Ataques e críticas dominam grupos de WhatsApp pró-Lula e Bolsonaro

Críticas e conteúdos que atacam o adversário são os principais temas das mensagens nos grupos de WhtasApp de apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao presidente Jair Bolsonaro (PL). É o que mostra análise da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV DAPP), entre 1º e 30 de junho, dos dez grupos mais ativos — com mais mensagens — em apoio aos dois pré-candidatos à Presidência que lideram a corrida eleitoral. No total, a FGV DAPP monitora 172 grupos públicos, onde circularam 658 mil mensagens neste período. Também foram analisados os links e vídeos mais divulgados entre os usuários.

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De acordo com a pesquisa, oito dos dez vídeos do Youtube mais divulgados nos grupos de WhatsApp, bolsonaristas têm Lula como o principal alvo, geralmente associando o ex-presidente a casos de corrupção e a facção criminosa. O tema mais replicado, no entanto, é uma crítica à declaração do petista de que a classe média “ostenta muito um padrão de vida acima do necessário”. Além disso, os conteúdos são marcados por alta visualização: sete entre os dez vídeos com mais compartilhamentos alcançaram ao menos 150 mil views.

Dentre os dez links de notícias mais compartilhados, destacam-se os que citam a refinaria Abreu e Lima, que foi alvo de suspeitas de corrupção durante a operação Lava-Jato. As notícias, majoritariamente de portais de direita ou bolsonaristas circulam, em sua maioria, em mais de um grupo, mas são compartilhados por um número pequeno de usuários, o que indica uma estratégia de divulgação desses links, de acordo com a pesquisa.

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Os eleitores do presidente costumam também divulgar resultados positivos do governo federal. Entre os principais links compartilhados com alta circulação, estão notícias sobre o "lucro" do Banco Central, diminuição no preço dos combustíveis, benefícios para o microempreendedor individual (MEI) e a divulgação de cursos profissionalizantes. Enquetes que buscam entender o que os eleitores de Bolsonaro preferem para as eleições — como a escolha do vice na chapa à Presidência — também foram divulgadas.

Fome e transferência de renda

Entre os grupos pró-Lula, está a preocupação com movimentos do governo Bolsonaro e seus efeitos na população. Dois entre os dez links de notícias mais enviados citam a volta do Brasil ao mapa da fome, enquanto um deles trata diretamente do aumento no valor do Auxílio Brasil. Há também links que verificam fake news, relacionadas ao ex-presidente, e sobre o bom desempenho do petista nas pesquisas. Há também os links que criticam Jair Bolsonaro, como a notícia de que o presidente foi batizado pelo Pastor Everaldo, preso pela Polícia Federal, e sua defesa da política armamentista.

Dentre os dez vídeos mais compartilhados pelos lulistas, quatro têm Bolsonaro como principal alvo, enquanto outros tratam da isenção do ICMS sobre os combustíveis, medida adotada pelo atual governo. Há também menções a Ciro Gomes, pré-candidato ao Planalto pelo PDT, enquanto críticas ao próprio Lula aparecem mesmo nos grupos de seus apoiadores.

Para Victor Piaia, que coordena o relatório da FGV DAPP, o domínio das críticas a adversários pode ser explicado porque "a indignação gera mais engajamento do que o debate mais propositivo". Além disso, segundo ele, a polarização entre dois candidatos — Lula e Bolsonaro — faz com que os alvos fiquem muito mais claros. Ainda segundo ele, é mais simples "projetar algo no adversário como uma estratégia de propor uma 'trègua' para vencer um mal maior".

— O próprio espaço do WhatsApp, mais restrito, também favorece a circulação de conteúdos mais agressivos em relação aos adversários. Lembrando que esses grupos são espaços de debate mais amplo — explica.

Na lista dos principais conteúdos do YouTube, aparece ainda o documentário produzido pela TV 247 que coloca dúvidas sobre a veracidade da facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha de 2018, com grande circulação. Os demais vídeos enviados nesses grupos, no entanto, não atingem o mesmo volume de visualizações: seis entre os dez vídeos tiveram menos do que 10 mil views, desempenho bem abaixo do demonstrado pelos bolsonaristas.

Segundo Piaia, essa diferença pode ser explicada pela maior habilidade dos bolsonaristas em conectar plataformas distintas, como o WhatsApp e o YouTube.

— Mostra duas coisas: que a rede de youtubers bolsonaristas de destaque é muito maior e que os bolsonaristas fazem muito bem essa troca multiplataforma. Dentre os grupos pró-Lula, os principais links para vídeos compartilhados foram conteúdos que chamaram a atenção daquele público, mas não estão inseridos em um ecossistema, como os dos apoiadores de Bolsonaro — conclui.

Picos de interação

Dentre os apoiadores do atual presidente, foram identificados dois picos de engajamento ao longo do último mês. O primeiro, em 6 de junho, teve um total de 8.671 mensagens, a maior parte delas concentrada em apenas um grupo, dentre os 10 monitorados. Dentre os alvos do dia, esteve justamente o ex-presidente Lula, que foi relacionado ao Poder Judiciário e à corrupção, em meio às críticas. Naquele mesmo dia, foi divulgada pesquisa Quaest que apontava larga vantagem do petista em relação a Bolsonaro nas intenções de voto à Presidência, com chance, inclusive, de vitória no primeiro turno.

Piaia diz que um dos motivos para o aumento no volume de mensagens nesse dia pode ser, justamente, a desvantagem de Bolsonaro nas pesquisas. Segundo ele, a indignação dos apoiadores com o resultado costuma funcionar como um estímulo.

— Os picos, quando não há motivação política, são motivados naturalmente pelos conteúdos compartilhados nos grupos. Mas a indignação também engaja muito. Então uma pesquisa que mostra o adversário bem, por exemplo, ajuda a inflamar o debate — explica.

Já no fim do mês, em 29 de junho, foram mais 6,4 mil mensagens — outro pico, que teve como principais assuntos a defesa do voto impresso e a defesa de críticas ao próprio presidente da República. O novo salto no engajamento dos grupos coincidiu com o dia em que Pedro Guimarães, ex-presidente da Caixa, entregou a Bolsonaro sua carta de demissão, após denúncias de assédio.

No universo dos 10 grupos de apoio ao ex-presidente Lula, também foram registrados dois picos de interação. O primeiro, no dia 4 de junho, teve 4.661 mensagens, em sua maioria críticas às medidas econômicas e sociais do governo Bolsonaro. Desde o início do último mês, o atual chefe do Planalto já estudava ampliar benefícios como o Auxílio Brasil e criar novas benesses, em busca de aumentar sua popularidade para as eleições deste ano.

Já em 16 de junho, um novo pico entre os grupos lulistas registrou um total de 6.056 mensagens: mais uma vez, críticas a Bolsonaro dominaram os discursos, mas houve também críticas a Lula, indicando a presença de pessoas contrárias ao ex-presidente em um dos grupos. No dia anterior, em 15 de junho, o petista havia anunciado em Minas Gerais sua aliança com o ex-prefeito Alexandre Kalil, em evento que foi alvo de ataque por meio de um drone, que despejou dejetos associados a urina e fezes sobre os militantes.

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