Atingidas pelo apagão, comunidades quilombolas do Amapá estão sem água e comida

Alma Preta
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Rodízio de fornecimento de energia elétrica não chegou a todas as comunidades; organizações do movimento negro se reuniram para distribuir mantimentos aos moradores. Foto: Rudja Santos/Amazônia Real
Rodízio de fornecimento de energia elétrica não chegou a todas as comunidades; organizações do movimento negro se reuniram para distribuir mantimentos aos moradores. Foto: Rudja Santos/Amazônia Real

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Nesta terça-feira (10), oitavo dia sem energia elétrica no Amapá, ativistas do Movimento Negro se reuniram para distribuir água, comida e demais itens de urgência para os moradores das comunidades quilombolas que vivem ao longo da BR-070, que liga a capital Macapá ao norte do estado.

No Amapá, há 42 comunidades quilombolas com reconhecimento da Fundação Cultural Palmares (FCP). O total de comunidades existentes no estado, incluindo as que estão em processo de reconhecimento, chega a 66.

A arrecadação de mantimentos e a viabilização de carros para fazer a entrega foi uma iniciativa de integrantes dos movimentos Quilombo Cultural Sankofa e Utopia Negra, de Macapá. De acordo com os organizadores das ações emergenciais, os governos municipal e estadual não têm colaborado.

“As comunidades quilombolas estão vivendo o caos do apagão. As pessoas estão passando fome mesmo. Falta água tratada para beber e fazer comida. A alimentação do mês estragou e as pessoas tiveram que jogar fora”, conta Neucirene Almeida, ex-secretária da Seafro (Secretaria Extraordinária de Políticas para os Povos Afrodescendentes), do Amapá.

Segundo Neucirene, apenas três cidades do estado têm fornecimento provisório por meio de rodízio. Nas comunidades quilombolas, afastadas de Macapá, não há ao menos o rodízio.

“A energia quando chega está oscilando e queimando lâmpadas, bombas de água e eletrodomésticos. A gente não pode comprar comida porque não tem como guardar sem que estrague”, relata Mariele Morais dos Santos, presidente da associação quilombola Nossa Senhora do Desterro Dois Irmãos do Rio Matassi, na cidade de Santana, 20 quilômetros de distância de Macapá.

Caos e abandono

Na zona norte da capital, fica o quilombo do Curiau, onde o abastecimento de energia foi feito por rodízio. Em outras áreas de Macapá, segundo relatos de moradores, muitos quilombolas ainda enfrentam dificuldades com o apagão.

“Tivemos a sorte de entrar nos dois últimos rodízios, mas a comunidade Casa Grande está há quatro dias sem energia e sem água. Do Curiau até o Santo Antônio tem mais de 15 comunidades no abandono. O governador não faz nada”, destaca Daniel Ramos, morador quilombo.

Algumas comunidades quilombolas do Amapá ficam muito distantes da capital. É o caso do quilombo de Cunani, em Calçoene, 362 quilômetros de distância de Macapá. Para chegar ao quilombo, leva cerca de cinco horas de viagem.

Em nota, a Conaq-AP (Coordenação das Comunidades Quilombolas do Amapá) criticou a reação do governo diante da crise de energia. “Estamos no escuro, ou seja lá o que for. Isto só confirma a total falta de compromisso do Operador Nacional do Sistema, com o povo do Amapá, pois não há nenhuma medida compensatória e ou alternativa que vá ao encontro das pessoas quilombolas. Após mais de 60 horas, nossa população das Comunidades não têm água e nos falta comida, pois o que tínhamos perdemos tudo. Nossa produção se foi”, diz um trecho do texto.

A Conaq-AP denuncia ainda que as usinas hidrelétricas instaladas em rios do Estado para gerar energia não atendem às comunidades e ainda afetam o meio ambiente. As comunidades, ao longo do Rio Araguari, protestaram contra a situação e foram reprimidas pela polícia.

O Alma Preta procurou o governo do Amapá e questionou quais medidas são adotadas para reduzir os danos causados aos povos quilombolas do estado. Até a publicação deste texto, a gestão estadual não se posicionou. Procurada, a Fundação Cultural Palmares (FCP), órgão vinculado ao governo federal responsável pela proteção às comunidades quilombolas, também não se pronunciou.