Ativistas do Pantanal tentam transformar donos de terras em aliados na preservação de nascentes

Cleide Carvalho
·3 minuto de leitura

SÃO PAULO - Donos de terras da Bacia do Alto Paraguai, no Pantanal mato-grossense, têm sido chamados ao diálogo por ativistas ambientais para ajudarem a defender as águas da região. Isso porque 95% das nascentes de rios responsáveis pelo pulso da inundação do bioma estão cravadas em propriedades privadas — sem elas, o funcionamento do ecossistema regional é inviabilizado.

O horror provocado pelas queimadas de 2020 e a perspectiva de que a seca se repita nos próximos quatro anos levaram a Associação Mato-grossense dos Municípios a defender parceria com proprietários rurais para acelerar a recuperação de nascentes.

— Não precisa de lupa para ver que o volume de água para a planície pantaneira está diminuindo ano após ano pela intervenção do homem nas nascentes. Se não fizer a recuperação, mesmo quando aumentar o volume de chuvas seguiremos com menos água — afirma Neurilan Fraga, presidente da entidade.

A Bacia do Alto Paraguai é formada por 13 rios principais. Um estudo do Instituto Homem Pantaneiro mostra que das 139 nascentes primordiais destes rios, apenas 38 mantém cobertura vegetal, necessária para evitar o assoreamento. Outras 101 estão em situação precária.

No Mato Grosso, que abriga nove dos principais rios da bacia, o Sepotuba e Paraguai são os que apresentam nascentes em piores condições. No Mato Grosso do Sul a situação mais crítica é a do Rio Miranda, um dos favoritos dos turistas que vão pescar no Pantanal.

O Instituto Homem Pantaneiro estima que a degradação atinja pelo menos 25 mil hectares de Áreas de Preservação Permanente, que, como o próprio nome diz, deveriam estar sendo protegidas.

— Não adianta apenas denunciar à Polícia Ambiental. É preciso convencer os proprietários de terra a fazerem plantio de mata ciliar (vegetação que circunda e protege os rios) — diz Letícia Larscher, especialista em ecologia e diretora de projetos do instituto.

O Instituto Homem Pantaneiro tem visitado os fazendeiros na tentativa de transformá-los em aliados no replantio de áreas degradadas. A expectativa é a de aumentar a conscientização e implementar projetos de recuperação de vegetação.

Uma das maiores áreas úmidas do planeta, o Pantanal sofre ainda com o calor, que aumenta a evaporação das águas superficiais, e a falta de chuvas.

Em agosto, pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) estimaram que a seca de 2020 na região foi a mais intensa dos últimos 60 anos. Por isso, raízes que costumavam ficar encobertas por águas se tornaram expostas, abrindo espaço para o fenômeno do fogo subterrâneo, que corre por debaixo da terra e dificulta o combate às chamas.

O Pantanal também é impactado pelo desmatamento na Amazônia. A estimativa é que 40% das chuvas que caem na região dependem do sistema de evapotranspiração da floresta amazônica, os “rios voadores”, que levam umidade ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país.

A Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e a Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso percorreram nos últimos meses a Rodovia Transpantaneira, identificando locais onde é possível a perfuração de poços profundos, para garantir água aos bombeiros e matar a sede dos animais.

Francisco Holanildo, superintendente da Funasa no Mato Grosso, explica que o lençol freático raso do Pantanal dificulta o trabalho. A ideia é perfurar de cinco a dez poços na área até janeiro, para que sejam abertos antes da seca.