Atalho para vacinas privadas pode ser a carona para o desmonte

Matheus Pichonelli
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Getty Images

A pandemia do coronavírus deixou evidente que, como presidente e líder nacional, Jair Bolsonaro é uma espécie de andarilho perdido na estrada à espera de uma carona.

Ele ficou bem na fita com o tal do mercado após sentar na rabeira do projeto de reforma da Previdência capitaneado por Rodrigo Maia (DEM-RJ) e outras lideranças do Congresso.

Beneficiou-se do impulso de popularidade após a oposição articular, também no Congresso, o auxílio emergencial de R$ 600 para o qual sua equipe econômica torcia o nariz.

Na virada do ano, escondeu os pregos e tachinhas lançadas na pista onde passava o comboio de João Doria e do Instituto Butantan trazendo a tal “vacina chinesa” — e, pressionado por empresários, se metamorfoseou em defensor de primeira hora da imunização. Não fosse o antípoda tucano, o ritmo da vacinação seria ainda menor a essa altura. 

Mas a capacidade do presidente em pegar carona no projeto alheio é inversamente proporcional ao talento de dividir esforços e reconhecer o mérito de possíveis opositores. Coisa de gente grande.

Em sua passagem por Chapecó, durante a semana, ele voltou a levantar os polegares para o alto e pegou carona no buzz criado pelo vídeo do prefeito da cidade que jura ter domado o vírus à base de cloroquina e tratamento precoce. É uma história contada pela metade, já que não leva em conta as medidas restritivas adotadas pelo município desde fevereiro, quando a liberação de diversas atividades desde o início do mandato, como festas e casamento, mandou a conta e fez o sistema de saúde local colapsar.

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Como diz o ditado, de cavalo dado não se olha os dentes. Principalmente se a charrete for a melhor opção a quem está perdido na estrada.

A próxima carona é um supersônico custeado pela iniciativa privada, disposta a buscar para os seus a vacina que o governo não consegue entregar no ritmo exigido para a retomada das atividades presenciais.

Na terça-feira 6, com apoio do centrão, o novo sócio do governo, a Câmara dos Deputados aprovou as bases do projeto que desobriga empresários a doarem 100% das doses de vacina compradas ao Sistema Único de Saúde (SUS) até que grupos prioritários estejam devidamente imunizados. A obrigação agora é repassar apenas 50%. 

O restante pode ser aplicado em empregados, associados, terceirizados e até estagiários. O vínculo com o comprador, portanto, será o passaporte para furar a fila que até então priorizava pessoas idosas ou com comorbidades. Ah, sim: pelo projeto, a iniciativa privada pode adquirir o imunizante antes mesmo da autorização da Anvisa —a desculpa de Bolsonaro para não ter ido antes atrás das vacinas, já que preferia esperar a aprovação pelo órgão regulatório.

A bola segue para os senadores, e dificilmente a rota desenhada será alterada.

O que está sendo vendido como um empurrão a mais nos esforços do setor público para o programa de vacinação pode se converter em um atalho perigoso. Com os empresários dispostos a abrirem a carteira, na prática o sistema público ganha um concorrente. Nada impede que o fabricante priorize quem paga mais e à vista. Lei da oferta e da procura, lembra?

Em outra perspectiva, a mensagem passada por Bolsonaro e os parlamentares de sua base é que o sistema público, que sempre foi referência em programas de imunização, não tem condições de atender a população como deveria. Em vez de conter o desmanche, o discurso pode apenas acelerá-lo.

Como escreveu em seu Twitter a jornalista de saúde e cientista social Mariana Varella, o Brasil é um país extremamente desigual onde pessoas mais pobres morrem mais de Covid. Para ela, qualquer estratégia de enfrentamento à pandemia que aumente essa desigualdade e não seja baseada em critérios epidemiológicos é absurda.

Se a pandemia deixou uma lição é que o SUS precisa, mais do que nunca, ser protegido. A carona oferecida pelos empresários é justamente o oposto de um projeto gratuito e universal. Fariam melhor se cobrassem das lideranças políticas a seriedade exigida pelo momento histórico. Apesar da nova fantasia, ainda deveria estar fresco na memória de todo mundo o dia em que o presidente espalhou nas redes que a vacina desenvolvida por uma fabricante chinesa em parceria com o governo paulista causava "morte, invalidez e anomalia".