Com o ataque na Síria, Trump surpreende a Rússia em seu próprio terreno

Por Thibault MARCHAND y Olga ROTENBERG
1 / 3
O presidente americano Donald Trump discursa em West Palm Beach, Flórida, no dia 6 de abril de 2017

Para Vladimir Putin, Donald Trump representava uma possibilidade de reconciliação com Washington. Mas o ataque americano contra Damasco surpreendeu o presidente russo, que se viu invadido em seu próprio território.

O ataque americano contra a base aérea de Al Shayrat foi como uma ducha de água fria para Moscou. Afinal, a Rússia esperava que Donald Trump fosse mais fácil de "manipular" que Barack Obama, especialmente em relação à Síria.

Não havia ele prometido durante a campanha uma "normalização" das relações a ponto de apresentar-se como um amigo da Rússia? Não era, para muitos, o homem de Moscou, a tal ponto que alguns de seus colaboradores enfrentam acusações de conluio com a Rússia?

Não disse que a prioridade de sua administração ia ser a luta contra o grupo Estado Islâmico?

O presidente russo Vladimir Putin condenou os ataques como uma "agressão contra um Estado soberano", que causaram "um prejuízo considerável nas relações entre Estados Unidos e Rússia".

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, resumiu a decepção dos russos.

"É preciso destacar que o próprio presidente Trump, que durante sua campanha eleitoral apresentava como um de seus principais objetivos a luta contra o terrorismo (...), tenha feito exatamente o contrário", declarou.

Segundo ele, os russos foram alertados com duas horas de antecipação sobre a iminência dos bombardeios, decididos em resposta ao ataque químico na localidade de Khan Sheikhun atribuído ao regime sírio.

Para a Rússia, esses ataques constituem um obstáculo para a luta contra o terrorismo.

- Defesa antiaérea -

Os bombardeios também levantam interrogações a respeito da proteção que a Rússia concede à Síria.

"A Rússia ajudou os sírios a melhorar sua defesa antiaérea, mas parece que os americanos podem eludi-la facilmente", afirmou à AFP o especialista militar Pavel Felguenhauer.

Depois do ataque, o porta-voz do exército russo anunciou que serão reforçadas as defesas antiaéreas do exército sírio.

Desde outubro de 2015, a Rússia posicionou em solo sírio baterias de defesa antiaérea S-300 e S-400, que são capazes, segundo Moscou, de responder a qualquer ataque aéreo.

Mas as bateria permaneceram em silêncio quando os mísseis americanos Tomahawk caíram sobre a base síria de Al Shayratal.

- Tillerson em Moscou -

O golpe parece ainda mais duro quando acontece antes da visita, na próxima terça, do secretário de Estado americano Rex Tillerson a Moscou.

"Isso não vai fazer com que se suspenda a visita de Tillerson", destacou Felguenhauer, para quem os ataques e as inevitáveis declarações posteriores não vão perturbar as relações bilaterais.

"Trump tem sérios problemas internos e decidiu mostrar, ao contrário da fragilidade de Obama, que está pronto para ordenar ataques", afirmou o especialistas, que não espera por reações radicais.

O governo americano assegurou que o ataque não deve ser seguido por outros, no entanto, no dia seguinte ao ataque, a embaixadora americana ante a ONU, Nikki Haley, ameaçou com uma nova ação militar de seu país na Síria. "Estamos dispostos a fazer mais, mas esperamos que isso não seja necessário", afirmou.

"Isso não parece ser uma campanha com o objetivo de enfraquecer Assad", comentou Felguenhauer.

Andrei Baklitski, do centro de reflexão independente PIR, afirmou que, mesmo com o ataque, as reações foram moderadas.

"A declaração de Trump e as respostas dos russos foram moderadas (...) não houve gestos, a visita de Tillerson não foi cancelada", destacou o especialista.

Até agora, a Rússia se contentou em suspender seu acordo com a coalizão antijihadista para prevenir incidentes aéreos.

Para Andrei Baklitski, o bombardeio terá como principal consequência a mudança de tom nas discussões entre os americanos e os russos.

"Um envolvimento dos Estados Unidos na guerra na Síria estava pendente como uma espada de Dâmocles", afirmou o especialista.

"Agora está claro que os Estados Unidos são capazes de utilizar a força na região e isso implica que sua opinião deve ser ouvida ainda mais", concluiu.