Atingida pela pandemia, América Latina encara desafio de evitar outra 'década perdida'

Mauricio RABUFFETTI
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Grupo de pessoas espera atendimento em uma agência da administradora de fundos de pensões chilena para retirar até 10% de seus depósitos, em 13 de agosto de 2020, em Santiago

A pandemia de coronavírus destruiu, em 2020, muito do que a América Latina havia conseguido em anos de reformas e investimento: a pobreza disparou, assim como o desemprego, e agora a região tem pela frente o desafio de evitar outra "década perdida".

Cunhado na década de 1980, quando a crise da dívida deixou a economia regional de joelhos, o termo tem sido amplamente utilizado por organizações internacionais para descrever o que o subcontinente pode esperar, devido ao coronavírus.

A América Latina é a área geográfica mais atingida pela pandemia, com 14,1 milhões de infectados e quase 478.000 mortes. As restrições de mobilidade para tentar conter as infecções foram um golpe duro, e os números falam por si.

De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), última entidade a ajustar suas projeções nesta semana, a região sofrerá uma contração de 7,7% da atividade econômica em 2020. Embora a previsão seja mais animadora do que os -9,1% previstos no meio do ano, ainda é a pior queda do Produto Interno Bruto (PIB) em um século.

- Desemprego e pobreza: desafios urgentes –

O freio brusco imposto pela pandemia resultou em um aumento brutal do desemprego e, com a falta de trabalho, os níveis de pobreza se agravaram.

Em outubro, ao publicar suas últimas perspectivas econômicas para a América Latina e o Caribe, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que a covid-19 teria "um amplo impacto sobre o emprego" e poderia apagar "parte dos avanços sociais alcançados pela região até 2015".

Segundo o órgão financeiro, deve-se recuperar apenas em 2025 a renda real per capita que a região possuía antes da pandemia.

Em novembro, a Cepal e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicaram que serão perdidos 47 milhões de empregos na região, o que levaria a taxa de desemprego para perto de 11%, três pontos percentuais acima de 2019. Cerca de 2,7 milhões de empresas fecharam.

O índice de desemprego de 10,7% estimado pela Cepal esconde a "profunda queda da participação laboral". Se este fator não for mediado, o desemprego passará de 18%.

Mulheres, jovens e trabalhadores menos qualificados foram os mais afetados.

No início de dezembro, o Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância (Unicef) advertiu que, na América Latina e no Caribe, pelo menos 23,4 milhões de crianças precisam de ajuda humanitária, mais do que o triplo do ano anterior.

"Nunca antes se havia visto tantos meninos e meninas afetados simultaneamente por múltiplas emergências em tantos países", comentou o diretor regional do Unicef, Jean Gough.

Segundo o Banco Mundial, entre os 650 milhões de latino-americanos, quase 29 milhões poderão cair em uma situação de extrema pobreza, um aumento de 3,9%, em 2017, para 4,4%. A própria organização financeira esperava uma queda para 3,7% este ano.

- Evitar outra 'década perdida' –

"A América Latina e o Caribe estão diante da possibilidade de mais uma década perdida, como a dos anos 1980", disse o FMI em outubro, uma advertência que o diretor do organismo para as Américas, Alejandro Werner, já havia formulado em abril, ao apontar que poderia haver uma década - 2015-2025 - sem crescimento econômico.

Segundo o Fundo, a região enfrentou um "colapso histórico" de atividade.

Esta semana, a Cepal foi além. Considerando os seis anos anteriores de baixíssimo crescimento econômico, de 0,3% em média entre 2014 e 2019, e os quatro que se considera necessários para retornar ao nível de atividade pré-pandêmica, "podemos afirmar que a região está diante de uma nova década perdida", lançou a diretora do organismo, Alicia Bárcena, em Santiago.

- Receitas -

A Cepal considera essencial manter os auxílios estatais às famílias e às empresas.

"Espera-se que os estímulos monetários permaneçam e que os estímulos de política fiscal não sejam retirados prematuramente. Caso contrário, a expectativa de recuperação da atividade pode se ver truncada", alertou.

Mesmo o FMI, tradicionalmente promotor de políticas de ajuste, destacou o apoio fiscal de 8% do PIB que os governos dispuseram para conter o efeito da pandemia. O Fundo ressaltou ainda que "essas medidas excepcionais são fundamentais para apoiar a atividade econômica, a fim de evitar desacelerações ainda mais fortes e repercussões sociais mais severas".

O FMI apontou algumas soluções pouco ortodoxas para injetar dinheiro na economia, como as leis aprovadas no Chile e no Peru que permitiram a retirada antecipada de fundos de aposentadoria. Ao mesmo tempo, pediu que se mantenha o caminho das reformas estruturais que facilitem o acesso à saúde e à educação e preservem o investimento público.

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