Ataque a faca deixa 3 mortos em igreja, e França eleva alerta de segurança

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Um agressor com uma faca matou três pessoas —duas mulheres e um homem— na basílica de Notre-Dame de Nice, na França, por volta das 9h (horário local, 5h no Brasil) desta quinta-feira (29). Segundo a polícia, uma mulher de cerca de 70 anos foi degolada, e o sacristão da igreja também foi morto a facadas dentro do edifício —ambos tinham cortes na garganta. Identificado como Vicente, ele tinha cerca de 55 anos, dois filhos e abria a igreja às 8h30 todas as manhãs. Uma mulher de cerca de 40 anos, gravemente ferida, conseguiu fugir da igreja, mas acabou morrendo em um estabelecimento em frente à basílica, segundo ​o prefeito de Nice, Christian Estrosi. Na cidade da costa sul francesa, o presidente Emmanuel Macron fez um pronunciamento dizendo que o governo manterá a firmeza e pedindo união a toda a população, independente do credo. “Nosso país sofreu um ataque terrorista islâmico”, disse Macron. O governo elevou o nível de segurança contra ataques terroristas em todo o país para o correspondente a alerta máximo e Macron anunciou que aumentaria de 3.000 para 7.000 o número de policiais para proteger "lugares de culto —principalmente igrejas—" e escolas. A polícia, que descreveu a cena do crime como "uma visão de horror", foi acionada por um botão de emergência que fica na calçada e chegou ao local em cerca de dez minutos. Moradores ouviram vários tiros, e o suspeito foi levado ao hospital após ser baleado. Ele se identificou como tunisiano, de 21 anos, e disse ter chegado ilegalmente à França no começo deste mês, depois de passar pela ilha italiana de Lampedusa. Segundo a AFP, ele chegou a ficar em quarentena imposta pelas autoridades italianas e depois foi posto em liberdade com ordem de deixar o território. Uma autoridade francesa afirmou que ele carregava um documento de identificação da Cruz Vermelha italiana. Os investigadores tentam confirmar a identificação. Segundo a TV francesa, o nome apresentado pelo agressor não era conhecido das agências antiterror francesas. Além disso, Jean-François Ricard, procurador-chefe antiterrorista da França, afirmou que o suspeito foi flagrado por câmeras de segurança na estação ferroviária de Nice, onde trocou de roupa, e de lá caminhou 400 metros até a igreja de Notre Dame. O governo da Tunísia condenou o ataque e afirmou que irá abrir uma investigação. O prefeito Estrosi afirmou não ter dúvida de que o incidente foi um atentado terrorista, depois de falar com policiais que interrogaram o agressor. Segundo ele, o homem gritou "Allahu Akbar" (Deus é maior, em árabe) várias vezes, mesmo após ser detido. Ouvido pela BFMTV, um homem chamado David, que trabalha no café Brioche Chaude, disse ter presenciado a cena do crime após ser avisado por outro homem que também estava na igreja. “Fiquei chocado. Ainda estou tremendo”, disse ele à TV. ​ ​Outros três episódios elevaram a preocupação do governo francês. Duas horas após o ataque em Nice, um homem foi morto pela polícia em Avignon depois de ameaçar moradores com uma pistola. Testemunhas disseram que ele gritava "Alá é grande", mas a polícia diz que é cedo para afirmar que há motivação terrorista, relatou a rádio Europe 1. Em Lyon, um afegão foi preso quando tentava entrar em um bonde armado com uma faca. Na Arábia Saudita, um homem foi preso em Jidá após atacar com uma faca um guarda do consulado francês. A vítima está no hospital, mas não corre risco de morte, segundo a Embaixada da França. Na quarta, a França havia publicado avisos de segurança para cidadãos em países de maioria muçulmana. Os ataques ocorrem em meio a uma escalada de tensão em países de maioria muçulmana contra declarações do presidente francês de que a liberdade de expressão é um valor fundamental na França, ainda que manifestações possam ofender grupos específicos. ​ Os discursos de Macron foram feitos após a morte do professor Samuel Paty, decapitado por um jovem de 18 anos por mostrar caricaturas de Maomé em aula sobre liberdade de expressão. Retratar o profeta é banido por religiosos muçulmanos, e as charges são vistas como insulto grave. Cartuns de Maomé já haviam sido motivo para ataques contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo em 2011, 2013 e 2015, quando 12 pessoas foram mortas em ataque terrorista. Em setembro, quando começou o julgamento de 14 acusados de envolvimento nesse atentado, o jornal republicou desenhos, alguns deles mostrados por Paty em sua aula. Há um mês, dois jornalistas foram esfaqueados em Paris perto do antigo escritório do Charlie Hebdo. Cinco pessoas foram presas, e uma delas afirmou que ataque tinha o jornal como alvo. Dias antes da morte do professor, Macron havia anunciado um programa contra o que chamou de "separatismo islâmico", que estaria levando a radicalização e ao risco de terrorismo. A França tem a maior população islâmica da Europa: 6 milhões, ou cerca de 9% do total. ​Em países do Oriente Médio, da África e da Ásia houve protestos contra o presidente francês e pedidos de boicote a produtos franceses. Ainda não está claro se o incidente desta quinta tem relação com a crise iniciada devido às caricaturas de Maomé. O Conselho Francês da Fé Muçulmana escreveu que “condena veementemente o ataque terrorista”. Em rede social, uma moradora de Nice, não identificada, convocou outros imigrantes islâmicos a fazerem uma noite de vigília na basílica, em protesto contra a violência. "Não podemos aceitar. Por que esse ataque à França, que nos deu tudo? As pessoas rezam para viver na França, se metem em barquinhos para chegar aqui, e então agridem o país dessa forma?", disse ela. O ataque foi condenado também pelo governo turco, que, nos últimos dias, estava envolvido em uma escalada de tensões com a França. "Nenhuma razão pode justificar matar uma pessoa ou justificar a violência", afirmou comunicado no site oficial. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu adversário na corrida eleitoral do país, Joe Biden, condenaram o ataque. "Esse ataques de terroristas islâmicos radicais devem acabar de imediato", escreveu Trump. Biden afirmou que tem o povo francês em suas orações e que, se for eleito, trabalhará com os aliados dos EUA para prevenir a violência "em todas as suas formas". União Europeia, Canadá, Reino Unido, Holanda, Itália e Espanha também condenaram o ataque. "A liberdade de pensamento e a liberdade de expressão são fundamentais para nossas democracias e nossas liberdades, e devemos combater aqueles que querem colocá-las em perigo", disse o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel. O Vaticano também se pronunciou. Uma mensagem enviada ao bispo de Nice em nome do papa Francisco diz que o pontífice condena "da maneira mais enérgica esses violentos atos de terror" e "se une em oração com o sofrimento das famílias e compartilha sua dor". A Arábia Saudita condenou "energeticamente" o ataque, segundo escreveu em uma rede social o Ministério das Relações Exteriores do país, que também pediu que "as práticas que levam ao ódio, à violência e ao extremismo sejam rejeitadas". Em Paris, parlamentares fizeram um minuto de silêncio em solidariedade às vítimas. A prefeita Anne Hidalgo disse que o povo de Nice "pode ​​contar com o apoio da cidade de Paris e dos parisienses". Em 2016, Nice foi palco de um atentado perpetrado pelo grupo terrorista Estado Islâmico. Um caminhão avançou sobre a multidão que comemorava o Dia da Bastilha, em 14 de julho, deixando 86 mortos e 458 feridos. * ATAQUES TERRORISTAS NA FRANÇA DESDE 2015 16.out.2020 O professor do ensino fundamental Samuel Paty, 47, foi decapitado na periferia de Paris após ter mostrado charges de Maomé a estudantes, durante uma aula sobre liberdade de expressão 25.set.2020 Dois jornalistas foram esfaqueados perto do antigo escritório do jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris 4.abr.2020 Homem sudanês que recebeu asilo na França mata duas pessoas e fere outras cinco em um ataque terrorista a faca em Romans-sur-Isère, no sudeste da França​ 11.dez.2018 Ataque a tiros deixa cinco mortos e 11 feridos no maior mercado de Natal do país, em Estrasburgo. O agressor era natural da cidade e monitorado pelos serviços de inteligência franceses por suposta radicalização religiosa 12.mai.2018 Ataque a faca reivindicado pelo Estado Islâmico, no distrito do Opéra, em Paris, deixa um morto e quatro feridos. O agressor era cidadão francês nascido na Chechênia e era monitorado pela inteligência francesa 23.mar.2018 Redouane Lakdim, 26, um homem franco-marroquino que declarou pertencer ao Estado Islâmico, mata quatro pessoas a tiros após fazê-las de reféns em um mercado na cidade de Trèbes no sul da França 20.abr.2017 Três dias antes de eleições nacionais, um ataque a tiros na famosa Champs-Elysées deixa um policial morto, e outros dois, além de uma turista alemã, feridos. A agência de notícias Amaq, ligada ao EI, noticiou que o autor da ação seria um combatente do grupo 14.jul.2016 Militante islâmico avança com um caminhão sobre uma multidão que comemorava o Dia da Bastilha, em Nice, matando 86 pessoas 13.nov.2015 ​Atiradores matam 130 pessoas na casa de shows Bataclan e em outros locais nos arredores de Paris, na pior ação violenta a atingir a França desde a Segunda Guerra 21.ago.2015 Homem armado abre fogo em um trem, na rota Amsterdã-Paris, mas é neutralizado por dois militares americanos de férias. Duas pessoas ficaram feridas 8 e 9.jan.2015 Homem mata um policial, fere um agente municipal e, um dia depois, mantém clientes e funcionários de um mercado de alimentos judaicos como reféns, matando quatro deles 7.jan.2015 Os irmãos Said e Cherif Kouachi realizam um ataque com metralhadoras AK-47 ao jornal satírico Charlie Hebdo, deixando 12 mortos, incluindo alguns dos chargistas mais célebres da França