'Ataque dos cães': direção impecável e magnetismo nas imagens

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Os personagens de “Ataque dos cães” ("The power of the dog", no original) se sentem constantemente deslocados em meio à vasta paisagem e à moral arraigada de Montana em 1925. A viúva Rose (Kirsten Dunst) não consegue se inserir no ambiente pouco amistoso da casa onde vai viver com o novo marido, George (Jesse Plemons). O jovem Peter (Kodi Smit-McPhee), filho de Rose, destoa numa região atravessada por masculinidade rude. Até Phil (Benedict Cumberbatch), que parece simbolizar com exatidão essa masculinidade, expressa dificuldade crescente em lidar com os acontecimentos e uma verdade emocional sufocada pelo contexto ao redor. Evidencia rejeição diante do casamento do irmão, George, com quem dormia no mesmo quarto, com Rose. E, à medida que fatos do passado vêm à tona, seu perfil de homem agressivo começa a soar como uma espécie de mecanismo de defesa.

Escorada no livro de Thomas Savage, Jane Campion promove uma desconstrução do padrão de masculinidade no western tradicional. Realiza sequências de impacto, como a da última conversa entre Phil e Peter, passagem marcada pela insinuação de um jogo de sedução e pela inversão de uma dinâmica de poder. A diretora valoriza a sutileza, o não dito, o oculto, na maneira como desenvolve os intrincados vínculos entre os personagens. É como se procurasse dissecá-los, de modo a revelar o que a pele esconde, como faz Peter em sua frequente investigação da interioridade dos corpos dos animais mortos, ainda que, no caso dele, haja um sugestivo componente perverso.

Campion apresenta com excelência um mundo opressivo, sem muitas possibilidades de escape (informações sobre uma realidade diversa se concentram no passado, a exemplo do antigo trabalho de Rose como pianista em sessões de cinema mudo). Apesar das transições e motivações dos personagens nem sempre baterem na tela com total organicidade, a julgar pela razão que determina o desfecho, a direção impecável — já demonstrada em “Um anjo em minha mesa” (1990) e “O piano” (1993) —, a qualidade das interpretações, o magnetismo da fotografia (de Ari Wegner) e a relevância da trilha sonora (de Jonny Greenwood) vêm contribuindo para a repercussão alcançada por essa produção, vencedora do Leão de Prata de melhor direção no Festival de Veneza e do Globo de Ouro nas categorias Filme/Drama, Direção e Ator Coadjuvante (Smit-McPhee).

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