Ato com Pazuello vai de retrato de 'força política' a evento sem 'viés político'

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***ARQUIVO***BRASILIA, DF,  BRASIL,  20-05-2021 -  CPI da COVID. O ex ministro da Saúde Eduardo Pazuello durante depoimento aos senadores na CPI que investiga a pandemia no Brasil. O relator da comissão é o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o senador Omar Aziz (PSD-AM) preside a CPI. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASILIA, DF, BRASIL, 20-05-2021 - CPI da COVID. O ex ministro da Saúde Eduardo Pazuello durante depoimento aos senadores na CPI que investiga a pandemia no Brasil. O relator da comissão é o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o senador Omar Aziz (PSD-AM) preside a CPI. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O passeio motociclístico liderado pelo presidente Jair Bolsonaro no último domingo (23) foi descrito de imediato por seus filhos e auxiliares como "demonstração gigantesca de apoio popular", retrato de "força política", "melhor pesquisa eleitoral", "festa da democracia" e até "Datapovo".

No entanto, os desdobramentos envolvendo um general da ativa, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, obrigaram o presidente a dar uma guinada no discurso e dizer agora que o encontro "não teve nenhum viés político".

Para forçar uma interpretação do regulamento disciplinar do Exército, Pazuello e Bolsonaro passaram a argumentar que a manifestação não teve natureza político-partidária, o que livraria de punição o general da ativa.

Na defesa formulada como resposta ao procedimento aberto pelo Exército para apurar sua presença no evento, Pazuello usou esse argumento, segundo interlocutores.

Mas a tese de que não teria ocorrido uma transgressão pode não encontrar respaldo junto ao comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira. Após o episódio, em conversas com colegas de farda e de patente, ele manifestou incômodo, inconformismo e insatisfação com o gesto de Pazuello.

O fato de o comandante ter entregue o formulário para que o ex-ministro escreva sua defesa já foi um gesto que denota a gravidade do episódio, segundo generais que conversaram com Paulo Sérgio nos dias posteriores ao ato.

Esses generais temem uma cisão irreversível entre o comandante do Exército e o presidente da República, que é o comandante supremo das Forças Armadas. O temor é de que, diante de uma punição, Bolsonaro decida contestar o ato administrativo, o que elevaria a crise a outro patamar.

O decreto de 2002 que institui o regulamento disciplinar do Exército prevê como transgressão "manifestar-se, publicamente, o militar da ativa, sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária."

O Estatuto dos Militares, em vigor desde 1980, também veda "quaisquer manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores quanto as de caráter reivindicatório ou político".

Bolsonaro passou a última quinta (27) no Amazonas com o comandante do Exército e o ministro da Defesa, general da reserva Walter Braga Netto.

Em sua live semanal, ele disse que o ato com motociclistas não teve viés político pelo fato de ele não estar filiado a nenhuma legenda.

"É um encontro que não teve nenhum viés político, até porque eu não estou filiado a partido político nenhum ainda. Foi um movimento pela liberdade, pela democracia e apoio ao presidente", afirmou Bolsonaro, que está sem partido desde novembro de 2019, quando deixou o PSL.

Bolsonaro começou a mobilizar apoiadores para participar do ato no Rio de Janeiro após o passeio que havia promovido em Brasília, em 9 de maio. De acordo com relato feito à reportagem, o presidente esperava mais participantes e, para não correr riscos, iniciou a convocação para o evento com antecedência.

"Amigos do Rio de Janeiro, no próximo domingo, dia 23, juntamente com o [deputado] Otoni de Paula, vamos dar um passeio de moto no Rio de Janeiro. Fui convidado por várias associações e agora vou neste compromisso, motivo de honra e satisfação, voltar ao nosso querido Rio de Janeiro. Até domingo, se Deus quiser", disse em vídeo publicado no dia 18 de maio pelo deputado do PSC-RJ, que imitou com a boca o ronco de um motor de moto ao lado do presidente.

Do alto do carro de som, Bolsonaro, com dois microfones na mão, diz ter "amplo apoio de motociclistas de todo o Brasil". "Isso nos anima, isso nos traz oxigênio, isso nos traz responsabilidade e autoridade também para poder agir em nome de vocês", disse em uma manifestação transmitida por diversos apoiadores.

O presidente também disse à multidão que "um momento como este não tem preço. Ser reconhecido e ser, porque não dizer, aplaudido por parte da população apesar das dificuldades".

No discurso, Bolsonaro destacou que o "povo brasileiro" é forte e que, "em sua grande maioria sabe dar valor à liberdade aos seus direitos, reconhece nos verdadeiros representantes aqueles que, realmente, estão ao seu lado".

"Vamos sim, cada vez mais, fazendo com que as pessoas eleitas por você melhorem a sua qualidade. E nós temos este compromisso", completou.

Apesar de agora dizer que não se tratou de um ato com viés político, Bolsonaro fez menção ao petista Fernando Haddad, derrotado por ele em 2018.

"Imaginem se o poste tivesse sido eleito presidente da República. Como estaria nosso Brasil no dia de hoje?", indagou o presidente.

Pazuello foi mais breve em seus comentários ao lado do chefe. "Fala, galera", disse o general. "Eu não ia perder esse passeio de moto de jeito nenhum. Tamo junto, hein? Tamo junto. Parabéns pra galera que está aí, prestigiando o PR [presidente]. PR é gente de bem. PR é gente de bem. Abraço, galera", afirmou o ex-ministro da Saúde.

Na sequência, filhos e assessores de Bolsonaro foram às redes comemorar a mobilização e destacaram o caráter político do evento.

Em sua lista de transmissão no Telegram, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) compartilhou texto de um site cujo título é "Bolsonaro mostra força política liderando no Rio passeio com milhares de motociclistas".

"Bom dia a todos, menos pra você que ficou com dor de cotovelo com a demonstração gigantesca de apoio popular do presidente Jair Bolsonaro! Valeu, Rio de Janeiro!!!!", escreveu.

O filho 01 do presidente também compartilhou fotos do ato e disse que "a melhor pesquisa eleitoral é o povo, ao qual [sic] o presidente nunca saiu do lado!". E completou: "Verdadeira festa da democracia!! Parabéns, Rio de Janeiro".

O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) também comemorou a mobilização. "Obrigado a todos pelo apoio gigantesco que oferecem ao meu pai! Isso certamente jamais será desconsiderado!", escreveu no Twitter.

Ao comentar uma postagem do próprio presidente sobre o ato, o secretário especial da Cultura, Mario Frias, escreveu "DATAPOVO".

Semanas antes, pesquisa do Datafolha apontou que a gestão Bolsonaro tinha a aprovação de 24% dos brasileiros, a pior marca de seu mandato até aqui (em março, eram 30%). Já a rejeição ao governo federal (classificação ruim ou péssimo) ficou em 45%.

O levantamento também apontou que Lula (PT) liderava a corrida para a Presidência --41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 23% de Bolsonaro.