Até que ponto devemos falar sobre suicídio e o papel dos relacionamentos para evitá-lo

Falar sobre casos de suicídio só é válido se levar a uma discussão sobre saúde mental (Foto: Pixabay / Pexels)

A última semana começou com uma notícia que chocou muita gente: a influenciadora Alinne Araújo, de 24 anos, cometeu suicídio depois de casar consigo mesma, em uma cerimônia que aconteceu no final de semana anterior.

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A história tomou as redes sociais duplamente. Primeiro por conta da decisão de Alinne de continuar com o casamento depois da desistência do noivo, no dia anterior ao casório. Depois, pela tragédia.

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Alinne falava nas redes sociais sobre depressão e ansiedade, inclusive sobre o seu próprio quadro depressivo e as dificuldades que encontrava no tratamento. Horas antes de morrer, ela usou os Stories do Instagram para responder aos comentários, muitos deles maldosos, sobre a sua decisão de ir em frente com a cerimônia e a dor que sentia.

"Quisera eu que fosse pra me promover, não desejo nem para o meu pior inimigo a dor que estou sentindo dentro de mim", disse ela. Alguns chegaram a dizer que as mensagens eram um claro sinal do que vinha a seguir e outros foram tomados de surpresa pela decisão. Afinal, o que leva uma pessoa a pensar na morte como uma saída para o que sente?

"O que a gente sabe é que quando tem um pensamento suicida ou uma tentativa, o que está em jogo é a relação que a pessoa estabelece com a própria vida. O sentido da vida, muitas vezes, pode estar esgarçado. O porquê ou o pra que pode estar em xeque", explica o psicólogo e psicanalista Ronaldo Coelho.

É por isso que pensar em um único motivo ou uma única justificativa para casos como esse é impossível. Normalmente, a visão que a pessoa tem da vida já está muito distorcida e existe, a partir, o resultado dessa visão.

A tentativa de suicídio tem a ver com um conflito em relação a própria vida. Nem sempre quem tem ideações ou planejamentos suicidas realmente quer se matar, não é um sentimento puro. Sempre há conflito nisso. E pode acontecer de repente ou como resultado de um processo, explica ao profissional.

Qual o papel dos relacionamentos na prevenção ao suicídio?

Uma das questões levantadas por muitos daqueles que comentaram o caso era o papel do noivo na decisão de Alinne de tirar a própria vida. Segundo Ronaldo, os relacionamentos são, sim, uma forma de fazer com que a pessoa que considera o ato repense a ideia.

"Se há esse esgarçamento, todo tipo de conexão pode refazer o sentido de se viver. Um relacionamento pode ter essa função, vai depender da importância que esse relacionamento tem para aquela pessoa. Quando se tem alguém que compreenda outra pessoa, um elo de ligação muito forte que é acolhedor, isso tende a ajudar a pessoa a se ligar novamente a vida", explica.

Isso, porém, não significa dizer que as pessoas devem se responsabilizar pela vida uns dos outros, mas desenvolver a empatia para acolher uma pessoa próxima nas suas dores é importante para que ela não se sinta sozinha nos seus momentos de dificuldade e consiga encontrar onde se apoiar quando a situação parece sem saída.

A promotora Valéria Scarence, autora do projeto #NamoroLegal explica também a importância de ficarmos atentos uns aos outros: "Para se evitar que namoros terminem em tragédias, como suicídios ou mesmo agressões e feminicídio, é preciso estar atenta a você e ao próximo. Se necessário, procure ou ofereça ajuda. O Ministério Público de São Paulo criou uma cartilha, Namoro Legal, que, embora não trate especificamente do suicídio, dá dicas importantes sobre como construir uma relação saudável, com respeito e confiança".

Aliás, essa atenção é importante até mesmo para identificar os sinais de que alguém está considerando a morte. Mesmo parecendo bem, ela pode dar indícios como dizer que está cansada de tudo, que a sua vida perdeu o sentido, que não tem mais vontade de fazer as coisas do dia a dia ou que ninguém vale a pena.

"Essas frases vão informando que a pessoa está desacreditada em relação as coisas que são bacanas da vida, que são fonte de prazer na vida. Se ela apresenta isso, esse descrédito, isso gera um sinal", diz Ronaldo.

Afinal, devemos continuar falando sobre suicídio?

Alisha Boe, Katherine Langford, Derek Luke, Dylan Minnette e Miles Heizer "13 Reasons Why" (Foto:Tasia Wells/WireImage)

O assunto é um tabu, não há dúvidas, mas a questão é: até que ponto noticiar casos como esse são positivos? Na verdade, o principal talvez seja colocar o foco em outro aspecto: o que pode levar a pessoa ao ato.

"A morte de Alinne envolve dois aspectos: a depressão e a revitimização social. Quanto à depressão, é importante salientar a necessidade de buscar ajuda e não ignorar os sintomas da doença", explica Valéria. "Revitimizar é tornar alguém que já sofreu um crime/trauma vítima pela segunda vez, com comentários maldosos, críticas severas e posturas ofensivas. Os comentários de ataque postados após a cerimônia de casamento de Alinne aumentaram o seu sofrimento e a tornaram mais vulnerável. É preciso ter responsabilidade ao postar comentários, até porque, a internet não é uma terra sem lei e podem haver consequências jurídicas".

Ou seja, o primeiro passo é elevar o nosso nível de empatia, buscando entender como as nossas palavras e ações podem tornar o sofrimento de alguém que já se vê vulnerável ainda mais fragilizado.

Segundo a cartilha da Organização Mundial de Saúde, existe outro ponto importante. Uma das recomendações na cobertura de suicídio pela mídia explica que é essencial não focar no ato em si, mas trazer à tona conversas sobre as questões de saúde mental que levam a ele de forma a conscientizar o público sobre como evitá-lo.

Para isso, voltamos também para a questão das relações, que se mostram essenciais para que doenças mentais deixem de ser consideradas um assunto proibido e passem a ser tratadas com a seriedade necessária.

"Tem como estabelecer uma relação de confiança com o outro. Se por algum motivo houver dúvida ou suspeita de que algo não vai bem na vida dessa pessoa, ela está passando por problemas muito graves ou difíceis, o que se pode fazer é se colocar à disposição para ouvi-la naquilo que ela quiser dizer do seu sofrimento", continua Ronaldo.

De acordo com o psicanalista, é essencial sempre que nos colocamos à disposição para ouvir, sem julgamentos precipitados ou esperando que o outro faça aquilo que achamos que é melhor para ele. O objetivo não é se tornar um vigia constante das ações e falas da pessoa que sofre, mas se manter disponível apenas para que a pessoa sinta e entenda que tem alguém em quem possa se apoiar caso queira pedir ajuda e falar sobre o que sente.

É válido lembrar também do caso da série 13 Reasons Why, que esta semana decidiu tirar do ar uma de suas cenas mais polêmicas, que envolve o suicídio da personagem principal.

Na época, muito se falou sobre a necessidade de expor uma cena como essa e como a série ignorava o Efeito Werther, um termo da psicanálise que determina como um caso de suicídio amplamente divulgado pode gerar um efeito cascata, gerando outros casos em pessoas já fragilizadas emocionalmente.

Responsabilidade é a palavra de ordem. Pensar a todo momento no outro e como as suas palavras e ações podem afetá-lo é o ponto chave para tentar reverter um quadro sério: a OMS explica que ainda hoje o suicídio é a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo todo e que 1 a cada 5 jovens enfrenta problemas de saúde mental.

Peça ajuda

Se você sente que precisa de ajuda ou conhece alguém que está passando por um momento complicado, saiba que é possível pedir ajuda através do Centro de Valorização da Vida, discando 188. A ligação é gratuita e o centro também oferece atendimento online pelo seu site oficial.