Ataque a quatro legisladoras democratas é tática eleitoral de Trump

Por Chris Lefkow
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(Arquivo) O presidente americano, Donald Trump

Donald Trump tirou proveito de uma onda de inquietação entre os americanos brancos da classe trabalhadora e rural para vencer de forma apertada as eleições presidenciais de 2016. E espera fazer o mesmo para seguir na presidência dos Estados Unidos após 2020.

Seus fortes ataques nesta semana contra quatro legisladoras democratas da ala esquerda do partido fazem parte de sua estratégia para a reeleição, indicam analistas.

Sem um candidato democrata à presidência para atacar, Trump, líder do Partido Republicano, tentou mostrar às quatro congressistas, todas pertencentes a minorias e conhecidas como o "Esquadrão", como a cara do Partido Democrata.

Inclusive admitiu isso no Twitter: "Os democratas estão tentando se afastar das quatro 'progressistas', mas agora são obrigados a acolhê-las", disse. "Isso significa que eles estão apoiando o socialismo, o ódio a Israel e aos Estados Unidos! Não é bom para os democratas!"

Em postagens em redes sociais e comentários classificados como racistas por seus oponentes, Trump disse que as quatro deveriam "regressar" para seus países de origem se não são felizes nos Estados Unidos.

Das quatro, apenas uma não nasceu nos Estados Unidos: Ilhan Omar, que imigrou criança como refugiada e obteve nacionalidade mais tarde. As integrantes do "Esquadrão", todas recém-chegadas ao Congresso em janeiro, identificam-se como "mulheres de cor" por causa de sua ascendência hispânica, árabe, somali e afro-americana.

Todas as quatro têm sido muito criticadas das políticas de Trump, particularmente na imigração, pedra angular da campanha do republicano em 2016 e um dos temas centrais de seu governo.

A mais conhecida é Alexandria Ocasio-Cortez, eleita por Nova York, que descreveu os centros de detenção para imigrantes ilegais como "campos de concentração". Outras duas, Omar e Rashida Tlaib, defendem o impeachment de Trump.

Para Larry Sabato, diretor do Centro de Políticas da Universidade da Virgínia, a mensagem de Trump é claramente dirigida aos eleitores brancos que o levaram à Casa Branca.

Trump obteve 57% de apoio dos eleitores brancos em 2016, contra 37% da adversária democrata Hillary Clinton. Para o próximo ano acredita-se que 70% do eleitorado será composto por brancos. Os afro-americanos, hispânicos e outras minorias tendem a votar pelos democratas.

A estratégia de Trump, afirma Sabato, é "associar o Partido Democrata à imagem de quatro mulheres de cor".

"O cálculo de Trump é 'Se posso aumentar o voto dos brancos por um ponto ou dois e conseguir que muitos dos brancos sem educação universitária que não votaram em 2016 votem em mim, vou ganhar'. É uma estratégia cínica", destacou.

"A maioria dos presidentes não faria isso porque eles não gostariam de entrar para a história como racistas. Mas Donald Trump não se importa com isso".

- Riscos -

Segundo Wendy Schiller, uma professora de Ciências Políticas da Universidade de Brown, Trump busca congregar os republicanos com estes ataques.

"Necessita que todos aqueles que votaram nele em 2016 façam isso novamente", disse Schiller. "Então é uma estratégia inteligente para ele fazer dessas quatro mulheres o rosto do Partido Democrata", acrescentou.

Mas também é uma tática de risco.

"O risco para o presidente é que ele mobilize sua base, mas também mobilize os democratas", declarou Schiller, ao recordar que candidatos como Bill Clinton e Barack Obama conseguiram mobilizar esse eleitorado e venceram.

Com seus comentários incendiários, Trump pode irritar os eleitores independentes de quem ele precisa para ganhar e irritar as mulheres com educação universitária, um segmento que em parte abandonou os republicanos nas eleições legislativas de 2018.

Muitos independentes votaram em Trump em 2016 acreditando que "não será tão ruim", afirmou Schiller, mas agora podem mudar de ideia.

Segundo uma pesquisa da Reuters/Ipsos, o apoio a Trump aumentou levemente entre os republicanos após seus ataques contra as congressistas democratas. Seu índice de aprovação líquido entre os republicanos na pesquisa realizada esta semana aumentou para 72%, cinco pontos percentuais acima do levantamento realizado na semana passada.

Mas apenas três dos dez independentes disseram que aprovam Trump, em comparação aos quatro em cada 10 da semana anterior. Pelo menos 41% dos entrevistados afirmaram que aprovam o desempenho de Trump na Casa Branca, enquanto 55% não aprovam.

A 15 meses das eleições, David Axelrod, chefe da estratégia das campanhas de Obama à presidência, apontou que esta semana dá uma ideia do que está por vir.

"Nunca antes tivemos um presidente que tão regularmente, descaradamente, quase alegremente, busca inflamar e dividir o país", disse Axelrod.