A atividade humana, e não o Sol, é responsável pelo aquecimento global, segundo evidência científica

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

O aquecimento global depende em 95% de “fenômenos naturais vinculados ao Sol”, afirmam publicações compartilhadas mais de 8 mil vezes nas redes sociais desde novembro de 2021. Mas essa teoria vai contra o conhecimento científico sobre a origem humana das mudanças climáticas dos últimos anos, explicaram vários especialistas à AFP. Os recentes informes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU também registram a urgência de reduzir as emissões de carbono.

“O aquecimento global depende do motor meteorológico dominado pela potência do Sol. As atividades humanas afetam o nível de 5%: 95% dependem de fenômenos naturais ligados ao Sol. Atribuir o aquecimento global às atividades humanas não tem embasamento científico”, começa uma das publicações no Facebook (1, 2) e Twitter (1, 2).

Captura de tela feita em 20 de junho de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

As publicações atribuem essas afirmações a um cientista italiano, Antonino Zichichi, apresentado como “Professor Emérito de Física Superior da Universidade de Bolonha, e autor de mais de 1.100 trabalhos científicos, incluindo sete descobertas, cinco invenções”.

O texto é acompanhado de duas fotos: à esquerda, Zichichi; à direita, a jovem ativista ambiental sueca Greta Thunberg, que, em determinada ocasião, teria dito ao cientista italiano para “não interromper seus estudos”.

Conteúdos similares circulam em espanhol, inglês e francês.

A teoria de que o aquecimento global está relacionado principalmente com as variações no Sol é popular entre a comunidade dos céticos às mudanças climáticas e nas redes sociais. A AFP já verificou publicações que compartilhavam afirmações similares em distintos idiomas (1, 2, 3).

A AFP entrevistou vários climatologistas e todos refutaram a fala atribuída a Antonino Zichichi. Eles recordaram também que essa teoria vai contra ao consenso atual da comunidade científica internacional, que concorda com o papel determinante da atividade humana no aquecimento global ao longo dos anos.

Nos últimos três informes (1, 2, 3) o IPCC também advertiu sobre a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa para limitar o aumento das temperaturas do planeta.

Quem é Antonino Zichichi?

Antonino Zichichi é um cientista italiano especializado em física nuclear. Aposentado, trabalhou para a Organização Europeia para a Investigação Nuclear.

Uma busca por seu nome no Google Scholar exibiu vários artigos de coautoria, mas nenhum trata do tema do aquecimento global.

O site Climateranlti.ti, dedicado a questões climáticas e coordenado por cientistas italianos, criticou a posição climática de Zichichi (1, 2). Em um artigo publicado em 2012, dois cientistas o acusaram de “difundir informações errôneas sobre o tema com a finalidade de frustrar as políticas necessárias para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”.

Este se tratou de uma resposta à coluna publicada em 27 de janeiro de 2012 no jornal norte-americano The Wall Street Journal e intitulada “No need to panic about Global Warming” (Não há necessidade de entrar em pânico por conta do aquecimento global, em tradução livre), assinada, dentre outros, por Zichichi.

“Antonino Zichichi é um conhecido cético climático italiano. Trabalhou no campo da física nuclear por 50 anos e não tem experiência em climatologia: não há publicações climáticas revisadas por pares”, disse à AFP o glaciologista Luca Mercalli, presidente da Associação Meteorológica Italiana e diretor da revista associada Nimbus.

“Os informativos de avaliação 5 e 6 do IPCC admitem claramente que a responsabilidade humana no aquecimento global é quase de 100%”, continuou Mercalli.

Antonino Zichichi é também um dos cientistas do grupo norte-americano The Heartland Institute, “uma organização climatocética, cujo papel foi descrito no livro da [historiadora da ciência] Naomi Oreskes sobre ‘criadores de dúvidas’”, explicou à AFP o climatologista e pesquisador do Laboratório de Ciências do Clima e Ambientais da França Pascal Yiou.

Além disso, todos os especialistas entrevistados pela AFP asseguraram que não conheciam a “Federação Mundial de Cientistas”, da qual Antonino Zichichi disse ser fundador e presidente.

A AFP entrou em contato com Zichichi em 9 de junho de 2022 para perguntar sobre a sua fala compartilhada nas publicações virais, mas até o momento da publicação desta checagem ele não havia respondido.

Consenso científico sobre a origem das mudanças climáticas

A fala de Zichichi foi retirada de um artigo de opinião publicado no jornal italiano Il Giornale em 30 de setembro de 2019. No último parágrafo, o cientista assegura que o clima e a poluição são “duas coisas totalmente diferentes”, e que o aquecimento global “depende do motor meteorológico dominado pelo poder do Sol. As atividades humanas afetam o nível de 5%: 95% depende mais de fenômenos naturais relacionados ao Sol”.

No entanto, os últimos relatórios do IPCC estabelecem claramente a responsabilidade da atividade humana no aumento de temperaturas. Na primeira parte de seu sexto informe de avaliação (2021-2022), os especialistas do IPCC escreveram que é “inquestionável que a influência humana aquece a atmosfera, os oceanos e a terra”.

Em 4 de abril de 2022, o IPCC publicou a terceira parte desse sexto informe, no qual alerta sobre a urgência de tomar várias medidas.

Um percentual que não se baseia em nenhuma fonte científica

A equipe de verificação da AFP perguntou a climatologistas sobre a porcentagem mencionada por Antonino Zichichi.

“Não tenho ideia de onde se pode obter essas proporções”, disse à AFP Gerhard Krinner, diretor de pesquisa do Centro Nacional para a Investigação Científica da França e pesquisador do Instituto de Geociências Ambientais de Grenoble, na França.

“Na minha opinião, isso provavelmente é pura invenção da sua parte. As melhores estimativas atuais são que a atividade humana explica 100% do aquecimento observado desde o período pré-industrial”, acrescentou o pesquisador, citando, também, um artigo publicado na revista científica Nature Climate Change em 18 de janeiro de 2021.

A atividade solar tende a estagnar ou até diminuir

“Para poder dizer que o Sol é a causa do aquecimento global, teríamos que começar mostrando uma variação na atividade do Sol. No entanto, não vemos essa variação”, explicou à AFP François-Marie Bréon, pesquisador do Laboratório de Ciências do Clima e Ambiente (LSCE) da França.

A Nasa explica em seu site que “os cientistas estão de acordo que o ciclo solar e as variações a curto prazo na irradiância associadas a ele não podem ser a principal força impulsionadora por trás das mudanças climáticas que observamos atualmente na Terra”, e recorda que “a produção de energia solar só varia 0,15% durante o ciclo, menos do que seria necessário para provocar as mudanças climáticas que estamos vivendo”.

Embora “as variações solares tenham um efeito sobre o clima”, as que foram observadas nos últimos séculos, vinculadas à energia solar, “são pequenas e não são suficientes para explicar as variações de temperatura que observamos hoje”, disse à AFP Frank Pattyn, diretor do Laboratório de Glaciologia da Universidade Livre de Bruxelas, em 31 de março de 2022. “Nas últimas décadas houve uma diminuição da atividade solar”, resumiu.

A Organização Meteorológica Mundial também recorda em seu site que “as medições satelitais realizadas nos últimos 30 anos mostram que a produção de energia do Sol não aumentou e que o recente aquecimento observado na Terra não pode ser atribuído às mudanças na atividade solar”.

As mudanças de temperatura diferem na atmosfera superior e inferior

“Existem três formas principais de afetar o balanço energético recebido na superfície da Terra” e, portanto, de influenciar no clima, detalhou Pascal Yiou à AFP em abril de 2022.

Primeiro: as erupções vulcânicas, que emitem gases que chegam à atmosfera superior e vapor d’água, que também é um gás de efeito estufa. Além disso, a poeira provocada pelas erupções vulcânicas atenuam a radiação solar, criando um desequilíbrio entre a troposfera (camada inferior da atmosfera, onde se desenvolve a maior parte da vida na Terra) e a estratosfera (camada superior da atmosfera): “Durante uma erupção vulcânica, a atmosfera superior se aquece enquanto a superfície terrestre está mais fria”, explicou Yiou.

A radiação solar é um segundo fator natural que afeta o clima, continuou o pesquisador. Isso afeta toda a atmosfera, a troposfera e a estratosfera combinadas.

Em terceiro lugar, os gases de efeito estufa, como o CO2, também podem afetar o clima. “Esses gases são emitidos perto da superfície da Terra e geralmente permanecem nos primeiros quilômetros da atmosfera e aquecem essas camadas inferiores”, comentou Yiou.

De acordo com esses princípios, se o Sol fosse a causa do aquecimento global, os cientistas observariam um aquecimento igual da troposfera e da atmosfera. No entanto, “observamos um aumento da temperatura da atmosfera inferior e uma diminuição na atmosfera superior, o que significa que o aquecimento se deve principalmente aos gases de efeito estufa”, indicou Frank Pattyn.

Na infografia a seguir observa-se as principais pesquisas dos ganhadores do prêmio Nobel de Física 2021 sobre os modelos climáticos:

O Real Instituto Belga de Aeronomia Espacial também explicou esse fenômeno.

A composição das moléculas de carbono permite determinar sua origem

Os cientistas também podem determinar a origem das moléculas de CO2 (emissões humanas ou naturais). O elemento carbono existe em diferentes formas, chamadas “isótopos”, definidas pela letra “C” e seguida por um número. O carbono formado originalmente a partir da matéria vegetal, como o carvão e o petróleo, é baixo em C13, mas contém C12.

A atmosfera é formada por vários desses isótopos. No entanto, como explicou em abril à AFP Laurent Bopp, pesquisador do LSCE e especialista nos vínculos entre o clima e o ciclo oceânico de carbono, “nos últimos 60 anos vimos que a quantidade de carbono está aumentando na atmosfera, mas que a de C13 está diminuindo. Isso é um sinal de que estamos injetando carbono pobre em C13 na atmosfera, portanto, um carbono procedente de emissões antropogênicas”, ou seja, humanas.

Além disso, o carvão e o petróleo não contêm em absoluto o isótopo C14, já que esse último, radioativo, desaparece em 10.000 anos, muito menos do que o tempo que demora a matéria vegetal para se converter em carvão ou petróleo.

No entanto, ao observar a atmosfera, os cientistas não detectaram - ou em níveis muito baixos - o carbono 14. “Vemos que temos uma fonte de CO2 muito antiga”, provavelmente do carvão ou petróleo, disse Gerhard Krinner.

A distribuição geográfica do carbono também dá indicações aos cientistas. Essa fonte de carbono “vem do hemisfério norte porque o aumento do CO2 no hemisfério sul tem um ou dois anos de atraso”. O hemisfério norte, mais industrializado e mais povoado, de fato emite mais carbono, como já haviam estabelecido os pesquisadores do LSCE em 2019.

Os cientistas também observaram “uma diminuição lenta e fraca da concentração de oxigênio na atmosfera, o que demonstra que há um processo de combustão em grande escala”, comentou Krinner.

“Até o final do século XX havia uma pequena ambiguidade: a atividade solar tinha um papel pequeno nas mudanças de temperatura. No século XXI, 100% do aquecimento global está relacionado com a atividade humana”, concluiu Pascal Yiou.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos