Atlas da violência: Negros são 75,7% das vítimas de assassinatos no Brasil

Alma Preta
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Levantamento mostra que dos quase 58 mil homicídios registrados em 2018, 43,8 mil eram de vítimas negras; negros têm 2,7 chances a mais de morrer em decorrência de crimes contra a vida
Levantamento mostra que dos quase 58 mil homicídios registrados em 2018, 43,8 mil eram de vítimas negras; negros têm 2,7 chances a mais de morrer em decorrência de crimes contra a vida

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

O Atlas da Violência 2020, que analisa as mortes por causas violentas no Brasil, aponta que 43.890 pessoas negras foram vítimas de homicídio em 2018, o que corresponde à 75,7% do total de 57.956 assassinatos registrados no ano.

A taxa de homicídios para os negros no Brasil é de 37,8 mortes para cada grupo de 100 mil. Entre os não negros, a taxa de homicídios é de 13,9 por 100 mil. No geral, entre negros e não negros, a taxa é de 27,8.

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De acordo com o documento divulgado nesta quinta-feira (27) e elaborado por pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a chance de uma pessoa negra ser vítima de homicídio no Brasil é 2,7 vezes maior que a de uma pessoa não negra. Em 2008, essa comparação era de 2,1 vezes.

Nos últimos cinco anos, 222.325 pessoas negras foram assassinadas no Brasil. Em dez anos, de 2008 a 2018, houve uma alta de 34,2% no total de homicídios de negros.

Em quase todos os estados, exceto o Paraná, a taxa de homicídios de negros é maior do que a de não negros. O estado que apresentou a maior diferença foi Alagoas, onde a taxa de homicídios de negros é 17,2 vezes maior que a de não negros.

Ao considerar a década encerrada em 2018, a morte violenta de negros teve alta significativa nas regiões Norte e Nordeste, de acordo com o aumento na taxa de homicídios: Acre (300,5%), Roraima (264,1%), Ceará (187,5%) e Rio Grande do Norte (175,2%). As menores altas no índice de mortalidade negra, em dez anos, foram no Distrito Federal (54,7%), São Paulo (47,3%) e Espírito Santo (39,2%).

Jovens morrem mais

A nova edição do Atlas da Violência também mostra que os jovens com idade entre 15 e 29 anos representam mais da metade das vítimas de homicídios no país. Mais de 53% dos assassinatos ocorridos em 2018 são de pessoas nessa faixa etária. A taxa de homicídios do perfil jovem no Brasil é de 60,4 para cada 100 mil, cerca de 2,17 vezes maior do que o índice geral de todas as idades, de 27,8 por 100 mil.

Entre 2008 e 2018, a taxa de homicídios no país subiu de 26,7 para os atuais 27,8, um crescimento de 4%. Na comparação com os últimos anos, o índice tem caído. Em 2013, a taxa era de 28,6 e em 2017 estava em 31,6 por 100 mil habitantes. Nos últimos cinco anos, a queda foi de 2,6%, e de 2017 para 2018, houve redução de -12%.

Sem Estado do Desarmamento, número de homicídios seria maior

A apresentação feita pelos pesquisadores que participaram da elaboração do Atlas faz uma ponderação sobre os fatores que podem ter influência na queda da taxa de homicídios. O primeiro é a mudança no perfil demográfico do Brasil com a redução do número e jovens, puxado pela queda na natalidade em décadas anteriores.

Outro ponto que pesa na taxa de homicídios é o controle do porte de armas de fogo, fruto do Estatuto do Desarmamento, em vigor desde 2003. Sem essa legislação, o total de homicídios poderia ser entre 13% e 15% maior.

A introdução de políticas estaduais de segurança pública para controle e prevenção da criminalidade também impactou nos dados levantados pelo Atlas da Violência 2020. Por outro lado, os pesquisadores também apontaram que a trégua na guerra entre as facções criminosas que disputam o tráfico de drogas, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, entre 2016 e 2017, teve impacto nos dados de 2018.

O balanço também faz uma ressalva sobre a falta de dados precisos no registro dos homicídios, que deixou muitas mortes violentas fora das estatísticas. Em 2018, foram contabilizados 12.310 casos de morte violenta por causa não identificada.