Atingida por apagão duplo, ilha do Amapá recebe energia para votação

VINICIUS SASSINE
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SANTANA, SP (FOLHAPRESS) - A Ilha de Santana, no Amapá, saiu de um duplo apagão para que seus eleitores pudessem votar neste domingo (15). Parte do município de Santana, do qual fica separada pelo Rio Amazonas, a ilha voltou a ter energia momentaneamente para que a escola pública do lugar recebesse urnas eletrônicas e eleitores. A Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), estatal estadual, garantiu o fornecimento com carga satisfatória para que 12 das 13 cidades atingidas pelo apagão no estado pudessem escolher prefeitos e vereadores, com a suspensão dos rodízios de energia durante a eleição. Moradores da Ilha de Santana repetem, em tom de galhofa, que não sofreram com o apagão no Amapá, iniciado há 12 dias, no último dia 3. "Aqui, todo dia tem apagão", resume a estudante universitária Raquel Sousa dos Santos, 22. Os cerca de 4.000 habitantes da ilha já viviam no escuro antes do novo blecaute, que, no entanto, piorou as condições de vida no lugar. Moradores perderam alimentos, tiveram eletrodomésticos queimados --principalmente ventiladores -, viram a renda despencar e continuam a ter dificuldade para garantir água potável. A ilha deu origem a Santana, segunda maior cidade do Amapá, onde vivem mais de 120 mil pessoas. É o segundo maior colégio eleitoral do estado, com 78,3 mil pessoas aptas a votar, e fica a apenas 17 quilômetros de Macapá. A capital, com 512 mil moradores e 292,7 mil eleitores, foi a única das 16 cidades do Amapá que não teve votação neste domingo --as eleições foram adiadas para dezembro em razão do apagão. No Porto do Açaí, em Santana, de onde saem as embarcações para a ilha -chamadas catraias, guiadas pelos catraieiros--, é como se não existisse a pandemia da Covid-19. Centenas de pessoas passavam sem máscaras pelo porto, de onde faziam o trajeto nos dois sentidos para votar. A energia garantiu uma relativa normalidade à cidade, ainda que restrita ao período da votação, já que a realidade dos rodízios sem regularidade e previsibilidade voltaria logo depois. A estudante Raquel Santos pagou R$ 2 para embarcar na catraia, cruzar o Amazonas em minutos e desembarcar na ilha, onde nasceu e vota. Ela se mudou há pouco tempo para a cidade para acompanhar o marido, que é pedreiro e tem mais trabalho em Santana. Raquel está na fase final da licenciatura em educação do campo, no polo da Universidade Federal do Amapá (Unifap) em Mazagão, uma pequena cidade vizinha, também fortemente impactada pelo apagão. "O apagão foi algo horrível. Estragou toda a comida da minha geladeira e queimou meu ventilador", diz ela, que sofre principalmente com a falta de água potável. Para a estudante, não há dúvidas de que o apagão influencia o voto dos amapaenses. "As pessoas não vão votar em quem está no poder", afirma. Irmão de Raquel, o professor de física da Unifap Daniel Sousa dos Santos, 28, concorda. Ele foi mesário na escola que funciona como local de votação em Ilha de Santana. "O apagão impacta o voto das pessoas. Foi um choque de realidade, para elas verem que o voto importa. A ilha vive no apagão há anos", diz o professor. A disputa em Santana foi protagonizada pelo atual prefeito, Ofirney Sadala (Avante), que tenta a reeleição; pelo ex-deputado federal Bala Rocha (PP), cuja vice é do PT e que tem o apoio do presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP); e pela deputada federal Professora Marcivânia (PCdoB), cuja coligação inclui o PDT, partido do governador do estado, Waldez Góes. Davi Alcolumbre participou diretamente da candidatura de Bala Rocha. Na convenção de lançamento, foi o senador quem fez o anúncio do ex-deputado como candidato. Uma fake news foi espalhada na véspera da votação, dizendo que a eleição em Santana, a exemplo de Macapá, havia sido adiada. O TRE (Tribunal Regional Eleitoral) do Amapá diz não ter identificado de onde partiu a notícia falsa. O tribunal promoveu uma ação de divulgação nas redes sociais para informar sobre a garantia da realização do pleito na cidade. A eleição em Macapá, conforme deliberação do TRE, está prevista para 13 de dezembro (primeiro turno) e 27 de dezembro (segundo turno, se houver). As datas ainda precisam de aval do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Os candidatos da capital protestaram contra um adiamento tão elástico e assinaram uma carta pedindo que a eleição não seja decidida entre o Natal e o Ano Novo. Entre os candidatos mais bem posicionados nas últimas pesquisas eleitorais, há o entendimento de que o distanciamento temporal em relação ao apagão beneficia a candidatura de Josiel Alcolumbre (DEM), irmão de Davi Alcolumbre. Desde o blecaute, ele vem despencando na preferência dos eleitores da capital. A última pesquisa do Ibope, divulgada no dia 11, mostra Josiel com 26% dos votos válidos - contra 35% antes do apagão. Ele ainda lidera a corrida eleitoral, mas vê seus oponentes Patrícia Ferraz (Podemos) e Dr. Furlan (Cidadania) encostarem na disputa, com 18% e 17%, respectivamente. O presidente do Senado e do Congresso, principal fiador da candidatura do irmão, interveio pelo adiamento da eleição junto aos órgãos eleitorais. Segundo o senador, "o maior prejudicado desse apagão chama-se Josiel Alcolumbre, que ia ganhar a eleição no primeiro turno".