Insulto a repórter na CPI das Fake News segue à risca a cartilha de Olavo de Carvalho

Em pronunciamento, depoente Hans River do Rio Nascimento. Foto: Jane de Araújo/Agência Senado

Em uma de suas aulas de filosofia online, Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo, explicou a um de seus alunos que o erro do “pessoal conservador” é imaginar que existe uma luta de ideias em curso. Falava, conforme uma reportagem recente da revista “Época”, de como derrotar o marxismo destruindo marxistas, mas a descrição da tática serve também para jornalistas que praticam jornalismo: “nós não discutimos para provar que o adversário está errado. Discutimos para destruí-lo socialmente, psicologicamente, economicamente”.

Não sei se Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário de uma agência de disparos em massa por WhatsApp, teve aulas com o “Astrólogo da Virgínia”, como se referiu a ele o vice-presidente Hamilton Mourão. Mas os filhos de Jair Bolsonaro tiveram, e foi exatamente essa tática de tergiversar atacando o “adversário” que ao menos um deles, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), reproduziu ao fazer coro às mentiras contadas por Hans River à CPMI das Fake News na última terça-feira (11).

Em 2018, logo após as eleições, Hans serviu como fonte para uma reportagem da Folha de S.Paulo, assinada pela premiada Patrícia Campos Mello, sobre uma rede de empresas -- entre elas a Yacows, onde o depoente trabalhava -- suspeitas de fraudar chips e celulares para realizar disparo de lotes de mensagens favoráveis a políticos.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

A apuração se baseou em diversas conversas entre a repórter e a fonte, que enviou documentos, imagens informações sobre o suposto esquema.

Hans movia um processo contra a empresa e, após um acordo, recuou, pedindo para o material não ser divulgado, como acabou ocorrendo.

Arrependido, ele prestou depoimento a uma comissão que tem entre seus integrantes ao menos dois administradores de grupos de WhatsApp onde boatos e ataques contra adversários de Bolsonaro correm soltos.

Na sessão, o ex-funcionário se fez de desentendido, disse não ter encaminhado nada para o jornal, insinuou que a repórter acessou indevidamente um processo que é público e acusou a profissional de querer “determinada matéria a troco de sexo”.

Deu, em resumo, uma aula de como criar uma fake news com as ferramentas do machismo e ataques à credibilidade do trabalho de uma mulher.

A velha estratégia de “destruir” a pessoa com insultos para não precisar discutir os fatos foi solenemente desmentida com a abertura dos arquivos relacionados à apuração feita pelo próprio jornal. Na troca de mensagens, estava claro que Hans River mentiu sobre não ter encaminhado materiais e documentos que fundamentaram a reportagem. Cometeu falso testemunho, portanto, em uma CPMI para apurar mentiras.

O episódio é didático de como, de mentira e mentira, chegamos até aqui -- em nota, a Folha de S.Paulo disse causar estupefação o fato de o Congresso Nacional servir de “palco ao baixo nível” e chamou de ultrajantes as insinuações de Eduardo Bolsonaro, o bom aluno olavista que correu às redes para replicar os insultos.

O festival é talvez o estágio mais lamentável da guerra declarada pelo próprio presidente contra o jornalismo profissional. Antes mesmo de vestir a faixa, ele já havia anunciado seu desejo de viver em um país sem a Folha de S.Paulo, e desde então não tem poupado ataques, mandando jornalista calar a boca na porta do Palácio, colocando a credibilidade das notícias que lhe desagradam em xeque, boicotando e constrangendo anunciantes dos veículos que não dobram suas espinhas para ele.

Alguém precisa explicar ao presidente que alguém que propaga aos quatro ventos o versículo de que a verdade liberta deveria ser o primeiro interessado em esclarecer as mentiras propagadas em seu entorno. Essa verdade tem sido nublada cada vez mais com ilações, insultos e agressões, como manda seu guru.