Bolsonaro: sabe quem também vociferou contra relatório da ONU sobre violações? Ele mesmo, Nicolás Maduro


A alta comissária das Nações Unidas para os direitos humanos e ex-presidente do Chile Michelle Bachelet (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Tem uma cena, no filme “Bacurau”, que acabei não comentando na última crônica. É quando o personagem de Udo Kier (aliás, brilhante no papel), espécie de chefe da seita supremacista americana escalada para dizimar uma comunidade do sertão brasileiro em uma espécie de Jogos Vorazes (spoiler, desculpa), improvisa uma trincheira e passa a atirar a esmo com um rifle contendo um silenciador.

A esmo, vírgula: ele mira seus alvos, mas seus alvos não possuem uma lógica. Uma hora, acerta em um cachorro que dormia à porta de casa; na outra, mira um colega de incursão.

O que mais chama a atenção na cena, baseada num futuro próximo, é que os assassinos se comunicam entre si com um fone de ouvido sem fio. Os parceiros questionam se é ele quem está fazendo os disparos. O líder psicopata diz, num tom de voz monocórdico e indiferente, que não, imagina, não está atirando em ninguém. Jamais faria isso. E continua atirando.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli


Era só isso mesmo que eu queria observar, pois este é o tema da coluna passada e hoje o assunto é outro. O assunto do dia é a preparação do presidente Jair Bolsonaro para sua estreia em uma Assembleia Geral da ONU, à qual promete comparecer “nem que seja de cadeira de rodas” (ele passa por uma nova cirurgia antes), no dia 24 de setembro.

Tradicionalmente cabe ao chefe de Estado brasileiro a fala de abertura do evento, em Nova York. Bolsonaro promete falar sobre soberania, Amazônia e patriotismo.

A 20 dias da estreia, ele já testa a recepção dos pares ao chutar a canela da alta comissária da ONU para Direitos Humanos, a ex-presidenta do Chile Michelle Bachelet, que demonstrou preocupação, em uma entrevista, com a “redução do espaço democrático”, as mortes por policiais, o discurso que legitima execuções sumárias e os ataques contra defensores da natureza e dos direitos humanos no Brasil, país onde um jornalista é ameaçado por denunciar o conluio entre as queimadas e grileiros na floresta e um pedreiro foi morto, na véspera, enquanto trabalhava na laje de um sobrado na Vila Kennedy, no Rio.

A cidade, cartão-postal do país, contabiliza uma série de execuções desde o inicio do ano, a começar por seis jovens assassinados em cinco dias, um deles jogador das categorias de base do América, e um músico metralhado pelo Exército enquanto dirigia o carro com a família.

Desde que assumiu, Bolsonaro tem demonstrado desconforto por viver em um mundo onde suas ações e discursos são permanentemente avaliados, ora julgados e criticados, pela comunidade internacional. É o ônus de não se viver isolado em um único planeta chamado Brasil. O reforço da soberania já produziu estilhaços mundo afora.

Nas contas do jornalista José Roberto Toledo, a diplomacia do estilo “fazendo inimigos e afastando pessoas” já soma representantes de países como França, Alemanha, Argentina, Noruega, Dinamarca, Paraguai, Japão, Venezuela e Cuba.

O novo país a entrar na rota de colisão é o Chile em razão das críticas da ex-mandatária do país. Como resposta, o presidente exigiu “uma retificação das mentiras, falsidades, manipulações” de quem se mostrou passível às pressões intervencionistas sobre seu país e...

ops, acho que me enganei...

Quem disse isso foi o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, em reação a um relatório produzido pela própria Bachelet sobre a estratégia de neutralizar, reprimir e criminalizar a oposição política e aqueles que criticam o governo venezuelano. O documento foi elaborado com mais de 500 entrevistas na Venezuela e outros oito países com testemunhas de violações de direitos humanos ocorridas de janeiro de 2018 a maio de 2019 sob o regime Maduro.

Longe do congênere esquerdista, o que Bolsonaro fez foi se queixar da intromissão de Bachelet em assuntos internos e na soberania brasileira com uma “agenda de direitos humanos (de bandido)”. Segundo ele, a comissária “diz que o Brasil perde espaço democrático, mas se esquece de que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai brigadeiro à época”.

A coragem citada por Bolsonaro produziu, sob o regime de Augusto Pinochet, 40 mil as vítimas, entre elas 3.225 mortos ou desaparecidos. O pai de Michelle Bachelet, o general de brigada da Força Aérea Alberto Bachelet, foi um deles. Ele se opôs ao golpe em 1973 e foi preso, torturado e morto pelo regime no ano seguinte.

A declaração foi tão covarde que levou o presidente do Chile, Sebastián Piñera, adversário de Bachelet no campo político e considerado um aliado regional de Bolsonaro, a refutar a menção feita pelo colega brasileiro por respeito à sua antecessora, “especialmente em um momento tão doloroso como a morte de seu pai”.

O presidente que vê a popularidade derreter em seu próprio país, com 38% de rejeição, e que prefere atacar os institutos de pesquisa (assim como entidades culturais e de mapeamento ambiental que contestam seu terraplanismo particular), conseguiu uma proeza dias após protagonizar outro bate-boca público, desta vez com o presidente da França, Emmanuel Macron: esvaziar a plateia de seu primeiro discurso na ONU antes mesmo de subir ao púlpito.

Culpa desses globalistas e esquerdistas que não sabem respeitar a família e a memória de quem já não está aqui para se defender.