feitas pela Fundação Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro (Ceperj).

Para o conselho, há “indícios de irregularidade” nas contratações. O grupo questiona se houve criação de cargos no âmbito do Ceperj , o impacto financeiro anual até o término da vigência do Regime de Recuperação Fiscal e quais os atos que embasaram essas nomeações. Uma das regras para o Rio ser beneficiado do acordo com a União é controlar a folha de pagamento.

O documento dirigido a Cláudio Castro também trata de uma análise das contratações ocorridas na Ceperj, realizadas no âmbito da Secretaria de Fazenda e na Casa Civil do estado. O governador tem até o dia 21 para responder ao pedido do conselho.

*Colaboraram Gabriel Saboia, Luisa Bertola, Manoel Ventura, Rafael Galdo e Vera Araújo

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