Atletas contam como encaram período de blackout do esporte a quatro meses de Tóquio-2020

Carol Knoploch
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Sem competições classificatórias, David Moura acredita que Jogos de Tóquio não terá os melhores atletas

Faltam cerca de quatro meses para os Jogos Olímpicos de Tóquio e nenhum boxeador das Américas sabe se estará no Japão -- a rigor, não há certeza alguma sobre a realização da Olimpíada, entre 24 de julho e 9 de agosto, mesmo com o Comitê Olímpico Internacional (COI) batendo o pé contra a pandemia do coronavírus. É que a primeira e mais importante etapa de classificação da modalidade, o Pré-Olímpico continental, que seria disputado em Buenos Aires, na Argentina, em 24 de março, foi suspenso e não tem nova data nem local confirmados.

O Brasil levaria 13 boxeadores para esta competição que distribuiria cinco vagas dependendo da categoria de peso. E a seleção estava tinindo: tinha acabado de realizar treinamento de três semanas na altitude de Bogotá, na Colômbia, junto com os melhores atletas locais, da Venezuela, Guatemala, Chile, República Dominicana, Costa Rica e Equador.

-- Fiquei beeeem aborrecida – admitiu Bia Ferreira, campeã mundial da categoria até 60 kg. – Mas, depois do susto, penso que ganhei tempo para a preparação. É esperar a nova data e manter o foco, continuar treinando forte. Pior do que manter o peso é controlar a ansiedade.

Bia conta que esta fase de incerteza é um sofrimento. Assim como o torneio foi adiado às vésperas de sua realização, pode ser remarcado também às pressas. E ela não pode descuidar do peso.

-- Então, tenho tomado menos líquido porque ganho peso e aboli o chocolate que costumo comer como recompensa. E isso dá tanta raiva que pode me ajudar na luta.

Herbert Souza, da categoria de até 75 kg, lembra que os 20 atletas da seleção permanente de boxe dividem três casas no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, e que os cuidados para evitar a contaminação foram “triplicados”. Um doente pode infectar a seleção inteira.

Assim, segundo ele, os atletas tem feito apenas um percurso: da casa para a academia e da academia para a casa. Reforçaram a higiene das mãos e passaram a tirar parte da roupa de treino antes de entrar na casa. Levam direto para a máquina de lavar.

-- Também estamos desinfetando os talheres quando comemos no restaurante na rua. Mas acho que o mais importante é a força que um está dando para o outro. Porque alguns ficam ansiosos, outros com mais medo – fala o atleta, medalha de bronze no último Mundial.

Injustiça

A avalanche que derruba o esporte mundial, do futebol ao golfe, prejudica parte importante dos Jogos Olímpicos: a preparação. Cerca de 85% das 50 modalidades olímpicas sofrem com adiamento ou cancelamento de competições seletivas ou preparatórias. Até a Paralimpíada, que está prevista para agosto e setembro, é impactada. O primeiro evento teste adiado no Japão foi o de bocha.

Atletas da natação, que competiriam na França e Holanda, optaram por permanecer no Brasil. Velejadores que treinam na Espanha tem recomendação para voltar ao Brasil. Jogadores de vôlei que atuam nas ligas europeias, também. Seus clubes, porém, não os liberaram.

Treinamentos no exterior, como o do tiro com arco, na Coreia, e no Brasil, em São Paulo, como o do judô, foram cancelados. O prejuízo financeiro de confederações e do Comitê Olímpico do Brasil (COB) cresce a cada mudança de agenda.

Recentemente e por duas vezes, a seleção de judô foi surpreendida no aeroporto com cancelamento de torneio. Um golpe certeiro em David Moura, da categoria mais de 100 kg.

Ele ocupa a oitava colocação no ranking mundial, menos de 500 pontos do também brasileiro Rafael Silva. Os dois estão na zona de classificação olímpica que leva em conta os seis melhores resultados do último ano. E David, vice-campeão mundial em 2017, tem grandes chances de ultrapassar o compatriota já que tem duas notas zeradas. Mas, o ranking foi congelado pela Federação Internacional de Judô e as competições até maio, canceladas. Ninguém sabe o que vai acontecer.

-- Se usarem o ranking de hoje, estou fora. Não acho justo. Mas também não acharia justo se fosse o contrário e o Baby ficasse de fora. Por isso acredito que é preciso ter competições para definir os melhores. A proposta da Olimpíada é juntar os melhores do mundo, competindo entre si. E isso não vai acontecer em Tóquio – opina David, que lembra que há atletas em piores situações, fora da zona de classificação, e com menos chances de pontuar por causa do tempo limitado.

Para Ney Wilson, gestor de alto rendimento da Confederação Brasileira de Judô, este é o momento de reflexão. Ele diz que Tóquio-2020, se acontecer, estará prejudicada de qualquer maneira. Acredita que o congelamento do ranking foi acertado porque todos os atletas devem ter as mesmas oportunidades de classificação. E italianos, chineses, coreanos, entre outros, estão com restrições de viagem

Ele diz que Tóquio-2020, se acontecer, estará prejudicada de qualquer maneira. Disse que o congelamento do ranking foi acertado porque todos os atletas devem ter as mesmas oportunidades de classificação. E italianos, chineses, coreanos, entre outros, tem restrições de viagem.

— Os atletas é que não podem parar. Eles precisam se manter treinando porque ninguém sabe o que vai acontecer. Eles entendem que o que podem controlar, que é o treinamento e a preparação, devem fazê-lo. Mas não devem gastar energia com coisas que estão fora do alcance deles.

Mãe na torcida

Fácil falar e difícil fazer. Que o diga o carateca brasileiro Vinícius Figueira, da categoria até 67kg do kumitê, dono de uma prata e dois bronzes em etapas de Copa do Mundo de 2019. A modalidade, que estreia no programa olímpico, cancelou sua última seletiva e o “colocou” dentro dos Jogos, via ranking olímpico.

Mas, a entidade voltou atrás e anunciou outra competição, em Madri, em maio, como última etapa seletiva (há também um Pré-olímpico como repescagem). Mas a etapa de Madri pode ser cancelada. E Vinícius segue nesse vai e vem.

— Eu me concentro no treino. Quem fica na torcida para fechar o ranking antes de Madrid é a minha mãe, minha psicóloga. Eu, não posso — observa o atleta, que está treinando na Turquia. — Se pensar é simples: não tenho a vaga e por isso treino para conquistá-la. Se eu já estivesse garantido nos Jogos, treinaria de olho em Tóquio. O que tenho de fazer é isso, treinar pesado.

A receita é repetida pela ginasta Rebeca Andrade, que no ano passado teve de operar pela terceira vez o joelho direito. Ela também luta para conquistar uma vaga para Tóquio-2020.

Decidida, afirma que nem sua condição física a derrotou e que não será o coronavírus. A ginasta lutou contra a aposentadoria precoce porque diz que ainda tem lenha para queimar. Na Rio-2016, com 16 anos, foi a 11.ª colocada no individual geral.

Ela voltou a competir após nove meses da cirurgia, na etapa de Baku, no Azerbaijão, da Copa do Mundo. Mas teve de voltar com a delegação do Brasil após cancelamento das finais, na última sexta-feira.

A Federação Internacional de Ginástica ainda não se pronunciou sobre como será a classificação olímpica após este episódio. Até o momento apenas a brasileira Flávia Saraiva está assegurada no naipe feminino.

— Ai, meu Deus! Me proteja porque estou batalhando para ir a Tóquio e não quero ficar doente. Vou fazer tudo o que for preciso para me proteger mas quero viajar para todas as competições que eu puder. Nem que eu tenha que competir de máscara.