Invasão ao Capitólio foi parte de 'tentativa de golpe' de Trump, diz comissão que investiga ataque

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A comissão independente da Câmara dos Estados Unidos que investiga o ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, afirmou na quinta-feira que o comportamento do então presidente Donald Trump nos meses anteriores à invasão configura uma “tentativa de golpe de Estado”. Na primeira audiência para apresentarem suas conclusões, os deputados mostraram como o republicano sabia não ter sido reeleito, mas ainda assim esteve no centro dos planos para subverter a democracia americana.

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A sessão parlamentar, que durou 60 minutos e foi transmitida ao vivo em horário nobre, mostrou trechos de depoimentos de várias das pessoas mais próximas do então presidente, como o conselheiro do ex-presidente, Jason Miller. À comissão, Miller disse que estava presente quando os analistas de dados da própria campanha republicana confirmaram a Trump que ele havia perdido.

Outro vídeo mostrava o depoimento do ex-secretário de Justiça, William Barr, confirmando que as alegações de fraude promovidas por Trump eram falsas. Segundo ele, acusações como a de que as máquinas de tabulação estavam mudando os votos eram “absolutamente sem embasamento”:

— Eu disse ao presidente que era tudo mentira — disse ele na gravação. — Eu não queria ser parte daquilo — completou, afirmando que a cruzada de Trump para reverter o voto popular foi um dos motivos de ter pedido demissão antes do mandato chegar ao fim.

Outros rostos conhecidos foram o de Jared Kushner, genro do ex-presidente, e de Ivanka Trump, sua filha. A mulher aparece dizendo ter "aceitado" o que Barr falou sobre o resultado do pleito, também distanciando-se de seu pai.

As seis audiências previstas para este mês são um esforço da comissão bipartidária de nove deputados — sete democratas e dois republicanos — para destrinchar os eventos que culminaram na letal invasão do Capitólio há 17 meses. Pouco após um inflamado discurso de Trump, a sede do Congresso americano foi invadida por turbas de seus aliados durante a sessão conjunta que sacramentaria a vitória de Joe Biden.

— Donald Trump esteve no centro desta conspiração — disse Bennie Thompson, deputado democrata do Mississippi e presidente da Comissão. — E, no fim das contas, Donald Trump, o presidente dos EUA, incitou uma turba de inimigos domésticos da Constituição a marcharem até o Capitólio e subverterem a democracia americana.

Legalmente, o poder da comissão é limitado: por mais que possa recomendar a abertura de investigações criminais, a decisão final cabe ao Departamento de Justiça. A meta do grupo é fazer uma apresentação coesa que narre para o maior número de americanos o que aconteceu nas semanas antes e depois ao pleito de 2020, pondo Trump no centro da narrativa.

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Envolvimento paramilitar

Coube a Thompson comandar a audiência ao lado de sua vice, a republicana Liz Cheney, do Wyoming, uma das raras críticas vorazes a Trump dentro de seu partido. Segundo a dupla, os investigadores coletaram evidências de que o então presidente teria defendido o enforcamento do seu vice, Mike Pence, que comandou a sessão conjunta de 6 de janeiro, afirmando que ele "merecia".

Thompson e Cheney relataram ainda ter evidências de que integrantes do Gabinete de Trump, preocupados com a ofensiva antidemocrática, teriam debatido ativar a 25ª emenda da Constituição americana. A cláusula, na prática, determina os procedimentos para substituir um presidente em caso de morte, impeachment, renúncia ou incapacitação, garantindo a continuidade do poder. Também veio à tona que vários parlamentares republicanos pediram perdões presidenciais preventivos após 6 de janeiro.

— Vocês verão que Donald Trump e seus conselheiros sabiam que tinham perdido a eleição — disse Cheney. — Apesar disso, o presidente Trump mobilizou um esforço maciço para espalhar informações falsas e fraudulentas para conversar grandes parcelas da população americana que uma fraude havia lhe custado a eleição.

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Os investigadores também destacaram o envolvimento de duas milícias armadas de extrema direita, os Proud Boys e os Oath Keepers. De acordo com as conclusões do grupo, que durante um ano entrevistou mais de mil pessoas e analisou cerca de 125 mil documentos, os líderes de ambos os grupos, Enrique Tarrio e Stewart Rhodes, se encontraram em uma garagem na manhã de 6 de janeiro.

Foram mostrados vídeos sugerindo que os participantes do ato convocado por Trump em Washington sabiam que uma invasão à sede do Congresso, onde os deputados precisaram se esconder, estava sendo planejada. Em um deles, um homem aparece afirmando “não ter permissão para dizer o que vai acontecer hoje”, mas que “todo mundo precisa assistir”.

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Risco ainda presente

A comissão também exibiu filmagens do ataque, em uma tentativa de relembrar a audiência da brutalidade do dia. Gravações mostram a multidão gritando para que Pence fosse enforcado e cantando o nome da presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi. Levaram também a policial Caroline Edwards, uma das 150 agentes de segurança feridas na invasão, para falar ao vivo:

— O que eu vi foi uma cena de guerra — disse a mulher, uma das quatro policiais que depuseram na quinta. — Vi policiais no chão sangrando, vomitando (...). Eu estava pisando no sangue das pessoas. Foi uma carnificina, um caos.

O depoimento de Edwards, segundo o New York Times, refletiu a “potência” da apresentação liderada por Cheney e Thompson. A comissão investigativa não poupa esforços para que as descobertas cheguem ao maior número de espectadores: orquestram as sessões para que sejam espetáculos televisivos transmitidos simultaneamente pelas principais emissoras do país — a exceção é a conservadora Fox News —, ressaltando que os riscos não se dissiparam:

— Nossa democracia permanece em risco — disse Thompson, acusando Trump de uma "tentativa de golpe para derrubar o governo". — O ataque de 6 de janeiro e as mentiras que levaram à invasão puseram dois séculos de democracia constitucional em risco. O mundo está observando o que nós fazemos aqui.

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De olho em novembro

A comissão, que recorreu inclusive a ex-executivos do ramo da televisão, mira em outras audiências notórias que mobilizaram os EUA, como as do escândalo de Watergate, nos anos 1970. Há menos de cinco meses das eleições parlamentares em que são cotados para perder a maioria na Câmara e no Senado, a tensão ao redor das sessões parlamentares é ainda maior.

A grande polarização, tanto política quanto da imprensa, deverá ser um empecilho: os principais veículos conservadores, que minimizam o ataque e atraem grande audiência entre os aliados do ex-presidente, vêm pintando as audiências como uma empreitada política democrata. E também não está claro como o assunto competirá com tópicos mais imediatos como o aumento da inflação e o preço astronômico dos combustíveis.

E, se muitos republicanos inicialmente apoiaram a ideia de uma comissão independente, também passaram os últimos meses tentando reescrever 6 de janeiro, com os líderes do partido caracterizando o trabalho da comissão como "ilegítimo" e uma "farsa" durante uma entrevista coletiva.

— Nancy Pelosi vai fazer uma audiência em horário nobre sobre a inflação? — indagou o deputado Steve Scalise, de Louisiana. — Eu gostaria muito que isso acontecesse. Acho que muitos americanos gostariam. Nancy Pelosi vai fazer uma audiência em horário nobre sobre como abaixar o preço dos combustíveis?

A próxima das seis audiências está marcada para segunda-feira. Segundo Thompson, ela detalhará como Trump "acendeu o fósforo" para a invasão com suas mentiras sobre a eleição.

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