Assexuais lutam contra estigmas e ganham visibilidade na mídia, com personagem, na novela ‘Travessia’

Inventar um sem-número de relações amorosas para os amigos e a família foi rotina na vida da artesã e escritora Simone Hernández (nome fictício) durante mais de 20 anos. Apesar de conhecer rapazes bonitos, explica, ela se esquivava sempre que recebia uma investida mais incisiva. “Tinha uma atração estética, mas algo me mandava sair, como se aquilo não fosse para mim. Já fui beijada, mas sentia repulsa.” Meses atrás, porém, sua verdade veio à tona: aos 44 anos e virgem, Simone teve a intimidade exposta por um ginecologista durante uma consulta em que a mãe estava presente. “Foi traumático! Criava histórias porque queria que me deixassem em paz. Eu me achava incompetente emocionalmente”, desabafa.

O que Simone acreditava ser incompetência, na verdade, tem outro nome. Ela é assexual, e vem vivendo sozinha e de forma um pouco menos dolorida, por causa das sessões de terapia, seu processo de autodescoberta há dez anos. Entendeu que não há nada errado em nunca ter tido um relacionamento mais íntimo ou feito sexo, porque os assexuais, de forma geral, são pessoas que não sentem atração sexual por outras. Mas, por causa disso, sempre foi desvalidada socialmente. “Em festas de família, enquanto as primas da minha idade sentavam na mesa dos adultos, eu, que não era casada, ficava na das crianças. Ouvi muitas piadas de que serei solteirona”, conta ela, que pretende conversar e abrir o jogo para os pais quando se sentir pronta.

Cercada por mitos, a assexualidade é a letrinha A dentro da sigla LGBTQIAP+ e uma das identidades mais invisibilizadas socialmente. Um deles é exatamente a de que todos os assexuais não transam ou não têm desejo ou libido. “Assexuais podem não sentir atração, mas podem se apaixonar e sentir desejo. Até porque ele é muito amplo e não só sexual. Podemos desejar um bolo, uma viagem, um trabalho. É algo no qual queremos investir”, explica o psicólogo e pesquisador Breno Rosostolato, de São Paulo. “E podemos fazer sexo por vários motivos: para agradar ao outro, por dinheiro... A atração não é algo obrigatório.” A assexualidade, assim como a homo ou heterossexualidade, é autodeclarada e está longe de ser uma patologia. “As normativas guiam muito a sociedade. Então, existe esse sofrimento. Somos cobrados por performances sexuais. Muitas vezes, o parceiro de um assexual não entende ou aceita seu jeito de existir”, afirma Breno.

E é essa situação conflituosa, além de ser um tema pouco explorado na ficção, que a escritora Gloria Perez entendeu ser importante para abordar em “Travessia”, novela da 21h da TV Globo. O personagem Caíque, de Thiago Fragoso, é assexual e vive um conflito com a namorada, Leonor, papel de Vanessa Giácomo. A moça acreditava não ser amada por ele não querer transar, mas no decorrer da história, compreende a sexualidade dele. “Conversei com um cara assexual e tivemos um papo profundo sobre ereção, masturbação e erotismo. Não posso correr o risco de passar informações ilegítimas. Caíque é vibrante, potente, e mostra que assexualidade não é fraqueza”, afirma o ator.

Segundo pesquisa feita em 2016 pela psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (Prosex) da USP, sete em cada cem mulheres e três em cada cem homens não têm interesse na vida sexual. “Foi um levantamento com milhares de brasileiros, e é um número bastante expressivo, levando em conta o tamanho da população”, observa ela. Em outra pesquisa mais recente, de 2022, Carmita e outros pesquisadores indicaram, em artigo da revista científica Nature, que 12% da população brasileira é LGBTQIAP+; desse número, a maior porcentagem é de assexuais: 5,76%.

Na década de 1940, estudos feitos pelo pesquisador Alfred Kinsey e, em 2004, pelo sexólogo Anthony Bogaert, mostraram que pelo menos 1% da população mundial não quer ter relações sexuais. No entanto, para o psiquiatra Alexandre Saadeh, é preciso cuidado ao falar sobre o assunto. “Vejo jovens que não querem mais viver o desejo e o erotismo, e descaracterizam a sexualidade como algo interessante. Está muito ligado ao tempo em que passam on-line e aos questionamentos sobre identidade de gênero”.

Dentro do espectro da assexualidade, há o que os pesquisadores chamam de “área cinza”. Ali, um assexual pode se identificar como estrito, ou seja, nunca sente atração sexual e raramente tem relações; greyssexual ou assexual fluido, podendo ou não fazer sexo, até os demissexuais, que transam quando criam vínculo afetivo. É o caso da cantora Iza e da apresentadora Giovanna Ewbank. Ambas afirmaram ser demissexuais, fazendo o termo ser um dos mais buscados no Google em 2022.

Uma das criadoras do Coletivo Abrace, voltado à visibilidade sobre o tema, a designer gráfica Sara Hanna, 38 anos, também se identifica como demissexual. “Nunca entendi meus amigos falando sobre ‘ficar na seca’. Achava que era comum criar um vínculo para, talvez, ter atração pela pessoa e transar”, diz ela, que está solteira. “Quando estou sozinha, passo anos sem procurar alguém. Canalizo minha libido para culinária e jardinagem”, completa.

Sara é ex-namorada do advogado Walter Mastelaro Neto, de 35 anos. Estudioso da assexualidade, ele, que é assexual estrito, mantém duas comunidades sobre o assunto no Facebook, com quase seis mil membros. “Aos 14 anos, por curiosidade, tive minha primeira experiência sexual. Isso era tão interessante para todo mundo, mas não para mim”, recorda-se. O mais importante em jogar luz sobre o tema, ele diz, é eliminar o estigma de que os assexuais são pessoas frias ou não podem se relacionar amorosamente: “Podemos construir relações afetivas, saudáveis e duradouras. O afeto é que me faz ter interesse em alguém. É ele que nos liga às pessoas de forma diferente”.