'Atentado à democracia e à transferência de poder', diz Joe Biden sobre invasões golpistas em Brasília

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, disse em suas redes sociais que a invasão do Congresso, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal por apoiadores radicais do ex-presidente Jair Bolsonaro é "um atentado à democracia e à transferência pacífica de poder". Dois anos e dois dias após a invasão do Capitólio por turbas apoiadas pelo então presidente americano Donald Trump, as cenas em Brasília levaram ao menos quatro correligionários mais progressistas do ocupante da Casa Branca a questionar a permanência de Bolsonaro na Flórida.

"Eu condeno o atentado à democracia e à transferência pacífica de poder no Brasil", escreveu Biden em seu Twitter. "As instituições democráticas brasileiras têm nosso apoio total e a vontade do povo brasileira não deve ser minada. Estou ansioso para poder continuar a trabalhar com [o presidente] Lula."

Minutos antes, o presidente havia comentado brevemente as invasões bolsonaristas durante sua visita à cidade de El Paso, no Texas, na fronteira com o México. Ao passar pela comitiva de jornalistas que o acompanha, Biden foi indagado por repórteres sobre a situação no Brasil, limitando-se a classificá-la como "ultrajante".

Nas gravações da visita de Biden, é possível ouvir jornalistas perguntando sobre Bolsonaro, que viajou para a Flórida dias antes da transferência de poder. O ex-presidente se pronunciou sobre os atos golpistas apenas na noite deste domingo, seis horas após as invasões, afirmando no Twitter que "manifestações pacíficas, na forma da lei, fazem parte da democracia", mas que "depredações e invasões de prédios públicos como ocorridos no dia de hoje, assim como os praticados pela esquerda em 2013 e 2017, fogem à regra" — uma falsa equivalência, já que tais atos não questionavam o resultado legítimo das urnas.

Os repórteres referiam-se à pressão de alguns parlamentares da ala mais progressista do Partido Democrata, que se pronunciaram questionando a presença de Bolsonaro em seu país. Compartilhando uma reportagem do New York Times sobre o assunto, o deputado texano Joaquin Castro tuitou que “está com Lula e com o governo democraticamente eleito”, afirmando que “terroristas domésticos e fascistas não devem ter permissão para usar o manual de Trump para minar a democracia”.

“Bolsonaro não deve receber refúgio na Flórida, onde está se escondendo da responsabilização por seus crimes”, escreveu ele.

Bolsonaro não tem um processo de extradição contra si e, como ex-presidente, tem direito a manter o passaporte diplomático que usou para sua viagem ainda como chefe de Estado para os EUA. Seu atual status no país e a validade do seu visto do tipo A, emitido para representantes de outros governos que exercem funções oficiais, não estão imediatamente claros.

Quem também questionou sua presença foi a deputada nova-iorquina Alexandria Ocasio-Cortez, expoente progressista americana, foi outra que questionou o “refúgio” ao ex-presidente:

“Quase dois anos após Capitólio ser atacado por fascistas, nós vemos movimentos fascistas no exterior tentando fazer o mesmo no Brasil. Devemos nos solidarizar com o governo democraticamente eleito [do presidente] Lula”, tuitou ela. “Os EUA devem parar de dar refúgio para Bolsonaro.”

Tom similar foi usado por Ilhan Omar, outra estrela progressista democrata, prestando "solidariedade a Lula e ao povo do Brasil" e afirmando que "democracias pelo mundo devem se unir para condenar este ataque contra a democracia". Segundo a deputada do estado de Minnesota, "Bolsonaro não deve receber refúgio na Flórida".

Já Mark Takano, deputado democrata pela Califórnia, disse que a "violência antidemocrática de hoje no Brasil é um sério lembrete de movimentos fascistas perigosos que crescem pelo mundo". Bolsonaro, afirmou, "não deve ter refúgio nos EUA permitido".

As primeiras reações da Casa Branca aos episódios em Brasília vieram antes mesmo de Biden. O encarregado de negócios dos EUA no Brasil, Douglas Koneff, foi um dos primeiros a se pronunciar. Segundo ele, "a violência não tem lugar nenhum numa democracia":

"Condenamos fortemente os ataques às instituições dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário em Brasília, que é um ataque também à democracia. Não existe justificativa para esses atos!", disse o representante via Twitter.

O secretário de Estado, Anthony Blinken, tuitou ainda durante a tarde que os EUA "condenam os ataques à Presidência, ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal" e que "usar violência para atacar instituições democráticas é sempre inaceitável". O chefe da diplomacia de Washington disse que os americanos se "juntam a Lula ao pedir um fim imediato a essas ações", referindo-se ao pronunciamento do presidente brasileiro.

Quase simultaneamente, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, afirmou que Washington "condena qualquer tentativa de minar a democracia brasileira":

"O presidente Biden está acompanhando de perto a situação e nosso apoio às instituições democráticas do Brasil é inabalável", disse ele, que esteve no país nos dias após a vitória de Lula. "A democracia do Brasil não será abalada pela violência", completou Sullivan, que em 2021 se encontrou com Bolsonaro e ressaltou a confiança americana na lisura do processo eleitoral brasileiro.

Já no início da madrugada de segunda do Brasil (noite de domingo nos EUA), o ex-presidente Bill Clinton (1993-2001) tuitou afirmando que "se une às condenações aos atentados contra as instituições democráticas brasileiras". Segundo o democrata, "é crucial que a transição pacífica de poder seja mantida e a vontade do povo, respeitada".

Já o senador Bob Menendez, democrata de Nova Jersey e presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, disse que "condena o assalto ultrajante a prédios do governo do Brasil incitado pelo inconsequente descaso do demagogo Bolsonaro com os princípios democráticos": "Dois anos após o 6 de janeiro, o legado de Trump continua a amaldiçoar nosso Hemisfério. Proteger a democracia e responsabilizar atores malignos é essencial."