Ato antidemocrático recebeu ajuda de assessores de políticos bolsonaristas

RENATO MACHADO E FÁBIO FABRINI
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***FOTO DE ARQUIVO*** BRASILIA, DF,  BRASIL,  19-04-2020 - O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores que participavam de uma carreata em apoio ao presidente e contra as medidas de isolamento recomendadas por governos estaduais para tentar conter a pandemia do Coronavírus. Algumas centenas de pessoas, várias portando faixas contra o congresso e pedindo intervenção militar, se aglomeraram para ver e ouvir o presidente em frente ao QG (quartel General) do Exército. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASILIA, DF, BRASIL, 19-04-2020 - O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores que participavam de uma carreata em apoio ao presidente e contra as medidas de isolamento recomendadas por governos estaduais para tentar conter a pandemia do Coronavírus. Algumas centenas de pessoas, várias portando faixas contra o congresso e pedindo intervenção militar, se aglomeraram para ver e ouvir o presidente em frente ao QG (quartel General) do Exército. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A manifestação de domingo (3) com pautas antidemocráticas em Brasília, na qual jornalistas foram agredidos enquanto Jair Bolsonaro discursava, foi mobilizada por grupos religiosos e pró-intervenção militar, além de assessores e ex-auxiliares de políticos bolsonaristas.

Um dos movimentos de apoio ao ato foi o acampamento "Os 300 do Brasil", montado em Brasília. O grupo tem entre os organizadores o assessor parlamentar Evandro de Araújo Paula, lotado no gabinete da deputada federal Bias Kicis (PSL-DF), e é liderado pela militante Sara Winter, que se declara ex-feminista e aderiu ao bolsonarismo.

O grupo havia montado um acampamento em frente ao estádio Mané Garrincha. Em posts atribuídos a ele, em redes sociais, o movimento pede adesão dos que estejam dispostas a passar por treinamento com especialistas em "revolução não violenta e desobediência civil", técnicas de "estratégia, inteligência e investigação" e instrução sobre "táticas de guerra de informação".

Os interessados são informados que devem se apresentar à base para depois seseguir para um "QG" secreto, para onde não podem levar celulares. Uma vaquinha virtual foi montada para arrecadar fundos. Até o meio da tarde desta terça (5), haviam sido arrecadados R$ 57,3 mil. Nos posts, o grupo usa expressões como "venha para a guerra".

O acampamento foi desmantelado pela Polícia Militar. Membros de outros movimentos disseram que o grupo está agora baseado em uma chácara no entorno de Brasília.

Apontada como principal líder, a militante Sara Winter chegou a atuar no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, comandado por Damares Alves. Seu nome verdadeiro é Sara Fernanda Giromini, e ela vem sendo acusada nas redes de seguir a ideologia nazista.

Em um post nas redes sociais, publicou a foto de uma reunião em que teriam sido discutidos assuntos do grupo. Na foto aparece Evandro de Araújo Paula, assessor da deputada bolsonarista Bia Kicis.

"Estou só ajudando de forma administrativa esse movimento a acontecer. Estou fazendo contato com as caravanas, conversando com as lideranças, acionando as lideranças em grupos de WhatsApp para a gente manter esse contato", disse.

A deputada Bia Kicis afirma que não tem nenhuma ligação com os "300 do Brasil".

"O meu assessor é uma pessoa livre, um cidadão livre. Ele esteve lá, ajudou o pessoal, mas já se afastou", disse a deputada. "Ele não faz parte do grupo, até porque eu pedi pra ele, apesar de ser livre, eu falei 'é melhor ficar distante disso'".

"‹Outra pessoa na foto postada por Winter é Desiré Queiroz, que atuou com Damares na equipe de transição, embora não tenha sido nomeada para o ministério.

Em nota, o ministério informou que "[a ministra] as conhece dos movimentos pró-vida. Sara Winter foi exonerada a pedido. A ministra não tem qualquer relação com os movimentos citados".

A reportagem fez contato na manhã desta terça com Sara Winter, que pediu para retornar a ligação à tarde. No horário combinado, pediu que as perguntas fossem enviadas por email, o que foi feito. Até a publicação da reportagem, as respostas não haviam sido enviadas.

Outro movimento que participou ativamente de convocações foi o "Direita Conservadora", liderado pelo psicólogo e ativista político Wagner Cunha, de Uberlândia (MG). Figura recorrente em manifestações, no domingo ele discursou no trio elétrico ao lado de Cibelle Rodovalho, prima do ex-deputado federal Robson Rodovalho, líder da Igreja Sara Nossa Terra, um dos principais apoiadores de Bolsonaro no meio gospel.

Num vídeo em que chama público para o evento, postado no Facebook, Cunha aparece em transmissão com Cibelle e defende que Bolsonaro use as Forças Armadas para destituir ministros do STF.

"O Bolsonaro, chefe das Forças Armadas, comandante supremo, pode afastar temporariamente os ministros do STF. Ele afasta e instaura o Superior Tribunal Militar para julgar esses ministros pelos crimes contra a nação brasileira. Inclusive, agora, o Alexandre de Moraes, o Lex Luthor, acabou de cometer um", diz.

Wagner Cunha afirmou, por escrito, que o Movimento Direita Conservadora "surgiu como reação a pautas de esquerda e a tudo o que foi desvendado nas operações da Polícia Federal".

Ele negou que tenha defendido causas antidemocráticas no protesto.

"A responsabilidade de pouquíssimas pessoas que fizeram essas faixas [pró-intervenção militar] é delas."

O ato no domingo, diante do Palácio do Planalto, foi precedido de uma carreata bolsonarista, com cartazes com dizeres contrários a integrantes do Congresso e ministros do Supremo. Um cartaz voltado para o Planalto pedia intervenção militar, mas mantendo-se Bolsonaro no Executivo.

Jornalistas que registravam as falas do mandatário foram agredidos. No dia seguinte, em live de Bolsonaro transmitida nas redes sociais da porta do Palácio da Alvorada, apoiadores do presidente apontaram a aposentada Lúcia Ottoni como organizadora da carreata.

Católica, ex-filiada ao PSC, Ottoni disse à reportagem ser do movimento religioso "Clamor pelo Brasil", um dos grupos ligados à "Organização Nacional dos Movimentos do Povo nas Ruas", que fez rufar tambores para o ato na internet.

Segundo ela, houve convocações para apoio ao presidente, mas não para pautas antidemocráticas, que ela atribui a infiltrados.

A PGR (Procuradoria-Geral da República) investiga quais são os eventuais organizadores e financiadores de outros atos semelhantes ocorridos no dia 19 de abril.

Em outro episódio de ataque em frente ao Planalto, no dia primeiro deste mês, um apoiador do presidente xingou e cuspiu em enfermeiras que protestavam pelo isolamento social.

Trata-se de Renan da Silva Sena, que pelo menos até o mês passado era funcionário terceirizado do MDH.

A pasta comandada por Damaes Alves afirmou ter pedido à empresa terceirizada a demissão de Sena e que ela teria sido concretizada no dia 23 de abril.

No entanto, a reportagem do UOL pediu e não recebeu a documentação que provasse o ato demissionário. Verificou-se também que o email funcional dele continuava ativo.