Ataque em Aracruz: como vivia a família do atirador

Aracruz: Peritos criminais carregam corpo de vítima de ataque em escola no Espírito Santo, em 25 de novembro. (Foto: KADIJA FERNANDES/AFP via Getty Images)
Aracruz: Peritos criminais carregam corpo de vítima de ataque em escola no Espírito Santo, em 25 de novembro. (Foto: KADIJA FERNANDES/AFP via Getty Images)

A família do adolescente de 16 anos que matou quatro pessoas e feriu 12 na última sexta-feira (25), durante ataque a duas escolas no bairro Coqueiral, em Aracruz (ES), vivia uma rotina de cuidados e isolamento.

De acordo com vizinhos da família, o atirador era visto fazendo corridas ou caminhadas ao lado do pai, que trabalha como policial militar (PM).

No entanto, ultimamente, o adolescente interagia apenas com a família. No celular apreendido pela polícia após o crime cometido com as duas armas do PM, segundo o delegado André Jaretta, responsável pela investigação, só havia dois contatos, registrados como "pai" e "mãe".

O adolescente, segundo vizinhos próximos da casa, costumava desviar o olhar se alguém o cumprimentava. Ou evitava contato visual usando óculos escuros.

Sem a companhia do pai, ele se exercitava em uma academia comunitária a cerca de 200 metros de casa ou andava de moto pelas ruas da região.

Na pandemia, informou reportagem do portal UOL, o adolescente passou a se isolar ainda mais, fazendo com que o pai passasse a forçar uma aproximação maior.

Colegas de farda do PM dizem que ele começou a estudar psicanálise para ajudar nos cuidados com o filho, que já demonstrava alterações no comportamento desde a infância.

Por conta disso, o pai do adolescente deixou de consumir bebidas alcoólicas até socialmente nos últimos anos para tentar ajudar o garoto.

De acordo com as investigações do caso, o policial militar teria comprado o livro "Minha Luta", escrito pelo ditador nazista Adolf Hitler, para interagir mais com o garoto, que usou uma suástica junto ao braço direito fixada na roupa camuflada no ataque às escolas.

No entanto, o PM negou, em entrevista, que tivesse comprado o livro para o filho, contrariando a versão de fontes ligadas à Polícia Militar de Aracruz ouvidas pela reportagem.

"Esse livro foi uma aquisição minha para entender um pouco sobre a questão da mente do autor. Mas vi que ele foge um pouco das ideias e vem muito para a biografia. Então nem continuei a leitura", disse.

Na escola, o garoto era considerado um bom aluno, daqueles que sentam mais perto da professora e tiram notas altas. Mas, em junho deste ano, a pedido dos pais, ele deixou a escola estadual Primo Bitti, segundo a polícia. A instituição de ensino foi o alvo do seu primeiro atentado na última sexta.

O adolescente conhecia muito bem o ambiente onde atacou, pois, quando criança, ele acompanhava a mãe, que era professora do colégio na época e hoje é aposentada. Ele invadiu a sala das professoras pela porta dos fundos para atirar.

Na infância, o adolescente era sempre monitorado, pelos cuidados dos pais, segundo o autônomo Alexsandro Neumeg, de 39 anos.

Ele disse que o garoto até costumava jogar videogame ou brincar com o seu filho quando ainda era pequeno. Mas não ficava por muito tempo.

"Era um menino que a mãe e o pai sempre vigiavam. Falavam: 'Ó, brinca aqui na rua onde eu possa estar vendo.' Mas isso nunca tinha me chamado a atenção. Aqui, é como você está vendo. A vizinhança não interage muito."

Outro vizinho, adolescente da idade do atirador, que também mora perto dali, disse que jogava futebol com o garoto quando eles ainda eram crianças, em uma escolinha ligada a uma igreja evangélica da região.

Segundo o adolescente, o jovem foi mudando de comportamento com o passar dos anos, quando eles eram colegas na escola.

"Ele estava diferente. Não falava com ninguém".

A rotina da mãe era diferente da do pai do garoto. O pai participava ativamente de ações sociais e atuava como líder comunitário na região, a mãe era mais reservada. Quando ainda lecionava, não costumava se reunir com as outras professoras. A rotina dela era da casa para o trabalho.

O vizinho da família, Marcelo Pedrini, 47 anos, disse que nunca viu a mãe do adolescente.

"Rapaz... Eu moro aqui há dez anos e só conheci o pai dele em um evento comunitário na inauguração de uma academia popular. A mãe, eu nunca vi", disse Marcelo.

Após o crime, a rotina mudou por ali. Mesmo sem qualquer tipo de envolvimento com a família, os moradores também passaram a conviver com o medo de serem atingidos por algum ataque em represália ao atentado.