Ato feminista reúne 100 mulheres em São Paulo com coreografia surgida no Chile

Ana Letícia Leão

SÃO PAULO — A performance contra o estupro e o feminicídio que começou com mulheres chilenas e se espalhou por vários países chegou a São Paulo na tarde desta quarta-feira. Cerca de 100 mulheres se reuniram no Largo da Batata, na zona oeste da capital paulista, para reproduzir a coreografia "Un violador en tu camino" (Um violador em seu caminho), que viralizou nas redes sociais no início do mês.

Com o refrão "A culpa não era minha, nem onde estava, nem o que vestia, o estuprador é você", as mulheres fizeram uma performance de cerca de três minutos, de olhos vendados, para denunciar abusos.

De acordo com dados do 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em setembro, o Brasil nunca teve tantos casos de estupro quanto em 2018, com recorde de 66.041 registros — aumento de 5% em relação a 2017. Entre as vítimas, 81,8% são mulheres e 18,2%, homens.

Segundo Flávia Estevan, uma das organizadoras do ato e representante do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, a ideia era ser o mais fiel possível à letra da performance original, em espanhol, porém alguns ajustes foram feitos para rimar na língua portuguesa.

— É um ato de apoio a mulheres chilenas, mas também é um ato nosso. Foi uma iniciativa no Chile, em um contexto local, mas para nós tem identidade com mulheres no geral. Dá para tirar do contexto chileno e colocar no Brasileiro e, infelizmente, serve como uma luva.

Criada pelo coletivo feminista Lastesis, de Valparaíso, para o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra as Mulheres, em 25 de novembro, vídeo e coreografia já foram reproduzidos por centenas de mulheres em cidades como Paris, Londres, Barcelona, Nova York, Cidade do México, Instambul, Madri, Berlim e Bogotá.

A ideia de usar vendas nos olhos é chamar a atenção para a dificuldade da sociedade e da Justiça frente a casos de violência contra mulheres. No Chile, o grupo Lastesis também chamou atenção para os mais de 230 manifestantes que, em outubro, foram atingidos nos olhos por balas de borracha lançadas pela polícia durante protestos contra desigualdade social.

Em São Paulo, no final do vídeo, as mulheres gritaram "Paraisópolis, foi genocídio", em uma referência à morte de nove jovens em um baile funk na zona sul da cidade, no último fim de semana.