Associação de votos a Lula a "analfabetismo" no NE é catastrófica para Bolsonaro

Brazil's President Jair Bolsonaro takes part in the 'Festa do Peao de Barretos', a cowboy festival, the biggest rodeo event in Latin America, in Barretos, Brazil, August 26, 2022. REUTERS/Carla Carniel
Foto: Carla Carniel/Reuters

Jair Bolsonaro (PL) pode ter cometido o maior erro de sua campanha ao atribuir ao "analfabetismo" dos eleitores do Nordeste o desempenho de seu adversário, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no primeiro turno das eleições presidenciais.

“Erro”, aqui, é licença poética. A declaração revela o que de fato pensa o presidente da República, um homem médio nascido no Sudeste que sempre olhou para o Norte com pretenso ar de superioridade.

A declaração é mais uma demonstração ostensiva da falta de inteligência do capitão. Ela denuncia que ele não sabe que estão na região, por exemplo, algumas das melhores escolas públicas do ensino público do país e alguns dos estudantes com os melhores índices de desempenho no Enem.

A coleção de ofensas proferidas contra os moradores da região é extensa. Essa coleção torna inexplicável não o favoritismo confirmado pelo candidato petista naqueles estados, mas o fato de alguém ali ainda votar no capitão. Síndrome de Estolcomo?

Sua confissão em voz alta seria apenas mais uma se não fosse este um momento-chave da campanha em que ele aposta todas as fichas nos eleitores da região mais rica, onde concentrou a maior parte dos votos.

Ao ofender os nordestinos que votaram em Lula, ele desdenha do desempenho de alguns neoaliados da região o seu reduto, como o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), ou mesmo o se melhor amigo de todos os tempos da última semana Fernando Collor de Mello (PTB-AL). E coloca em condição delicada a situação de candidatos a governador alinhados ao Planalto que disputam o segundo turno, como ACM Neto (DEM).

O piauiense Ciro Nogueira (PP) e o potiguar Fábio Faria, atuais ministros da Casa Civil e das Comunicações, respectivamente, não devem ter gostado da última do patrão. Já não sabem como defendê-lo para suas bases.

A estupidez do presidente fica ainda mais evidente, porém, quando se pensa que boa parte dos votos recebidos por ele em estados como São Paulo poderiam vir de imigrantes, filhos ou netos de nordestinos que ele agora enxota.

Lula terminou o primeiro turno com oito milhões de votos a mais do que Bolsonaro. Para reverter o jogo, o capitão precisa reduzir a vantagem do petista nos estados onde foi derrotado e ampliar a vantagem nos estados onde associa inteligência ao “apoio incondicional” à sua candidatura.

Não conseguirá nem uma coisa nem outra expondo todo o seu preconceito contra nordestinos.