Ataques a tiros acendem alerta até dos supersseguros Dinamarca e Noruega

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um homem entrou em uma casa noturna gay em Oslo, na Noruega, sacou uma arma e começou a atirar indiscriminadamente, matando duas pessoas e ferindo outras 21 no último dia 24. Nove dias depois, outro ataque a tiros deixou três mortos e quatro feridos em um shopping de Copenhague, na vizinha Dinamarca.

Atentados do tipo são eventos raros nos países nórdicos e acenderam o alerta de autoridades das duas nações, vistas como seguras e com leis de acesso e porte de armas consideradas rigorosas.

Depois do ataque em Oslo, o premiê norueguês, Jonas Gahr Stoere, destacou que os países da região trabalham para criar comunidades seguras que previnam doenças mentais e radicalização. "Cada um de nós deve cuidar dos que nos rodeiam e estender a mão para os que agora estão assustados."

A preocupação em parte é explicada pelo fato de a Noruega ter um dos maiores índices de posse de armas da Europa. O país tinha 28,8 armas de fogo para cada 100 habitantes em 2017, de acordo com o levantamento mais recente da Small Arms Survey, entidade de segurança pública. A cifra é bem menor do que o índice dos EUA, de 120,5/100 habitantes, mas bem acima do da Inglaterra, de 4,6/100 habitantes.

A quantidade de armas pode ser explicada, em parte, pela forte tradição dos países nórdicos na prática da caça com o uso de rifles e espingardas. E, diante da baixa taxa de criminalidade nos países da região, pautas para restringir a compra de armamento são pouco urgentes para os parlamentares.

Dados da organização Gun Policy, ligada à Universidade de Sydney, na Austrália, mostram que a Noruega registrou apenas 31 homicídios em todo o ano de 2020. Na Dinamarca, foram 55 no mesmo período.

Katharina Krüsselmann, pesquisadora em violência armada na Europa pela Universidade de Leiden, na Holanda, diz que, no geral, há um declínio no número de homicídios por armas de fogo no continente a longo prazo. Mas, com a internet, as pessoas ficam sabendo mais rapidamente sobre ataques em diferentes localidades e, por isso, sentem-se menos seguras. "Isso ajuda a explicar o fato de as pessoas se sentirem ameaçadas apesar de estarem em países considerados seguros", afirma ela.

Uma fonte de preocupação, por outro lado, são os extremistas e nacionalistas. Ainda hoje reverbera entre os noruegueses o terror que o país viveu em 2011, quando um extremista de direita matou 77 pessoas na sede do governo em Oslo e em uma reunião de jovens na ilha de Utoya. A tragédia gerou debates sobre mais restrições, mas foi só no ano passado, dez anos depois, que o país baniu armas semiautomáticas.

Segundo Vinicius Rodrigues Vieira, professor de relações internacionais da Faap e da FGV, há uma relação entre movimentos extremistas e crises econômicas, algo identificado nos países nórdicos desde os anos 1970, quando o chamado primeiro choque do petróleo, em que países árabes aumentaram o preço do barril em mais de 400% contra o apoio dos EUA a Israel, impulsionou partidos de extrema direita.

Esse movimento voltou a ganhar força a partir da crise econômica de 2008 e, depois, com o fluxo intenso de refugiados para países europeus a partir de 2010. "Vemos a ascensão de um discurso que valoriza o extremismo político, o nacionalismo branco e as ideologias que flertam com neonazismo. A atual conjuntura econômica fomenta discursos nesse sentido", diz Vieira, lembrando que nos últimos anos extremistas passaram a se organizar com mais facilidade pelas redes sociais, recrutando novos membros.

O professor lembra ainda que, diferentemente do que ocorre em outras nações europeias, nos países nórdicos, alguns dos quais com fronteiras compartilhadas com a Rússia, o serviço militar é obrigatório. Assim, parcela significativa da população sabe manusear armas de fogo, o que, segundo Vieira, abre espaço para ações dos chamados lobos solitários, que preparam e cometem atos violentos sozinhos.

Não à toa, esses países têm regras rígidas para o acesso a armas e realizam monitoramento psicológico de potenciais atiradores. Na Noruega, quem quiser comprar armas tem de fazer aulas obrigatórias de tiro e passar por um processo de licenciamento trabalhoso. Na Dinamarca, foram estabelecidas regras sobre como armazenar as armas com segurança para que outras pessoas não tenham acesso a elas. Desrespeitar essas leis pode levar a multas ou prisão de até dois anos.

Países nórdicos têm população relativamente pequena e, proporcionalmente, recebem grande fluxo de imigrantes e de refugiados. Por isso, a implementação de políticas públicas e o trabalho de integração social são fatores que ajudam a explicar o baixo número de casos de violência com armas nos países, diz Rodrigo Reis, especialista em relações internacionais e diretor-executivo do Instituto Global Attitude, ONG que assessora organizações e governos na promoção de colaboração internacional.

Coesão social e confiança na polícia e em instituições locais também são pilares para os baixos índices de morte por armas de fogo. Em 2019, Noruega e Dinamarca registraram 0,074 e 0,141 mortes provocadas por violência com armas a cada 100 mil habitantes --números bem distantes de EUA (3,96) e Brasil (21,93), segundo o IHME (Institute for Health Metrics and Evaluation), da Universidade de Washington.

Relembre ataques em massa na Noruega e na Dinamarca

Noruega

24.jun.22 - Duas pessoas foram mortas e 21 ficaram feridas no ataque em um bar gay no centro de Oslo e em ruas próximas ao local. A polícia investiga o ato como terrorismo extremista islâmico. O suspeito, preso, tem histórico de violência, ameaças e doenças mentais

13.out.21 - Cinco pessoas foram mortas em um ataque com arco e flecha na cidade de Kongsberg. O criminoso chegou a ser monitorado pela polícia, que temia sua radicalização após conversão ao islã

10.ago.19 - Uma pessoa foi ferida em um tiroteio em uma mesquita. O atirador abriu fogo no interior do Centro Islâmico Al-Noor, próximo a Oslo, capital do país. Ele foi preso

22.jul.11 - O país viveu momentos de terror em 2011, quando o extremista de direita Anders Behring Breivik matou 77 pessoas na sede do governo em Oslo e em uma reunião de jovens na Ilha de Utoya. A maioria das vítimas fazia parte da juventude do Partido Trabalhista da Noruega, de esquerda. Foi o pior massacre no país nórdico desde a 2ª Guerra Mundial.

Dinamarca

3.jul.22 - Três pessoas foram mortas a tiros e outras quatro ficaram gravemente feridas após um ataque em um shopping center de Copenhague. O atirador tinha histórico de problemas de saúde mental, e a polícia descartou motivação terrorista

14 e 15.fev.15 - Um atirador matou duas pessoas e feriu seis policiais. O fato ocorreu num centro cultural que abrigava debates sobre liberdade de expressão e em uma sinagoga no centro de Copenhague. O atirador foi morto pela polícia

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