Ativista saudita de direitos humanos é condenada a cinco anos e oito meses de prisão

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A ativista saudita de direitos humanos Loujain al Hathloul foi condenada a cinco anos e oito meses de prisão nesta segunda-feira (28) por um tribunal especializado em casos antiterroristas - reportou a imprensa saudita.

Loujain al Hathloul foi declarada culpada de "diversas atividades proibidas pela lei antiterrorista", relatou o veículo on-line Sabq.

Segundo veículos da imprensa saudita, a pena pode ser suspensa com dois anos e dez meses, "sob a condição de que não cometa um novo delito nos próximos três anos".

A militante se encontra em prisão provisória há mais de dois anos, período que foi levado em consideração na sentença pronunciada, informou a mídia saudita, citando a decisão do tribunal.

Por este motivo, a ativista pode ser "libertada em dois meses", tuitou sua irmã Lina.

Outra fonte próxima à família e o grupo opositor saudita ALQST, com sede em Londres, disseram que ela será solta antes de março.

"Estamos muito desapontados com esta decisão (...). Apresentaremos um recurso, embora não tenhamos muita esperança no sistema judicial saudita", disse à AFP Walid Al Hathloul, irmão da ativista, entrevistado no Canadá.

Esta decisão "mostra claramente que, desde o primeiro dia, o tribunal agiu por razões políticas", acrescentou.

Loujain al Hathloul foi detida em maio de 2018, junto com outros ativistas, pouco antes de o reino suspender a proibição de dirigir para as sauditas, uma reforma pela qual essas mulheres militavam.

- "Injusto e preocupante" -

A Arábia Saudita é amplamente criticada no Ocidente por seu balanço nesta área.

O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, que tomará posse daqui a três semanas, é um fervoroso crítico da repressão no país saudita.

Jake Sullivan, seu futuro conselheiro para segurança nacional, criticou no Twitter a condenação de Al Hathlou, um ato que chamou de "injusto e preocupante".

Por parte do governo em fim de mandato, um porta-voz do Departamento de Estado, Cale Brown, expressou no Twitter a "preocupação" dos Estados Unidos, acrescentando que "esperam sua libertação antecipada em 2021".

O escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos considerou a decisão "profundamente perturbadora" e disse que a detenção do ativista foi "arbitrária".

Mas, segundo a ONG Anistia Internacional, a liberdade condicional não priva a condenação da "crueldade" do regime para com "uma das mulheres mais corajosas" do país.

A França e a Alemanha, por sua vez, instaram as autoridades sauditas a "libertar" Loujain al Hathloul rapidamente.

A ativista havia iniciado uma greve de fome na prisão, em 26 de outubro, mas a interrompeu duas semanas depois, segundo sua família e a Anistia Internacional.

Em 25 de novembro, a família da ativista anunciou que seu caso havia sido transferido por um juiz da corte penal de Riade para um tribunal encarregado de casos de terrorismo.

Este tribunal penal especializado foi criado em 2008 para julgar os casos de terrorismo. Desde então, contudo, tem servido para julgar presos políticos, conforme denúncia de organizações de defesa dos direitos humanos.

- Ações pacíficas -

Segundo o ministro saudita das Relações Exteriores, Faysal bin Farhan al-Saud, Loujain al Hathloul, de 31 anos, é acusada de ter estado em contato com Estados "hostis" ao reino e de ter transmitido informações confidenciais.

Sua família afirma, porém, que o governo saudita não forneceu qualquer prova tangível para apoiar essas acusações.

Outra ativista saudita, Maya'a al Zahrani, também recebeu a mesma pena nesta segunda por crimes semelhantes, informou a imprensa local.

Loujain, uma militante fervorosa da causa das mulheres sauditas, envolveu-se apenas em atividades pacíficas no reino ultraconservador.

Há tempos, organizava campanhas pelo direito das mulheres sauditas de dirigirem e pelo fim da tutela que deixa as mulheres à mercê total dos homens.

Formada pela Universidade canadense da Columbia Britânica (UBC), ela foi detida por "tentativa de desestabilização do reino", pouco antes de a proibição das sauditas poderem dirigir ser suspensa.

A família de Hathloul afirma que, durante sua detenção, ela foi vítima de assédio sexual e de tortura. A ativista relatou, de acordo com sua família, que o ex-conselheiro real Saud al-Qahtani ameaçou estuprá-la e matá-la, o que as autoridades negam.

Não é a primeira vez que essa mulher, natural de Al-Qassim, uma região conservadora localizada no centro da Arábia Saudita, é presa.

No final de 2014, ela foi detida por tentar entrar na Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, dirigindo um carro. Foi solta 73 dias depois, após uma campanha internacional.

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