Atletas contam como encaram período de indefinição do esporte a quatro meses de Tóquio-2020

Carol Knoploch
Bia Ferreira: assim como todos os boxeadores das Américas, não sabe quando poderá lutar por vaga para Tóquio-2020

A avalanche que derruba competições esportivas no mundo, do futebol ao golfe, prejudica parte importante dos Jogos Olímpicos de Tóquio: a preparação. Cerca de 85% das 50 modalidades olímpicas sofrem com adiamento ou cancelamento de seletivas e torneios preparatórios. A rigor, não há certeza alguma sobre a realização da Olimpíada, de 24 de julho a 9 de agosto, mesmo com o Comitê Olímpico Internacional (COI) batendo o pé e confirmando a competição apesar da pandemia do coronavírus.

A incerteza só aumenta o drama em um ano que já é tradicionalmente tenso para os atletas que buscam vaga olímpica. No boxe, a situação é extrema: faltando cerca de quatro meses para os Jogos, nenhum pugilista das Américas sabe se estará no Japão. A primeira e mais importante etapa de classificação da modalidade, o Pré-Olímpico continental, que seria disputado em Buenos Aires no próximo dia 24, foi suspenso e não tem nova data nem local confirmados.

O Brasil levaria 13 boxeadores para esta competição, que distribuiria cinco vagas dependendo da categoria de peso. E a seleção estava tinindo: tinha acabado de realizar treinamento na altitude de Bogotá, na Colômbia, com os melhores atletas locais, da Venezuela, Guatemala, Chile, República Dominicana, Costa Rica e Equador.

— Fiquei bem aborrecida — admite Bia Ferreira, campeã mundial da categoria até 60 kg. — Mas, depois do susto, penso que ganhei tempo para preparação. Agora é esperar a nova data e manter o foco, treinando forte. Pior do que manter o peso é controlar a ansiedade.

Bia conta que esta fase de incerteza é um sofrimento. Assim como o torneio foi adiado às vésperas da realização, pode ser remarcado às pressas. E ela não pode descuidar do peso:

— Tenho tomado menos líquido porque ganho peso e aboli o chocolate, que costumo comer como recompensa.Isso dá tanta raiva que pode me ajudar na luta — brinca.

Herbert Souza, da categoria até 75 kg, lembra que os 20 atletas da seleção permanente de boxe dividem três casas no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, e que os cuidados para evitar a contaminação foram “triplicados”. Um doente pode infectar a seleção inteira.

Segundo ele, os atletas têm feito apenas um percurso: da casa para a academia e da academia para a casa. Reforçaram a higiene das mãos e passaram a tirar parte da roupa de treino antes de entrar na casa. Levam direto para a máquina de lavar.

— Também desinfetamos talheres quando comemos na rua. Mas o mais importante é a força que um dá para o outro. Alguns ficam ansiosos, outros com medo.

Atletas não podem parar

Atletas da natação, que competiriam na França e Holanda, optaram por permanecer no Brasil. Velejadores que treinam na Espanha estão voltando para o país. Jogadores de vôlei que atuam nas ligas europeias tiveram recomendação para voltar, mas não foram liberados pelos seus clubes. Treinamentos no exterior, como o do tiro com arco, na Coreia, e no Brasil, como o do judô em São Paulo, foram cancelados. O prejuízo financeiro de confederações e do Comitê Olímpico do Brasil cresce a cada mudança de agenda. O COB tem dificuldade para se programar por causa das incertezas.

Recentemente e por duas vezes, a seleção de judô foi surpreendida no aeroporto com cancelamento de torneios. Um golpe certeiro em David Moura, da categoria acima de 100 kg.

Ele ocupa a oitava colocação no ranking mundial, menos de 500 pontos atrás do também brasileiro Rafael Silva. Os dois estão na zona de classificação olímpica e David, vice-campeão mundial em 2017, tem chances de ultrapassar o compatriota. Mas o ranking foi congelado pela Federação Internacional de Judô e as competições canceladas até maio. Ninguém sabe o que vai acontecer.

— Se usarem o ranking de hoje, estou fora. Não acho justo. Mas também não acharia justo se fosse o contrário, deixando Baby de fora. Acho que é preciso ter competições para definir os melhores. A proposta da Olimpíada é juntar os melhores do mundo. E isso não vai acontecer em Tóquio — opina David, que lembra que há atletas em situações piores que a dele, fora da zona de classificação e com menos chances de pontuar por causa do tempo limitado.

Para Ney Wilson, gestor de alto rendimento da Confederação Brasileira de Judô, este é um momento de reflexão. Ele diz que Tóquio-2020, se acontecer, estará prejudicada de qualquer maneira. Acredita que o congelamento do ranking foi acertado, porque os atletas devem ter as mesmas oportunidades de classificação — e italianos, chineses, entre outros, estão com restrições de viagem.

— Os atletas não podem parar. Eles precisam se manter treinando porque ninguém sabe o que vai acontecer. Eles entendem que o que podem controlar, que é o treinamento e a preparação, devem fazê-lo. Mas não devem gastar energia com coisas que estão fora do alcance deles.

Fácil falar e difícil fazer. Que o diga o carateca brasileiro Vinícius Figueira, da categoria até 67kg do kumitê, dono de uma prata e dois bronzes em etapas de Copa do Mundo de 2019. A modalidade, que estreia no programa olímpico, cancelou sua última seletiva e o “colocou” dentro dos Jogos, via ranking olímpico.

Mas a entidade voltou atrás e anunciou outra competição, em Madri, em maio, como última etapa seletiva (há também um Pré-olímpico como repescagem). O evento de Madri, porém, pode ser cancelado. E Vinícius segue nesse vai e vem de emoções.

— Eu me concentro no treino. Quem fica na torcida para fechar o ranking antes de Madri é a minha mãe, minha psicóloga. Eu não posso — observa o atleta. — Se pensar, é simples: não tenho a vaga e por isso treino para conquistá-la. Se já estivesse garantido nos Jogos, treinaria para Tóquio. O que tenho de fazer é isso, treinar pesado.

A receita é repetida pela ginasta Rebeca Andrade, que no ano passado teve de operar pela terceira vez o joelho direito. Ela também luta por uma vaga em Tóquio-2020.

Decidida, afirma que se os problemas físicos não a derrotaram, não será o coronavírus. A ginasta lutou contra a aposentadoria precoce porque diz que ainda tem “lenha para queimar”. No Rio-2016, com 16 anos, foi a 11ª colocada no individual geral.

Com máscara

Ela voltou a competir após nove meses da cirurgia, na etapa de Baku da Copa do Mundo, no Azerbaijão. Mas teve de voltar com a seleção brasileira após cancelamento das finais, na sexta-feira.

A Federação Internacional de Ginástica ainda não se pronunciou sobre como será a classificação olímpica após este episódio. Até o momento, apenas Flávia Saraiva está assegurada no feminino.

— Estou batalhando para ir a Tóquio e não quero ficar doente. Vou fazer tudo o que for preciso para me proteger, mas quero viajar para todas as competições que puder. Nem que tenha que competir de máscara.

Neste sábado, no Canadá, Aline Silva e Lais Nunes garantiram vaga nos Jogos de Tóquio através da seletiva pan-americana de wrestling.