Ataques da Rússia fazem Ucrânia encarar inverno no escuro

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A mudança tática da Rússia na Guerra da Ucrânia, concentrando ataques na infraestrutura energética enquanto se prepara para a grande batalha pela região de Kherson (sul), ameaça fazer o país invadido em fevereiro passar o inverno no escuro.

As forças de Vladimir Putin passaram a alvejar com mísseis centrais elétricas e redes de distribuição ucranianas desde o começo do mês passado, quando Kiev promoveu um ataque bem-sucedido contra a simbólica megaponte que liga a Rússia à Crimeia, anexada em 2014.

Segundo disse na noite de domingo (6) o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, o país já enfrenta um déficit de 32% de sua capacidade energética, com quase 60% de suas instalações tendo sido afetadas em algum momento.

A Rússia, disse, "está concentrando forças e meios para uma repetição dos ataques maciços contra nossa infraestrutura, primariamente energética". A inteligência militar ucraniana aponta para o que seria a montagem de uma grande frota de drones suicidas iranianos ao norte da capital, na aliada de Moscou Belarus.

O prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, foi além nesta segunda (7): disse que os moradores têm de se preparar para evacuar a cidade em caso de um blecaute total. A capital é a maior e mais populosa cidade ucraniana, com 3 milhões de habitantes antes da guerra --em março, o número havia caído pela metade, mas boa parte da população voltou após Moscou fracassar em capturá-la.

Nesta segunda, a temperatura mínima na cidade é de 4 graus Celsius e, quando o inverno do Hemisfério Norte chegar em 21 de dezembro, ela estará abaixo de zero. Sem eletricidade, não há aquecedores elétricos ou água corrente.

Para tentar reparar a rede, haverá blecautes planejados nesta segunda em Kiev e nas regiões de Tchernihiv, Tcherkasi, Jitomir, Sumi, Kharkiv e Poltava.

Enquanto o drama se avoluma, os preparativos de lado a lado para a batalha por Kherson prosseguem. Os russos evacuaram civis da capital homônima a oeste do rio Dnieper, movendo-os para vilarejos da pouco habitada região a leste.

Não está claro se Moscou pretende defender a cidade em si, a primeira importante que capturou na guerra, ou está disposta a deixar o rio como fronteira para uma eventual zona desmilitarizada no futuro, caso haja um cessar-fogo.

Segundo o historiador Ridvan Bari Urcosta, da minoria tártara da Crimeia que escreve para a Fundação Jamestown e para a consultoria Geopolitical Futures, ambas americanas, há riscos para ambos os combatentes.

"Para manter sua vantagem estratégica, a Rússia pode escalar ofensivas em outros territórios ou usar armas nucleares táticas em áreas pouco populosas. Isso pode explicar a hesitação de Kiev em atacar: está preocupada com o que virá depois", afirmou, citando o envio apressado de reservistas convocados para a linha de frente.

Região rural, Kherson é importante também por abrigar o canal que fornece água para a Crimeia, logo ao sul.

Um dos principais aliados de Putin no continente europeu, o presidente sérvio Aleksandr Vucic, disse nesta segunda que Kherson "será a batalha decisiva da guerra".

"Estamos vendo a batalha de Stalingrado [referência ao ponto de virada dos soviéticos contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial]. O Ocidente acredita que com isso vai destruir a Rússia, e a Rússia acredita que poderá proteger o que tomou [as quatro regiões anexadas em setembro] e acabar com o conflito. Isso vai criar problemas adicionais em todos os lugares", afirmou à agência russa Tass.

Há outros sinais de pressão sobre o governo de Zelenski. No fim de semana, o jornal americano Washington Post relatou que o governo de Joe Biden está pressionando Kiev a aceitar negociar com os russos, além de ter tido conversas secretas com Moscou para evitar uma escalada nuclear da crise.

Nesta segunda, o Kremlin não quis comentar a segunda reportagem, mas também não a negou, uma indicação de que talvez ela esteja no caminho correto.

Nos EUA, a provável vitória da oposição republicana na eleição de meio de mandato nesta terça (8) poderá colocar políticos céticos em relação ao apoio irrestrito a Zelenski em posição de atrapalhar o fluxo de armas e dinheiro para Kiev. Até aqui, Washington já enviou ou autorizou mais de US$ 50 bilhões em ajuda para os ucranianos, quase US$ 20 bilhões em equipamento militar.

Já um porta-voz do governo alemão, que sempre foi dos mais reticentes acerca do apoio a Kiev na Europa devido a seus laços energéticos com a Rússia, afirmou que caberá à Ucrânia decidir se senta à mesa com o Kremlin.