Emilio, um homem que não conhece outro mundo que o das Farc

Jaime Ortega Carrascal.

La Variante (Colômbia), 16 mar (EFE).- Nas fileiras das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) desde que tinha 10 anos de idade, Emilio passou toda sua vida na guerrilha, e agora, aos 45, pensa em como será encerrar esse ciclo neste grupo armado que, segundo ele, lhe deu tudo.

Filho de um miliciano (colaboracionista) das Farc que morreu em combate, Emilio faz parte de três gerações de uma mesma família que engrossaram as fileiras desta guerrilha para lutar uma guerra que consideram que lhes foi "imposta".

Em um acampamento provisório situado em La Variante, área rural de Tumaco, município do departamento de Nariño, no litoral do Pacífico, Emilio espera junto com cerca de outros 300 guerrilheiros que esteja terminada a zona de vereda transitória de normalização (ZVTN) de La Playa, onde se reunirão para deixar as armas e se desmobilizar.

"Eu tenho mais ou menos 35 anos trabalhando com as Farc e, desde pequenino, as primeira botas, a roupa, eles que me deram. Daí segui com eles", contou Emilio à Agência Efe sobre seu ingresso na guerrilha.

Emilio nasceu em Cimitarra, uma cidade da estratégica região do Magdalena Medio que durante décadas foi cenário de uma sangrenta guerra pelo controle territorial entre as Farc e grupos paramilitares, conflito que em 1982 os obrigou a deixar região e assentar-se em Puerto Asís, no departamento de Putumayo, na fronteira com o Equador.

"Meu pai também foi miliciano" lembrou este veterano da Frente Marechal Antonio José de Sucre, que diz que sua família "trabalhou bem com as Farc" e recebeu "muita ajuda deles".

Segundo afirma, durante muitos anos em Puerto Asís estiveram "trabalhando" com as frentes 48 e 32 que operam nessa região do sul da Colômbia.

"Ali mataram meu papai e depois viemos para cá, para Nariño, e trabalhamos com a Marechal", disse no acampamento ao pé de uma cruz de madeira que marca o lugar da sepultura de "Alvin, o esquilo".

Emilio explicou que se trata de um roedor que foi mascote dos guerrilheiros, que lhe deram o nome do personagem do filme "Alvin e os esquilos", e que morreu no último dia 30 de janeiro.

Ele considera sua atividade de guerrilheiro um trabalho como qualquer outro, e por isso seus dois filhos também estão nas Farc.

"Isso é como uma tradição. Vocês são jornalistas, então seus filhos saem jornalistas e seguem esse exemplo", declarou se referindo à equipe da Efe que visitou o acampamento de La Variante.

Apesar da naturalidade com a qual fala de toda uma vida no meio do conflito armado, Emilio, que se expressa com alguma dificuldade, reconhece que a luta armada não é fácil.

"Foi muito dura a guerra porque ela caiu sobre nós e a suportamos. Assim como dizem que há um Deus que cuida de um e de todo mundo, eu acredito que ele nos ajudou", comentou.

Com a mesma convicção fala John Valencia, um franco-atirador da temida Coluna Móvel Daniel Aldana, que também entrou muito jovem nas Farc, onde está há "sete anos lutando por esse povo colombiano para que tenhamos igualdade e mudança social".

Sobre o futuro que lhes espera a partir de junho, uma vez que tenham deixado as armas nas mãos da ONU e estejam desmobilizados, Emilio e John consideram que devem seguir a ideologia que lhes inculcaram, mas já não das trincheiras, e sim na arena política.

"Nós seguimos o que é a política, porque nós daqui nunca pensamos em nos abrir. Por aí se diz que vão fazer um povoado para nós ficarmos, formar uma política e seguir adiante com o que o governo nos vai dar (...), mas eu acho difícil porque fazem armadilhas, nos dizem mentiras", declarou Emilio, citando como exemplo a demora na construção da ZVTN de La Playa.

John, que ao contrário de Emilio é o único de sua família envolvido com a guerrilha, respalda as afirmações de seu companheiro e acrescenta: "Até agora o Estado não cumpriu com o que disse nos acordos feitos em Havana, eles trazem algumas coisas pensando que nós fôssemos algo que não valesse".

"Eu ficaria nesta região trabalhando com algo de agroeconomia, algo para o povo, para a cidadania colombiana, que alguém tenha algo que colher, que se produza, algo que seja legal, que não seja ilegal", concluiu sobre seu futuro. EFE