Ataque em evento político deixa quase 30 mortos em Cabul

As forças de segurança afegãs vigiam uma rua de Cabul próxima ao local do ataque em 6 de março de 2020

Pelo menos 29 pessoas morreram, e 61 ficaram feridas, em um ataque nesta sexta-feira (6) contra um evento político em Cabul.

Os talibãs negaram qualquer responsabilidade no ataque contra uma cerimônia em memória de Abdul Ali Mazari, um político da minoria hazara. Seus membros são majoritariamente xiitas, em um Afeganistão amplamente sunita.

O atentado foi reivindicado pelo grupo Estado Islâmico (EI).

"Dois irmãos... atacaram uma reunião de apóstatas em Cabul com metralhadoras, granadas e lança-granadas", garantiu o EI em um comunicado divulgado no aplicativo de mensagens Telegram.

No ano passado, um ataque que teria sido cometido com disparos de morteiro pelo EI nesta mesma cerimônia deixou ao menos 11 mortos.

Desta vez, os disparos tiveram origem em uma obra em construção próxima ao evento, informou o porta-voz do Ministério, Nasrat Rahimi.

Este é o primeiro atentado na capital afegã desde a assinatura do acordo entre os talibãs e os Estados Unidos, segundo o Ministério do Interior.

Fotos nas redes sociais mostravam corpos alinhados no chão, alguns deles com um pano que cobria seu rosto.

Vários integrantes da elite política afegã estavam presentes, entre eles o primeiro-ministro Abdullah Abdullah, que afirma ter vencido a eleição presidencial de setembro, apesar de o resultado oficial mostrar sua derrota.

"Estávamos no meio da cerimônia quando, de repente, ouvimos disparos", contou Mohammad Mohaqiq, o mais conhecido dos políticos hazara e próximo a Abdullah Abdullah, em entrevista à emissora Tolonews.

Também presentes, o ex-presidente Hamid Karzai e o ex-primeiro-ministro Salahuddin Rabbani, tinham saído um pouco antes, acrescentou.

"Todas as autoridades de alto nível foram retiradas do local", comentou Rahimi.

Unidades das forças especiais afegãs "fazem operações de varredura" na área, acrescentou.

- Antecedente em 2019 -

O incidente de hoje acontece menos de uma semana depois da assinatura de um acordo em Doha entre Estados Unidos e os talibãs. O pacto abre caminho para a retirada completa das tropas estrangeiras do Afeganistão em 14 meses, em troca de garantias de segurança.

Uma trégua parcial instaurada a pedido de Washington em 22 de fevereiro foi suspensa pelos talibãs na segunda-feira. Desde então, eles intensificaram os ataques contra as forças de segurança afegãs, evidenciando a dificuldade de diálogo entre os insurgentes e o governo, outra condição do acordo de Doha.

Nesta sexta, o presidente Donald Trump mencionou a possibilidade de que os talibãs retomem o poder no Afeganistão após a retirada das tropas americanas.

"Os países têm que tomar conta de si mesmos", disse Trump à imprensa na Casa Branca.

Ao ser questionado sobre a chance de uma volta dos talibãs ao poder, Trump comentou que "não deveria ser assim, mas é uma possibilidade".

"Não podemos ficar lá pelos próximos 20 anos. Estivemos lá por 20 anos e protegemos o país, mas não podemos ficar lá para os próximos. Em algum momento, eles terão que se proteger sozinhos", insistiu.

A respeito da capacidade do governo afegão de se defender após a retirada das forças americanas, desconversou.

"Eu não sei. Não posso responder a essa questão. Vamos ter que ver o que acontece", afirmou.

Apesar da deterioração do quadro, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, chegou a manifestar na quinta-feira sua confiança nos líderes talibãs.

O principal obstáculo ao diálogo interafegão é, hoje, a libertação de presos prevista no acordo e que pode beneficiar até 5.000 rebeldes detidos por Cabul e outras mil pessoas presas pelos insurgentes.