'A cada ataque ao Congresso, Bolsonaro afunda mais', diz especialista sobre reforma

AP Photo/Eraldo Peres

Por João Conrado Kneipp

Em uma semana com ataques ao Congresso e convocatórias para manifestações pró-governo rejeitadas por correligionários, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) viu, nesta sexta-feira (24), seu “ministro carro-chefe”, Paulo Guedes, anunciar a possibilidade de renúncia no caso da aprovação de uma reforma da Previdência com pontos distantes daqueles que constam no projeto enviado por sua equipe econômica.

Cada episódio de desgaste entre Planalto e congressistas é encarado como “uma lasca a menos na tábua de salvação” do governo que é a reforma previdenciária, como avaliou o pesquisador e sociólogo da USP (Universidade de São Paulo), Alcides Perón.

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“Se você imagina a reforma da Previdência como uma tábua em que o governo se mantem flutuando, pensa que a cada ataque dele (Bolsonaro), a cada tumulto, a cada ação de sua máquina de seguidores e de seus filhos, cada vez que ele faz isso é como se retirasse uma lasca dessa tábua de salvação”, comparou Perón.

A sequência de críticas e desgastes protagonizado pela rede bolsonarista citada pelo pesquisador abrange, por exemplo, a divulgação dos textos apócrifos nos quais o presidente diz ser impossível governar o País “sem os conchavos” necessários.

Para Perón, um dos sintomas do enfraquecimento do poder político do Planalto com Câmara, Senado e sociedade civil organizada é o distanciamento dos parlamentares do PSL e de grupos tradicionalmente aliados do ex-capitão do Exército das manifestações pró-governo, marcadas para este domingo (26)

“Essas manifestações começaram a ser convocadas por entidades pouco conhecidas. Antes, eram grupos como o ‘Vem pra Rua’, o MBL e etc. Mas o MBL pulou fora, outras figuras de destaque, como a Janaína (Paschoal - deputada federal pelo PSL-SP), a Joice (Hasselmann - deputada federal pelo PSL-SP) também. Vendo que a coisa começou a apertar, mudaram o mote das manifestações para “Contra a velha política e contra o Judiciário”, mas isso gerou mais desgaste ainda com esses setores”.

Durante a semana, o presidente fez questão de ressaltar que não participará dos atos, assim como recomendou a ministros e integrantes do alto escalão a também não fazê-lo.

A SAÍDA

A alternativa apontada pelo sociólogo é abandonar o espírito de campanha eleitoral, adotado, segundo ele, por Bolsonaro durante esses 5 primeiros meses de governo, e praticar o governo de coalisão.

“Essa política de caos dele, estimulando massas e comprando brigas com dita ‘velha política’, só traz desgaste com os integrantes do Centrão. Nenhum governo ficou tão parado e dedicado à uma só reforma como este. A melhor estratégia é baixar a guarda para o Congresso, segurar seus cães de guarda por um momento, e governar com coalisão. Isso significa conceder espaços, produzir alianças, porque esse governo está apoiado em uma identidade comum dos partidos que é a aprovação da reforma da Previdência. Mas se ele não souber costurar essas relações já previstas no sistema político, o que não significa corrupção, vai naufragar”.